The Project Gutenberg EBook of Nova Sapho, by Visconde de Villa-Moura

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Title: Nova Sapho
       Tragedia Extranha

Author: Visconde de Villa-Moura

Release Date: August 20, 2008 [EBook #26371]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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DO AUCTOR

      A Moral na Religio e na Arte.
      A Vida Mental Portuguesa.
      Vida Litteraria e Politica.
      Camillo Indito annotado.
      Nova Sapho.
      Doentes da Belleza.
      Bohemios.
      Antonio Nobre.
      Grandes de Portugal (com Antonio Carneiro).
      Fialho d'Almeida.
      Fanny Owen e Camillo.
      As Cinzas de Camillo.
      Os Ultimos.



VISCONDE DE VILLA-MOURA


NOVA SAPHO

Tragedia Extranha

Segundo Milhar




Editores

Annuario do Brasil--Rio de Janeiro

Renascena Portuguesa--Porto


      --O Amor fundiu em mim--Deus, Perverso, Desgraa...

      O Bem e o Mal deram a figura que sou--um bronze de sentimento.
      Realizo o genio sensual da humanidade nevrosada e a vida suave de
      toda a Belleza humilde! Sou Shakspeare e Bandarra:--tenho no peito
      o cachoar tragico da muita miseria e altanaria heroica, que o
      ingls referveu em dramas que so a perpetuidade da Dor-genio; e,
      ao mesmo tempo, a simpleza ingenua da amargura delida por uma quasi
      inconsciencia--aquelle extranho sentir dos loucos que tem o sestro
      de viver alegres as suas e as tragedias dum povo, os bellos crimes,
      como as grandes melancholias duma raa!...

      Da _Elegia da Morte_.

                                                         MARIA PEREGRINA.




I


MARIA PEREGRINA


Encontrei-a indolente, distrahida, em viagem pelo Minho.

Estou a v-la!--mulher de trinta annos, cabellos negros, olhar
ennevoado, sombrio, sobrancelhas luzentes, labios finos, mostrando a
espao os dentes brancos, rosto moreno, talhado em linhas puras, modelo
de bronze precioso de casa antiga, com ademanes de adolescente e
artista. Acompanhava-a uma extrangeira mais nova, de cabellos e olhos
castanhos, muito branca, boca pequena, duma belleza vulgar, que abria em
riso ingenuo, ar aventureiro de quem segue por um mundo de acaso, ao
capricho doutra, da companheira, que a envolvia, s vezes, num largo
olhar complacente e tenebroso.

Percebi entre as duas a mais esquisita intimidade, a que a segunda
parecia dar-se passivamente, mas alegre, por comprazer, numa
generosidade estulta de pessima lassido. Iam quasi  vontade na
carruagem, indifferentes  observao extranha, longe do mundo em que
viviam, trocando olhares perversos, duma sensualidade doentia, ali, 
face de desconhecidos, que s excepcionalmente podiam acceitar com
benevolencia a vida que denunciavam.

Maria Peregrina pareceu-me uma esgotada, figura confusa, a contas com
desequilibrios intimos, que lhe reflectiam fadiga e exotismo.

Eu sentra-me em frente da mais nova--a extrangeira de olhos cr de
burel, muito apertada num costume de viagem, exaggeradamente cingido, de
geito a denunciar-lhe as formas regulares, irreprehensiveis.

Quando entrei tinha ella sobre o logar que eu devia occupar uma caixa de
couro negro, a que prendiam duas correias, unidas por uma fivela. Era a
caixa do binoculo de tartaruga com lavrados de oiro que Peregrina tinha
na mo.

 minha chegada, a extrangeira levantou a caixa. E, como no visse
melhor logar, lanou-a ao hombro esquerdo, com a correia.

Maria Peregrina interveiu:

--Deixa ver, Violet!

E, mexendo na correia:

--Apertaste a fivela ao contrario, vou comp-la...

A inglesa inclinou-se para ella. Olhou em volta, derramando uma luz
suave e quedou a olhar, agradecida, para a companheira. Depois, desviou
a atteno para as arvores, que faziam a escolta da linha ferrea, a
seguir para as pessoas da carruagem, que viu indifferente, como vira as
arvores; disse a Peregrina palavras ingenuas de disfarce, cerca do
caminho, das horas da jornada; e acabou por tamborilar, a mdo, nos
vidros da janella.

Eu observava, interessado, aquellas figuras, que me pareciam to
differentes e que, no entretanto, se bemqueriam, merc duma qualquer
razo de fatalidade.

Maria Peregrina usava uma _toilette_ roxo indeciso, sem enfeites, muito
casada s linhas do corpo, obra de qualquer costureiro de Paris ou
Londres, que quizera honrar a mulher excepcional que fra chamado a
vestir, no lhe sacrificando o corpo magnifico, agora flexuoso de doena
e cansao.

Adivinhava-se nella a mulher de gosto que no discute preo e
superioriza a _toilette_, elegendo os objectos de uso. Trahia-lhe
levemente a gentileza um certo desmancho.

Estendeu a mo anemica, duma finura aristocratica, para as mos vulgares
de Violet, que, indolentemente, lhe palpava os diamantes de dois aneis
antigos que lhe calavam os dedos morenos. Usava um terceiro anel em que
abria um escudo minusculo de signaes heraldicos, que eu no podia ler
pela distancia, e me parecia dispensavel como inculca de raa, pois que
Maria Peregrina a revelava por si.

Tinha quedas bruscas, lassides que reflectia num grande abandono. E foi
num desses momentos que a vi sumida nas almofadas da carruagem, falando
em surdina  companheira.

Percebi que se tratava duma pequena ordem, disfarada em pedido.

De facto, Violet levantou-se, abriu um saco de camura-creme, escolheu
dentre outros um estojo pequeno de metal e offereceu-o a Peregrina.

Esta buscou um tubo comprido de lenticulas, tomou duas e entregou o
estojo a Violet, que voltou a colloc-lo no saco de camura. Pude ver o
rotulo collado ao vidro-voleta. Indicava um excitante invulgar.

--No vaes bem? perguntou Violet, ao sentar-se, rente  companheira.

E mirando-a, com atteno:

--Ests doente? To pallida!

Na verdade, ella lembrava uma daquellas figuras em que o talento, a
tristeza e a espiritualidade se fundem numa affirmao de decadencia.

Era um busto fim-de-raa o de Peregrina, sombria, extenuada numa
indolente indignidade, abandonando-se aos nervos, vencida, e pedindo 
Chimica o emprestimo de excitantes, sophismas ruinosos da mocidade em
desbarato. E, no entanto, s pude v-la com piedade.

Era inferior julgar segundo a minha saude moral o caso infeliz da mulher
extranha, que parecia reflectir nos seus quebramentos o drama lento duma
vida exotica.

E, como quer que percebesse que pela primeira vez olhava para os
passageiros que formavam a ala fronteira  sua, numa expresso de
inquerito e vago pedido de soccorro, vendo o seu desassossego,
lembrei-me de que podia este ser da posio que tomara e offereci-lhe o
meu logar.

--Provavelmente, disse, ella ia mal no sentido da machina; que o meu
logar era melhor e lho dispensaria.

Attentou-me com surpresa, e, depois de alguma hesitao:

-- verdade, supponho que me tem feito mal a posio que escolhi. Mas
no desejo o sacrificio de v.

Levantei-me.

Por sua vez levantou-se; volveu a fitar-me, reconhecida, sorriu
foradamente, e sentou-se.

Percebi que o pequeno esforo lhe aumentara a fadiga; transfigurou-se.

Os largos olhos escuros, habitualmente serenos, indecisos, moveram-se
numa agitao de labareda intima, para logo quedarem, vagos.

Depois de curta hesitao, encostou-se s almofadas e adormeceu.

Dormiu um somno pequeno, de tres quartos de hora.

Naquelle estado de abatimento, pareceu-me a unica maneira de sossegar.

De repente, o comboio estremeceu, galgando numa velocidade imprevista.
Peregrina, que acordou aos primeiros solavancos, dirigiu-se-me:

--Fez-me bem mudar de logar. Estou melhor e muito reconhecida 
gentileza de v. Dormi no sei por quanto tempo, o tempo bastante a
cobrar foras que, de subito, me faltaram.

E eu, solicito e curioso:

--Mas V. Ex. soffre ainda? Talvez fatigada pela viagem...

-- certo, respondeu, animada pela minha curiosidade, estou
fatigadissima. Venho de longe, de muito longe. Sabe v.?--ha um facto que
se d semelhantemente em todos os paizes.  a impotencia, a impostura da
medicina em face da doena. Todo o seu empenho  encobrir as
deficiencias do mister, illudir, mystificar os pobres doentes.

--Emfim, sublinhou com um riso amargo, no podemos querer-lhe mal!

A despeito de todos os epigrammas com que temos flagellado os medicos--
menor coisa os procuramos. No occorre chamar qualquer artifice... Na
maioria dos casos valeria o mesmo.

Pergunta-me v. o que tenho? Sei l o que tenho! Tenho o
_mal-de-viver_--uma doena longe da medicina, que me lassa os nervos,
cria desejos e sensaes inconsumiveis, que me irrita e alheia das
coisas consagradas e me afina a sensibilidade para coisas
pequenissimas--as minhas _futilezas preciosas_. Sou indifferente s
trovoadas, e irrita-me o zunir duma abelha. Tenho o maior desprezo pela
moral de toda a gente; fao do avesso dessa moral uma verdadeira
religio, um culto fervorosissimo.

Envenenei-me outro dia com um ramo de flores de madre-silva. Tive um
prazer doloroso na aspirao desse aroma, que sorvi cheia de
sensualidade, at cahir sobre uma banqueta, tonteada, numa syncope que
foi o espanto do medico que me tratou.

Quando cobrei animo e lhe expliquei o que se passra, suppoz-me doida;
sobretudo quando lhe falei em envenenamento. Affirmou que a flor da
madre-silva no era veneno catalogado. E, como o convidasse a explicar
as minhas perturbaes--a syncope, a garganta em fogo, a sde, os
espasmos, o arrefecimento,--todo o cortejo da intoxicao violenta,
pareceu resolver-se pelo diagnostico que aventei; fingiu tratar-me, e
arrimou-se, em materia de explicao, ao velho bordo--de que eu era uma
hysterica; que o meu caso, devia signalar, era curioso; que cada
hysterica tinha, de facto, as suas particularidades, perturbaes,
exigencias, um tratamento proprio. E com isso me calou...

Que lucrava em amesquinh-lo? Se nunca amesquinhara, conscientemente,
alguem, menos me occorria maltratar quem, afinal, reflectia, segundo o
rito da sciencia, uma trapaa intelligente que podia ter satisfeito
outros, menos exigentes do que eu.

Maria Peregrina falava com enthusiasmo, mas de repente abrandou-se para
dizer, quasi indolente:

--Agora reparo, estou a incommod-lo. Que pode interessar-lhe a historia
das minhas fraquezas?

Ainda na hypothese de que me oua com vagar, os factos que illustram o
meu caso, se lhe interessassem, mago-lo-iam. E no tenho o direito de
pagar a gentileza de ha pouco, lamuriando-lhe a minha vida,
desagradavel. Mas esta no pode, no deve mesmo interess-lo.

Protestei, e f-lo de forma que me pareceu conquistar-lhe a confiana.

Enquanto conversavamos, Peregrina mal se distrahia de Violet, para quem
olhava a miudo, e que, a meu lado, deante della, seguia a conversa com
meia atteno.

 quasi to difficil encontrar quem oua bem como quem fale bem. Violet
abria clareiras de indifferena na historia da companheira, uma historia
exotica, singularmente complicada, em que li todo um indice de miseria.

Pareceu-me que Violet, talvez pouco conhecedora de portugus, no podia
ouvir bem. A maior parte dos esclarecimentos de Peregrina devia escapar
 sua percepo; mas um no sei que de affinidade dava o trao de unio
entre aquellas almas, que eu suppunha fundamentalmente diversas.

O comboio parou.

--Estamos na Trofa, informou um passageiro.

Violet desceu da rde o saco de camura-creme, preparando-se para sahir.

--J?!--perguntou Peregrina, esquecida dos trabalhos da viagem, ou na
previso de peores horas.

E, buscando um bilhete, entregou-me o nome lithographado e esclareceu:

--Vou para Lares, a quatro leguas de Guimares. Tenho l sombras e
silencio. Venho fugida  esturdia civilizada, s grandes illuminaes
com que a cidade estraga a Noite. So as pragas que mais temo--o barulho
e a muita luz!

Emfim, se algum dia quizer descansar, visitar a toupeira de Lares...

--Tambem deso, vou para Guimares. Muito obrigado.

Sahimos rapidamente, e foi j no _tramway_ de Guimares que paguei a
amabilidade de Maria Peregrina, dizendo o nome e explicando que passeava
pelo Minho e ia quella cidade tirar impresses novas das coisas velhas,
visto andar muito ao avesso das glorias contemporaneas.

Fez-se silencio sobre a minha informao. Lemos a um tempo os nomes
trocados. Verificamos que nos conheciamos. Ella lera um livro meu, com
que sympathizara, disse, merc das suas rebeldias. Por minha parte,
esclareci, tinha lido os seus volumes--_Nova Sapho_ e _Emparedada_. Este
era um livro em que ella amplira, segundo o seu caso, os desgostos dum
poeta brasileiro--o Poeta Negro.

Este luctra contra o preconceito de cr, soffrera todo o desprezo
geralmente votado  sua casta e fizera deste desprezo um capitulo de
_Evocaes_, doloroso.

Maria Peregrina Alvares de Lorena e Villa-Verde, que eu conhecia pelas
revistas e por aquelles livros urdira a _Emparedada_--a sua obra prima,
para editar dores intimas.

As paredes que mostrava ao publico--a um pequeno publico, eram os
preconceitos de toda a ordem que lhe entravavam a aco.

Soffrera ms vontades, vexames e desabafra em paginas notaveis, mau
grado serem decadentes, doentias. Para toda a parte para que voltava o
espirito encontrava paredes, escuras e espessas, tatuadas de
obscenidades, allusivas a predileces suas.

A sociedade destinra-lhe uma cella estreita, quando a natureza lhe dera
um talento largo e uma sensibilidade enorme, caldeados dum certo
fatalismo sensual, que lhe abarcava e impopularizava a obra.

Assentava, plena de orgulho, que essa impopularidade era o contraste do
seu genio aventuroso. Mas a sensibilidade abria conflicto com a moral
mdia; e dahi as torturas. No pretendia que a seguissem e admirassem
nos seus delirios; aspirava a que a respeitassem em homenagem ao genio
dos seus defeitos, que amava acima da sua obra.

Ora este conflicto, os vos, as quedas bruscas, tudo o que no
temperamento pode haver de grande, e tudo o que a carne pode dar de
vil--taes eram os themas dos seus versos geniaes, enfiados naquelle
dizer extranho.

No fundo, o livro era a sua historia--uma autobiographia.

Alludi, com enthusiasmo, aos Sonetos, prsos num lindo aro, a uma
titulao leal e exacta:--_Procurando alguem_...

Expliquei que a unica superioridade que me arrogava sobre o grande
numero de confrades era a de acompanhar a propria Belleza que eu no
sentia.

Tinha uma concepo de Belleza que prendia ao meu temperamento--era a
que naturalmente mais exteriorizava. Mas no me era difficil descer ao
intimo duma alma exotica, para viver tempestades alheias.

Conversamos at Guimares.

Seguiu os dados que incidentemente lhe forneci, e inquiriu, amavel, da
minha orientao no esclarecida pelo livro que lra.

Falamos do debate intellectual do momento. Vieram a proposito velhos
cultos.

Cada um de ns tinha concertado um Ceu para os seus santos--um Ceu de
Arte, limitado, que mal encheria duas paginas de Folhinha...

Falei da obra revolucionaria de Dostoewsky, D'Annunzio, da cruzada de
Anatole, Maeterlinck, Nietzsche, Wilde e outros; confrontei a aspirao
dos recem-cruzados da ida-nova com o positivismo estreito dos ultimos
cincoenta annos.

--Que os novos, affirmei, se propunham esbandalhar os diques, mal
cimentados, do bolorento _realismo_; que a grande obra do homem, era,
afinal a alma do homem, utilizada, praticada, alem-fronteiras do vulgar.

Que Zola, por exemplo, apontra todas as grossarias, os aleijes do
corpo, mas no comprehendera os delicados aleijes da Alma, excessos do
sentido; materializra o talento numa causa rude. A sua alma no dra a
expresso duma Arte superior e exacta segundo o espirito.

Assim tambem Ea, entre ns, negativista e bolandeiro, bizarro e
dispersivo: no fundo um homem de letras, com technica extrangeirada,
cortada  feio dos seus fraques, segundo os modelos de Paris, terra
incaracteristica, cosmopolita, transportada a Portugal em amostras da
sua prosa de contrastes, duma rhythmica forada.

Por isso o genio de Camillo, mais o de Fialho haviam batido o seu
talento relativo, que liquidou numa reduzida memoria, concebida com
macula do peccado original de Teixeira Lopes--o doloroso artista.

Que a pelle da gerao passada--a que vestira o realismo--era uma pelle
espessa, escamosa e aspera como a do crocodilo.

A misso nova era outra.

O nosso empenho devia ser, parecia-me, archivar todas as descobertas que
vo alm do commum, tom-las como factos, fazer da duvida uma fora,
caminhar sobre a ida conquistada, formular novas theses, acceitar o bem
e o mal, a vida creada e latente, tomar os proprios devaneios como
factos, pois que a imaginao  tambem um facto e primordial, notavel.

Assim,  Belleza do sentimento succedera na ordem critica, a escola do
motivo averiguado. Para ns,--sentimento, os dados positivos, segundo a
escola anterior, toda a elementao, creada ou latente, vo dar a uma
escola nova, religiosa, universal, compativel com todas as razes e
servindo a concepo da Vida, segundo os processos mais largos e
alevantados. Primeiro a Literatura da Belleza, medida a compasso, feita
preciso; a esta seguiu-se uma Arte exclusivamente sentimental; ns
assistimos ao exaggero inverso, que quasi nos deu a negao do
sentimento. O papel dos escriptores de hoje, apostolava eu--quasi ao
findar da viagem--era apagar os preconceitos, aproveitando tudo e
partindo da Literatura das idas e dos factos para a Literatura das
imagens, caminhando, confiadamente, sem exclusivismo e sem pressas.

--Sim,  verdade, confirmou Peregrina, o que perdeu os passados foi
pretenderem fazer girar a terra em volta delles.

--Veja V. Ex., continuei, os nossos liliputianos do Positivismo.

Theophilo Braga, por exemplo, deixa este mundo com a ida de que esgotou
a especulao mental; escreveu, suppe, a ultima palavra da grande
synthese poetica e philosophica da Nacionalidade; e a sua morte,
parece-lhe, por ponto na vida de Portugal, enchendo e fechando o
Pantheon...

--Guimares! gritou o empregado.

Chegramos.

Maria Peregrina, ao despedir-se, insistiu:

--Que fosse a Lares, passar algumas horas ou dias, consoante a minha
disposio.

E to interessadamente o fez que prometti visit-la, apenas me
desobrigasse de Guimares.

--Pois veja se tira tempo para mim, e v com vagar. Se fr com tempo e
na disposio de ouvir-me, prometto contar-lhe episodios, que at agora
tenho calado.

E sabe? disse com tristeza, talvez que estes episodios--o romance dos
meus erros e amarguras--valham a Historia, que prende ao bandoleirismo
dos Affonsos.

Liga-o  minha sensibilidade, a philosophia serena que usa, mau grado
ser austera. Prometto fazer-lhe as _minhas confisses_, que marcam mais
ousio, ver, do que as celebradas confisses de Rousseau.

Quero mesmo que tome commigo o compromisso de dizer um dia, em publico,
o que lhe communicar. Reproduzir religiosamente o que souber de mim,
isto , tudo o que lhe contar ou tenha por verdadeiro a meu respeito.
Quero que os que esto por vir apprendam no meu caso a coragem da
verdade.

Saber, ento, quem fui e sou.

At Lares!


II

Foi por uma tarde de junho, quente e avermelhada, que tomei
pacientemente um carro, indicando ao boleeiro o nosso destino--a Casa de
Lares, mais de legua para alm das Taipas.

De Guimares s Taipas viajmos com dia. Anesthesiavam-me dos tratos da
jornada a tarde e a paisagem.

Ao lado havia milheiraes espessos; perto, alas de giesta, florindo as
curvas mal lanadas da estrada; na borda dos campos--choupos nodosos, a
apoiarem vides grossas, de cachos verdes, cerrados; mais para alm, nos
panos altos--renques de pinheiros bravos, que pareciam tocar o ceu, fogo
e madre-perola.

Nas Taipas demormo-nos. Quando seguimos era noite; recolhiam os
aquistas aos hoteis, na mira das dansas e da intimidade dos sales. A
estrada, a partir dahi muito guardada pela ramaria das carvalheiras, que
bracejavam fra das divisorias, era pouco passeada  hora em que a
percorriamos. O carro seguia extenuado, vagaroso, denunciando a m
rodagem; ouviam-se os arreios folgados, de encontro ao corpo magro dos
garranos, o estalejar do chicote, as pragas do cocheiro, teares abrindo
falsete na toada crepitosa da noite.

A uma legua das Taipas o carro inclinou para a direita; os solavancos
multiplicaram-se. Interroguei, receoso, o boleeiro:

--Que rumo levamos?

E, dando por um ponto, que pouco mais dava ao carro do que uma tarja de
palmo--pedia-lhe cuidado, aconselhando-o a parar, pois me no convinha
ir ter ao leito do ribeiro, muito cavado e pedregoso.

--Que eu era um dorido, commentou o homem, sereno; que aquelle era o
caminho velho, o mais curto, e dahi por doze minutos estariamos em
Lares.

Seriam nove horas, proximamente, quando chegamos.

Exultei; estava, pois, em Lares, a bem dizer na Terra Santa...

Apurei a vista, e, enquanto o cocheiro batia  porta-fronha, espionava
eu, fra do carro, a cerca alta do solar, com ameias de metro,
alternadamente rectas e recurvas, sobrias de desenho.

Cortava o muro, a meio, um enorme frontal, inserindo um escudo ramalhado
de signaes heraldicos, a que um capacete fidalgo punha fecho.

Projectava-se no cho lizo, que circuitava o muro, uma sombra de renda.

Era a silhueta das ameias e frontal.

Passados minutos, abriu-se uma das folhas da porta-fronha. Appareceu a
cabea grisalha dum minhoto authentico, a inquirir quem eramos, e o que
queriamos.

Expliquei a chegada, e fui introduzido no primeiro salo de Lares, e, a
seguir, abraado por Maria Peregrina, muito admirada da temeridade, por
ter ido sem a avisar.

--Que me teria mandado a carruagem, informou, e para o atalho a
liteira;--que eu suppuzera as estradas do Minho similares em arranjo s
grandes avenidas do Rio de Janeiro--uma amabilidade para Lares, que me
sahira cara...

E eu, desmanchado, confirmava--que era pouco cauteloso, embora muito
experimentado em desenganos; que devia contar com a sua generosidade,
evitando aquelle desastre. E, deprimido, sumia-me numa cadeira larga,
commodissima, e um pouco de geito a reparar as torturas mais reparaveis
da jornada.

Estive assim dois quartos de hora, succumbido, deante de Maria
Peregrina,--que me lamentava, maldizendo o caminho e a minha ida de
jornadear  doida.

Dentro, na sala proxima, conversava-se em surdina.

Levantei-me quando me senti reanimado a despir-me da poeira, voltando,
em seguida, ao salo donde fui com a Artista para a casa interior--a das
visitas, onde conversavam as duas pessoas que ouvira antes e Peregrina
me apresentou:--o prior do Mosteiro e uma senhora de edade, a Morgada de
Soutello.

O prior, homem de meia edade, usava batina preta muito cingida, caseada
a roxo a dizer com a volta e faixa larga de seda, e um anel de
amethysta, em oiro simples. Tinha o nariz adunco e estreito, sobre que
assentavam uns oculos quadrados de lentes grossas a inculcarem
pronunciada myopia, que no prejudicava o seu olhar resignado, vasando
um espirito intelligente e manso.

Usava o cabello quasi rente. Era um pouco curvado, franzino e distincto.
De resto muito sombrio, e, no dizer de Peregrina, em tudo avesso ao typo
classico do abbade minhoto--no geral bonacheiro e grosseiro.

--Que lhe parecia um santo monsenhor Jos d'Andrada, explicava 
puridade. Conhecia-o desde pouco, visto que o prior chegra ao Mosteiro
depois della ter sahido: havia annos que no entrava em Lares. Tinha com
o padre relaes duma semana, meras relaes de cortezia; mas destas
aferira j uma especial delicadeza, que o extremava dos collegas.

E acrescentou:

-- um apostolo de rara valia. Ao menos assim o inculca a fama. Foi
regular de S. Vicente; no entretanto, parece que a communidade abriu
condies aos seus talentos, pois que se opps ao beneficio da Parochia,
e ao titulo que lhe deram.

A morgada de Soutello, D. Maria Helena Alvares Moniz e S de Pamplona,
tinha sessenta anos, gastos em viagens pias, devoes e os maiores
cuidados com a saude e instruco duma filha, rapariga interessante,
segundo Peregrina.

A velha fidalga era senhora de poucas letras, conforme o uso antigo nas
pessoas da sua prosapia. Tinha, contudo, maneiras distinctas, que a
absolviam das poucas letras.

Offereceu-me uma cadeira junto de si, apenas lhe beijei a mo, ao
ser-lhe apresentado, e ficamos a conversar.

--A Tia, comeou Peregrina,  uma das pessoas que se condoe da minha
soledade e me visita com mais affecto. Presumi, ao recolher a Lares, que
tinha de contar, smente, com as sombras da quinta. Mas Deus comea a
transigir commigo; nem sempre me sinto s.

--Sabes, Maria, commentou a senhora de Soutello, que fui condiscipula de
tua me no convento de S. Lazaro no Porto; foste minha filha adoptiva
nos primeiros annos de educao; teu pae foi o mais querido dos meus
irmos; que desde creana te estimo...

Tua me, j no collegio, era uma santa. E assim a veneram os lavradores
do Mosteiro. O carneiro que a guarda  uma casa de milagres. Ah! como
hode doer-lhe no Ceu as tristezas em que ainda hontem nos falavas!

Sempre triste, nem pareces a creana que vi cabriolar ha vinte annos.
Emfim, creio que este sossego, quando melhor o comprehendas, hade
trazer-te alegrias.

Ha tempos o monsenhor, quando estavas na Italia, disse-me que eras
infeliz. Perguntei-lhe os motivos da tua infelicidade, mas fez-se
desentendido; limitou-se a affirmar que havia temperamentos felizes e
desafortunados e tu eras dos ultimos; que s Deus sabia ao certo as
razes das desditas deste mundo, e ns tinhamos obrigao de
respeit-las, as grandes, sobretudo.

Na occasio, magoou-me tal noticia. Depois, lembrei-me de que tambem o
monsenhor  homem para exaggerar desgostos, vendo os dos outros, como v
os seus, com amargura serena--a que mais impressiona.

E voltando-se para mim:

--Dei razo  Salom, que ainda ha dias repetia que Peregrina tem o
prazer do soffrimento. Vou crendo que seja assim. Como ella nota, Maria
Peregrina no pde com o bem!

--Ah! a Salom suppe ento que eu fao luxo em ser triste? perguntou
Peregrina.

--Pois que duvida?! insistiu a Morgada, olhando para mim de geito a
alliciar-me para a opinio da filha:--rica, rapariga de talento,
representante da primeira fidalguia de Entre Douro-e-Minho, que mais
pde desejar? Deus nos no castigue!

Que, a falar verdade, disse, descendo a voz, e encarando-me, ha um facto
que me entristece. No nos falta prosapia na ascendencia, nem bens, nem
honras de toda a ordem; e, no entanto, no temos ascendentes felizes:
que immenso drama podemos ler nos pergaminhos de familia!

No sei se sabe, disse, que no braso de Lares ha uma linha negra que
tarja um dos esquartelados do escudo, separando os appellidos que
inculcam a razo fidalga desta Casa.

--Informei que tinha reparado no trao, mas lhe desconhecia a origem.

-- uma historia triste, informou D. Maria Helena. Haver trezentos
annos que um antepassado nosso varou com um tiro numa caada, em
Granada, por desastre, um principe da Hespanha. Dahi o ter sido ordenado
que no braso ficasse perpetuado o lucto pela memoria do Principe e
desgosto desse nosso ascendente--D. Arnaldo Affonso Duarte de Biscaia
Alvares Moniz e S, que depois morreu no mosteiro de Ancde, em
Portugal, frade exemplar, com honras de justo e suspeitas de santo.

Lembro-me de que aquella fatalidade, expressa no braso de familia,
depois de trezentos annos--domine ainda a historia duma descendencia to
illustre como a desta Casa.

Mas deixemos agoiros...  preciso no tentarmos a Deus, conciliou.

E voltando-se para Peregrina:

--Entrega-te a Deus absolutamente. A tua philosophia, no fundo, vale
tanto como os meus agoiros:--nada. O que vale neste e no outro mundo  a
grande Lei. No  assim, monsenhor?

E pedia o reforo do prior, que ouvira de p a ultima parte das
consideraes de D. Maria Helena.

-- verdade, senhora Fidalga, assentiu. Mas, accentuou, sibyllino, cada
um tem de servir a Deus segundo os meritos, os talentos, o temperamento
que elle distribue... Ora, o servio de Deus torna-se muito complicado
para os espiritos complicados. No culpe V. Ex. a sr. D. Maria
Peregrina pelas suas especulaes sombrias. Pea a Deus que a alegre, e
lhe transforme a vontade e os nervos, sem prejuizo dos talentos.

--Deus pode tudo, monsenhor, disse a Morgada, forte de f. Mas s Elle
sabe a opportunidade de intervir.

Seguia a conversa, animada, quando correu o reposteiro da esquerda,
entrando na sala uma linda rapariga de 25 annos, proximamente, loira,
olhos azues, rosto branco, ligeira e graciosa.

E a Morgada, interrompendo-se:

--Que tens feito? Estava a ver que tinhas ido s para Soutello.

E voltando-se para mim:

Era capaz disso. No imagina a coragem desta rapariga. Sae ao lado dos
Pamplonas, que no temiam coisa alguma.

--No, minha me, disse com simplicidade Salom, venho do jardim. Est
luar, o jardim  um encanto. No imagina o effeito do luar sobre os
cravos cr de enxofre. E as dahlias? Oh Peregrina, hasde dar-me dos teus
craveiros, dahlias e aparas de roseira. O jardim de Soutello  to
pobre!

--Sim, Salom, concedeu Peregrina, tudo o que ahi houver e te agrade.
Pena tenho de no poder mandar-te o jardim em tabuleiros. O que ahi ha 
obra do Jos Loureno. Coitado! como sabe quanto gosto de flores, tem o
maior cuidado nesse rendimento sagrado da quinta.

Mas, a falar verdade, desde que vim, mal attentei nos canteiros; tenho a
impresso de que tambem as flores comeam a ver-me mal.

Manda buscar o que quizeres.

--Sempre boa, observou a senhora de Soutello.

--Vou ver, interrompeu Salom. Tenho ainda um pedido a fazer. Sabes qual
?

--No sei, disse Peregrina, fitando-a.

--Nem presumes o que seja?

--No, confirmou Peregrina.

--Queria ouvir tocar. Ha annos que te no ouo. E os violinos dos outros
parecem-me instrumentos differentes.

Peregrina teve uma contraco de desgosto:

--Se tens caridade no me peas tal sacrificio.

No tco ha muito tempo. Ha annos que fao por esquecer o violino. Desde
o collegio...

E apontando-me, e retrahindo-se num sorriso que mais lhe accendia a
contrariedade:

--Este meu amigo deu-se  travessia de Guimares at aqui num carro do
Tocaio!  das maiores penas que conheo. Pois proponho-me repetir a
heroicidade, se me dispensares do violino; nem sabes que desgostos me
recorda...

--O que?! interrompeu Salom. No mais tocar! Quero ouvir-te,--tem
paciencia!

Chamando:

--Violet! Oh Violet!

Abriu-se a porta e, dentre o pano amarello, debruado a vermelho,
amarfanhado, do reposteiro, surgiu a cabea ingenua de Violet, que vinha
saber o que queriam.

E Salom, entre azougada e meiga:

--Vaes fazer-me um favor. Chamei-te porque deves saber onde veiu o
violino; traze-o, sim?

Violet encarou Peregrina, e sahiu, apressada, a cumprir a ordem.

Quando ella chegou, Salom pegou na caixa de bano, uma especie de
esquife de creana, abriu-a, com affectado cuidado, e passou o
instrumento, com o arco, para as mos da parenta, que recolheu tudo com
um enleio que me fez pena. Depois levantou-se, e, voltando-se ainda uma
vez para Salom, como quem pede clemencia, perguntou:

--Tem ento de ser?

A um signal della, comeou serena a afinar o violino, mas,
repentinamente, arrancou do arco e, quasi sem que o esperassemos,
entornou em volta de si, naquella sala de geito nobre e antigo, uma
harmonia tumultuosa, perturbadora.

Na sua pelle trigueira esparsavam-se reflexos da labareda que a ateava,
notas dum misto macabro, melancholia, fora selvagem, enthusiasmo,
exotismo, aturdimentos de Arte...

A sua figura, duma belleza gasta, espectrava, numa cr e luz de magica,
expresses visionarias.

Era o index duma alma polychroma, vasando luz e sentir na alma ductil do
violino.

Executava um trecho de Chopin. Nas ondas daquella harmonia nervosa e
suave, casara-se tudo--o genio de Chopin, a alma do violino, o enredo
daquelle tecido de musica, simultaneamente divino e infernal, sobretudo
a vibrao dos nervos dolentes de Peregrina, esquecendo outras cordas...

Victoriamo-la, quando acabou. O remoinhar daquella alma emotiva de
mysterioso, communicara-se, afinal, a todos, a tudo. Deixra no espao
nervos, fios quebrados de harmonia...

--Muito bem, dizia a senhora de Soutello, levantando-se, leve de
enthusiasmo, a beijar, carinhosa, a Artista.

--Soberbo! dizia a Salom.

E orgulhosa:

--Querias ento que fossemos cumplices no teu silencio? Nunca!...

E retirando com Peregrina para o vo duma janella:

--Que alma emprestas  musica! Ainda me lembro da penultima vez que te
ouvi tocar. Era creana, mas recordo-me, como se fosse hoje. Eu fui, com
recato, procurar o violino, e, quando menos o esperavas, pedi-te para
que tocasses. E, ento sem as hesitaes de ha pouco, fizeste-me a
vontade; lembras-te?

-- verdade, concordou Peregrina. Tens saudades desse tempo? Tambem me
lembro delle, pois foi do melhor que passei. Mas entro na sua
rememorao como num templo, onde vivi crenas que morreram. A rapariga
de ento no existe mais. Sou a sombra della, a aventureira, que talhou
alegrias e paz, que no podia viver.

--E porque no? inquiriu commovida Salom, beijando-a. s a culpada das
tuas infelicidades, afinal de meras melancholias. S o que deves ser. V
o que se passa commigo, quasi sempre na aldeia, em companhia de mestras
hediondas, e sempre alegre, at feliz. Tudo me  sympathico, a paisagem,
a gente do Mosteiro, as mil coisas que me rodeiam; tu nem pareces deste
mundo!

--Sim,  certo, concordou Peregrina; sou a obra postuma daquella
rapariga que ha vinte annos era alegre!

--Mas porque no hasde voltar a s-lo? Remete-te  antiga vida de Lares.
Procura-te nas recordaes, e esquece algumas horas ms, se as tiveste.
Todos podem ser felizes, ainda aquelles que os outros suppem
desgraados. Em Soutello ha um cego que me condoeu quando o vi a
primeira vez. Pois no conheo pessoa mais resignada. Imagina que v;
descreve tudo a seu modo; e como tem uma imaginao alegre, s v coisas
alegres.

--Sim, acredito. O peor no  ser cego:  termos de conduzir de olhos
abertos um temperamento cego.

Salom olhava, commovida, para a Artista. Percebi que ia sendo
inconveniente perto daquelles dois espiritos que pretendiam ligar-se
pelo passado.

Retirei com o monsenhor. Conversamos acrca de Peregrina. Perorei a
apologia condicional da obra della, explicando as minhas reservas para
uma parte do seu trabalho, pelo que ahi havia de doentio.

E monsenhor, como falando comsigo:

--E quem sabe se o talento della no  a doena? Se curando-se no faria
de si uma creatura vulgar! No sei porque, murmurou, imagino que a sua
obra prende na malha dos seus nervos, que parecem feitos de seda e
esparto... Repare nella! Veja como a alma lhe tatua o rosto, permeavel
ao soffrimento; os livros della so a sua physionomia; revivem, exprimem
tudo--corpo e alma.

Extranhos commentarios para um padre, antigo regular da Ordem de S.
Vicente!

Notou a minha extranheza e, muito sereno, commentou:

-- curioso como, em geral, so considerados os padres e, sobretudo, os
regulares. Ou os suppem uns bandidos de batina--estylo _Padre Amaro_,
do Ea--ou uns boies de imbecilidade, e appetites grosseiros.

Ora eu posso garantir a v., continuou, que lhe valeria a pena e a todos
aquelles que se devotam s letras descobrir a rede de amarguras e dramas
passados nos conventos. A verdade do mundo mystico excede a imaginao
mais requintada; o confessionario  ainda a escola maxima para o padre
intelligente e bom. Que satisfao eu tenho em perdoar, com a inspirao
de Deus, os maiores delictos e baixezas da materia;  ento que Deus me
parece grande, immenso de bondade!

--O meu excellente monsenhor no me leva mal, observei, que encontre a
sua doutrina interessante, mas um pouco heterodxa.

--Ah! sim, respondeu vivamente; ahi est porque prefiro a vida livre do
presbyterio  da communidade. Repugna-me mentir. Cada penitente  um
doente especial que precisa tratamento proprio. Mas numa terra como esta
raramente apparecem os casos graves. A pena de seis padre-nossos e uma
esmola purifica uma aldeia. Nos conventos, e, melhor, nos
conventos-collegios a casuistica  diversa. Ha ahi os temperamentos
anormaes, em que a reza e o jejum esterilizaram a alma para tudo o que
no  de Deus, segundo Roma; e ha os outros, os que por educao ou
tara, compatibilizam Deus com as fraquezas da carne e da alma.

Os primeiros servem a Ordem, segundo as taes regras. E, com assentimento
da Egreja, condemnam, indifferentemente, os _peccadores_. Os outros, os
que chamam a si os casos mais extranhos, para os aperceberem e sentirem,
so os relapsos da Ordem, os que as congregaes relegam em nome da
disciplina, a bem das communidades.

 claro que ha um meio de illudir contingencias;  recorrer 
hypocrisia, no pensar alto, seguir a popular doutrina do Frei Thomaz...
E este , de facto, o uso dalgumas ordens. Veiu este discurso todo a
proposito da senhora D. Maria Peregrina; por mim, concluiu, lamento-lhe
as fraquezas como os talentos,--mas deixe-me informar v. de que a
estimaria menos se fosse escorreita como o seu procurador.

Sou o pastor da freguezia, o _pae_ dos meus freguezes, na traduco do
meu primeiro e melhor titulo--o de padre. Como todos os paes, amo de
preferencia os filhos mais desgraados.

--Ah! de certo, concluiu fatal, estim-la-ia menos, se a no soubesse
infeliz...

Interrompeu-nos Maria Peregrina, executando um trecho de Wagner,
tempestuoso, sombrio.

No podia ter melhor interprete o grande compositor. Pensei na
transmigrao do talento e disse-o  Artista...

--No  o caso, contrariou,  que vivi agora um pouco da emoo que
tinha deixado arrecadada no Mosteiro; milagre da Salom, que me obrigou
a resuscitar parte do que fui.

Onze horas.

Abriu-se o reposteiro e entraram trs creados de libr azul, conduzindo
taboleiros com doce; e, a seguir, um ano, de pouco mais de cinco
palmos, apertado num dolman e calo de seda preta, ar mysterioso, olhos
cr de azeite, sardento, cabello ouriado, face pergaminhosa, edade
dubia.

Peregrina chamou:

--Jacob!

E, dirigindo-se-nos, offereceu os vinhos e licores que elle trazia.
Recusei servir-me. Queria sossegar os nervos, excitados pela viagem.
Entretanto, reparei no ano.

-- um monstro singular, observou Peregrina, dando pelo meu exame. 
allemo; trouxe-o de Athenas, duma barraca de feira, onde se mostrava
por pouco dinheiro. Alm do allemo fala o hespanhol, o italiano e vae
comprehendendo e conversando o portugus.

E fazendo-lhe signal para que retirasse:

-- extravagantemente intelligente e velhaco; tem vinte e nove annos;
no perda a altura e o desenvolvimento dos outros. Chego a supp-lo
justo. E, como quer que seja, trouxe-o commigo numa hora de humor
exotico que s elle podia encher;  um capricho envelhecido, um monstro
que me interessou...

-- tarde, disse alto a senhora de Soutello, levantando-se  procura dos
agasalhos. manh venho  missa ao Mosteiro, informou, voltada para o
monsenhor.

--Ser s onze horas, disse elle, se V. Ex.as no mandarem o
contrario.

--Havemos de estar antes, replicou D. Maria Helena.

Despedimo-nos.

      *      *      *      *      *

Levantei-me na manh seguinte, eram dez horas, dando a volta ao terreiro
a analysar a Casa, que vira mal quando cheguei.

Era um edificio Renascena, com janellas de curvas abatidas, recortadas
em bisel, portaes baixos e largos, ornados de corda aberta em boa gran,
cornijas de telho vidrado, faixeando a casa, e um beirado, quasi rente,
 volta.

O portal maior ostentava, por entre os desenhos da cimalha, o escudo de
familia. Nos panos da frente e no que olhava para o ribeiro, appareciam
asymetricos varios symbolos:--a cruz manuelina, espheras, caravelas, e o
timbre heraldico dos senhores de Lares--um cysne segurando uma aspa
bordada de castellos.

Internei-me pelo arvoredo, a rememorar o passado do velho senhorio, que
governra em tempos muitas leguas em redor.

 direita, era o jardim que, na vespera, tinha ouvido elogiar. Fui v-lo
de perto. L estavam os cravos, as dahlias-sangue, flores variadas de
enxofre e carne.

Ao voltar-me dei com Maria Peregrina, que, na extrema, conversava com
Salom, sentadas ambas num banco de azulejo alto.

Juntmo-nos, trocando impresses sobre a Casa de Lares. De passagem,
Peregrina chamou a minha atteno para o mobiliario, que dizia
deteriorado, mas authentico, e raridades de faiana portuguesa, velhas
porcellanas da China, telas, marfim e a sua colleco de esculpturas,
copia de bons modelos, com uma ou outra figura assignada.

Entramos em casa  hora em que o sino do Mosteiro annunciava a missa do
dia. O monsenhor devia estar a revestir-se. Violet e Salom seguiram
para a Egreja.

Dei razo ao orgulho de Peregrina, insinuando atteno para o resto da
grandeza que podia ler-se no interior de Lares.

A sala de entrada, coberta por um tecto em masseira, que repetia na face
mais larga o escudo dos portaes, era vestida de carvalho, tendo em baixo
um socco de vara e meia de alto, almofadado, e com feitios que variavam,
segundo o desenho asymetrico dos cachorros.

Entre o roda-p e o faixeado alto entalhavam os retratos de familia,
emmoldurados em tiras de carvalho bordado, com escudos a marcarem a
prosapia dos retratados.

Nos intervallos dos retratos havia contadores hispano-arabes, um cravo;
ao centro, um buffete de pau santo.

Sobre estes moveis pousavam alguns bronzes, lavores de marfim,
exemplares de olaria, contadores minusculos de oiro e tartaruga,
joias,--tudo o que podia recordar a belleza passada, o capricho exotico
dum mimo fidalgo e senhoril.

Dentro, a sala seguinte era um compartimento pequeno com tecto em
castanho, dourado, talhado em xadrez, de flores caprichosos marcando a
junco dos quadrados, guarnies do mesmo desenho e um socco desegual.
Em volta bancos gothicos guardavam nos escaninhos preciosidades,
bugigangas de Arte.

Era nesta sala e sobre umas credencias, muito enfloradas de boa talha do
renascimento, que pousavam as melhores estatuetas da colleco.

Percebia-se o amor posto na sua guarda, to escrupulosamente tinham sido
conservadas. Nalguns panos da sala, havia telas esbatendo talento,
sonho, ingenuidades picas.

A parede principal era coberta por uma arvore genealogica, tracejada em
pergaminho, oleado de velhice, onde uma rde de linhas descompostas
prendia escudos polychromos, manchas de grandeza maltratada.

Em frente, no outro pano, pendia uma armadura incompleta que remontava
ao tempo de Pedro II.

O resto da casa condizia em arranjo com as duas salas; espalhavam-se
pelos compartimentos armarios, arcas, contadores e camas de muitos
seculos.

Ao passo que iamos vendo o mobiliario, iamos discutindo algumas peas de
que Peregrina fazia a historia.

De repente viu o relogio, e, disse, dirigindo-se-me:

--Tenha paciencia;  tarde e no posso deixar de ir  Egreja. Dentro de
um quarto de hora devo voltar.

--Tambem vou, informei.

      *      *      *      *      *

Quando entrmos no Mosteiro, urdia Andrada, discreto e avaro de gestos,
a ultima parte da Homilia.

Fixou-nos, alheando-se logo da nossa entrada, e proseguindo:

--Vou terminar, irmos em Deus, aconselhando-vos ainda e sempre a serdes
bons.

Os Evangelhos so mero processo na vida superior; a F  o exercicio
inconsciente da Bondade.

Furtae-vos a julgar os delictos alheios: os verdadeiros actos culpaveis
so as ms intenes, mas nestas s Deus e os peccadores podem entrar.
Dizei com David, no Psalmo XXV--a ti, Senhor, levantamos a alma!

Mas para que ella suba, despi-a de formulas.  pela Bondade que se
eleva. No batalheis contra os maus, pois que ninguem sabe ao certo quem
so os maus: a vingana dos fracos  esperar a queda dos fortes.

Mas no devemos desejar e menos ainda promover a sua queda. Amae a
todos; e fechae os livros santos, pois que elles so formulas, quando
sentirdes Deus em vs!

Amae a Biblia pelas suggestes que vos der, incidentemente!

Sabei amar e no precisareis de ler.

.........................................................................


Ao acabar a missa, trocmos cumprimentos com o monsenhor, as Senhoras de
Soutello e ainda com um novo personagem que appareceu a reverenciar
Peregrina, num desconcerto grosseiro, embora amavel de inteno.

Peregrina disse, entre parentheses de sorrisos, apresentando-mo:

-- o Sr. Manuel Thom--o trao de unio entre a Democracia e o
Mosteiro.

Attentando nelle e ouvindo-lhe, por momentos, a philosophia alinhavada
nas brochuras baratas,--vi que era um arremdo dalguns enchedores de
gazetas, que sacrificam  terceira refeio o banho diario.

Em dez minutos discorreu sobre politica, economia, moral, vida amoral.

Salvou-nos de dissertao mais estirada um pequeno de physionomia
antipathica, com geitos de sagu--um Thom em miniatura, que, 
semelhana do pae, usava as mos descidas, como a procurar vocaes no
cho.

O pae, o Sr. Thom, explicou que o pequeno lhe esgarava os bolsos do
casaco, em repeles de fome, pois que era fraco, a missa fra tarde e
elle viera em jejum.

E ns, em cro,--Peregrina, as senhoras de Soutello, e eu:

--Que o pequeno tinha razo; fosse o Sr. Thom repastar-se com a
familia, pois era preciosa ao Mosteiro a sua saude.

Suspirei de allivio quando o vi longe. Maava-me a ingenuidade daquelle
phonographo de democracias idiotas. Daquillo tinha visto em Lisboa.

E Peregrina, dando pelo enfado:

--Coitado,  to nosso o exemplar! Conheo os inferiores de quasi todos
os paizes. Mas o typo Manoel Thom  caracterizadamente portugus. Veja
o seu desdobramento no parlamento, no comicio, na escola, na chronica
litteraria--em toda a parte.  a democracia soez, pintada de cynismo, a
pompear requintes tirocinados em sociedades de infimos.

E num encolher de hombros:

--Vamos tambem almoar. Sigamos as indicaes da Providencia, que, desta
vez, foi o pequeno.

Dirigimo-nos para casa.

Conversei as amarguras de Peregrina at s seis horas da tarde do meu
segundo e ultimo dia de Lares.

quella hora abracei a Artista, e parti para Guimares com um mao de
papeis. Este mao compendiava uma parte da sua vida, alguns dos
episodios que mais a vinculavam  desgraa, cuja historia prometti
escrever.

Vou cumprir. As tempestades que a sacudiram e lhe determinaram as
perverses e quedas de vontade ultrapassam a pathologia conhecida.

Este livro edita um Novo-Mundo interior.  a teia de sonhos e delirios
duma grande Artista, desvairando  merc dos nervos,--afinal a
biographia, um tanto romanceada, duma figura singular, cuja obra existe
e  o fio-mestre desta novella, que vale bem o subtitulo--_Tragedia
extranha_.


III

D. Maria Peregrina Alvares de Lorena e Villa-Verde, filha de D. Maria
de Lorena Eannes de Castro e Villa-Verde e de D. Antonio Alvares Muito
Nobre Leite Moniz de S, nasceu em 31 de outubro de 1880.

O braso da muito illustre Casa de Lares explica alguns daquelles
appellidos. Consta dum escudo esquartelado, tendo no primeiro quartel as
armas reaes de Portugal, pelo appellido Alvares, e, no opposto, as reaes
de Castella, pelos appellidos de Lorena e Villa-Verde, lavradas em
mantelado de prata e circuitadas de negro. Destacam neste lees de
purpura batalhantes, bordados de oiro e veiros de cr,  volta.

Por timbre usa a Familia de Lares um cysne, armado de oiro, segurando no
bico uma aspa vermelha, com escudos alternados de Portugal e Castella.

Assim o escreveu D. Antonio nas _Memorias genealogicas e Nota Privativa_
da Casa.

Os escudos lavrados na cantaria do edificio attestavam a historia do
velho solar de Lares, confirmando os archivos.

Maria Peregrina sentia-se extranha ao mais da sua linhagem. E se a
devassava era para averiguar amores pouco fidalgos. Comprazia-se em ler,
para alm dos escudos, romances de ligaes humildes.

A sua alma, exquisitamente vincada e polychroma, sobrepunha-se aos
esquartelados dos brases.

Talento, physionomia, fraquezas--tudo reflectia a sua figura de
contrastes, que o Destino urdira de nevrose e sombras.

Amava instinctivamente as fraquezas como os talentos. Sentia que umas e
outros lhe espiritualizavam a figura, tocada de Desgraa, e dahi o
perdoar s duas avs judias que tinham vindo enlear-se na velha arvore
dos seus, frondosa de santos, doidos e poderosos.

Por entre a rde azulada de linhas que lhe prendiam os appellidos,
destacava as malhas vermelhas dos erros de amor.

Respeitava estes erros pelo que a explicavam. Entre as linhas de bom
sangue que a submettiam e o systema de linhas que lhe dava a figura,
sentia o conflicto de duas raas. Era pela desenvoltura do seu corpo de
gara, talhado em ambar macio e tostado,--expresso de um povo que vive
na penumbra um eterno outomno de genio triste...

Que lhe importava que o sangue semita viesse gafar a sua origem fidalga,
se ella vivia, sobretudo, essas gotas de sangue, que em revolta com os
globulos de raa, a reflectiam numa casuistica to diversa da que
inculcava a outra gente?

No seu perfil moreno, tocado de sonho e de tristeza, parece que o
Destino tinha escripto uma parte da sua historia.

Perdera cedo o pae, aos nove annos. Da me, victima do nascimento della,
ficaram-lhe memorias, casos de bondade que toda a gente repetia. Manoel
de Sousa Campello e Pamplona, senhor do vinculo e Casa de Soutello, fra
seu tutor por disposio testamentaria de D. Antonio. Mandou vir uma
professora inglesa para a instruir em linguas, lio de coisas e
principios de Arte.

Duma grande precocidade, Maria Peregrina seguia, com excepcional
aproveitamento, as lies de Louisa Huley.

A inglesa era uma aventureira intelligente, prendada, que, tendo
approximadamente trinta annos, tirocinra o ensino pela Allemanha,
Austria e Frana. Tinha de seu uma grande mala com seis vestidos de
passeio, o talento das linguas e o ar de quem ensina prendas e vicios
para gastar nervos.

Maria Peregrina e Louisa afeioaram-se profundamente, excessivamente.

Lamentava a ama de Peregrina, a velha Clara, a indiscreta afeio da
extrangeira, que viera roubar-lhe os carinhos da _menina_...

E, da mesma forma, a Salom, a filha dos morgados, mais nova cinco annos
do que Peregrina, se sentia desfalcada nas attenes da prima, muito
carinhosa e prodiga de entretenimentos antes da vinda da Huley.

Os de Soutello exultavam.

--Que felicidade darem-se bem, dizia D. Maria Helena para o marido; com
o genio voluntarioso de Peregrina o que seria se assim no fosse...

Manoel Pamplona concordava.

A alumna estudava com vantagem. Quando acabou o contrato com a Huley
(cinco annos) falava e lia correctamente o ingls, francs e allemo,
entrando com uma acuidade que mal se comportava na sua edade nas obras
que marcam o genio das linguas. E, da mesma forma, comprehendia e
executava musica, surprehendendo a inglesa, muito pratica no seu ensino.

-- um talento precoce, uma sensibilidade! dizia o Tio Manoel, admirado
dos progressos de Peregrina, sobretudo da forma porque ella commentava
trechos de poesia, esparsos nas selectas, extremando por si a belleza,
como os pontos fracos ou extravagantes dalgumas passagens.

Era elle quem a leccionava em portugus. E ninguem poderia faz-lo com
mais competencia.

Dizia-se modestamente um philologo amador, apesar de ser um estudioso e
discorrer Philologia na _Revista Luzitana_, _Instituto_, _Portugalia_ e
em algumas publicaes extrangeiras.

Era muito acreditado pelas diverses eruditas e conhecimentos miudos dos
segredos das linguas antigas.

--Os classicos, explicava ao abbade e ao visinho Thom, parceiros certos
do _bridge_ nas longas noites de Soutello, so os meus antepassados em
Letras.

E o abbade, concordando, dizia que o morgado era o representante
legitimo dos velhos cultores do Humanismo; que no era comprehensivel o
talento sem a grammatica, que lra ultimamente _A Ida de Deus_ de
Arimatha Coelho--e concluira que Deus torcra a Ida do auctor
obrigando-o a d-la em prosa de saca-rolhas; que lia, s vezes, por
desopilar, a chronica dum gazeteiro de Lisboa, pae dum livro--_Horas
trpes_,--coisas pelintras, que estavam abaixo dos alumnos do seu tempo,
quando iam a meio da Arte; que as Letras iam dizendo bem com o resto...

O Thom interferia a favor do chronista--que no era tanto como dizia o
abbade, que auctor das _Trpes_ exteriorizava em parte as suas idas,
que elle, Thom, escrevra antes para um semanario de Pindamonhangaba,
quando era ainda moo de loja no Tijuco. Manoel Pamplona intervinha
sempre, ordeiro, temendo perder os parceiros; sorria intelligentemente
para o abbade como a pedir-lhe clemencia para as idiotices do chronista,
em que Thom era commanditario, e depois dalguns rodeios cahia a fundo,
muito socio em idas com o abbade, na ignorancia do grande numero dos
plumitivos, e ainda na obra daquelles que no eram idiotas como o
exemplar preferido pelo Thom.

Maria Peregrina, que precisava encher as noites de Soutello, lia quasi
sempre, mau grado as observaes da Tia e as reprimendas carinhosas de
Manoel Pamplona.

Preferia ler traduces de poesia latina ou grega. De vez em quando,
levantava-se a inquirir o Tio sobre casos complicados. Queria
apprehender a Poesia no mais largo significado. E irritava-se porque,
apercebendo-a no rhythmo, na ida simplista da imagem, no trocadilho das
passagens extravagantes, no podia desde logo penetrar a rde do
maravilhoso que envolve a tessitura classica e jogar com o conflicto dos
deuses, e todo o genero de sobrenaturalismo. O Morgado entremeava os
_robers_ de explicaes, pigarreando quando tinha de fugir a qualquer
ponto escabroso, posto em discusso pela sobrinha.

Quando a educanda completou quinze annos reuniu o conselho de familia
para deliberar sobre o complemento da educao. O curador dos orphos,
homem novo, sabedor da precocidade de Maria Peregrina e vendo o montante
da sua fortuna, entendeu que devia promover o fim da educao della no
extrangeiro, longe dos preconceitos nacionaes, e dahi ter requerido ao
conselho que fosse internada num collegio ingls, segundo o costume das
educandas no seu nascimento. Os Morgados protestaram, e Manuel Pamplona
ps  prova toda a importancia e empenho, a ver se impedia o que elle
chamava as modernices impertinentes do bacharel-curador.

No obteve coisa alguma. Em outubro de 1895 partia com Maria Peregrina
para Inglaterra a cumprir as ordens do Conselho.


IV

Anno de 1898.

Nesta data chegou a Petersfield, collegio de St. James, onde Maria
Peregrina fra installar-se, a noticia da morte de Manuel Pamplona.

Tinha ella dezoito annos.

O Collegio de St. James era uma das primeiras casas de educao da
Inglaterra, com destino  aristocracia inglesa e a extrangeiros e
nacionaes de fortuna.

Havia quatro annos que Maria Peregrina entrra, sendo a primeira alumna
do collegio, apesar das extravagancias de genio, que a disciplina
britanica no conseguira modificar e ia indulgenciando em atteno aos
seus talentos.

Recebeu a noticia da morte do Tio com tristeza. Lembrava-se da velha
bulha do _bridge_ nas noites de inverno do Mosteiro, entre o Abbade e o
Thom, a que elle acudia ordeiro e conciliador; das suas lies de
portugus e rudimentos de latim, das velhas recitaes que elle fazia
sob os arvoredos de Soutello e Lares das obras de Homero, que ao tempo
amava por instincto no seu hellenismo genial; de Sophocles, o poeta que
em si summariava a maravilhosa cultura e florao da Belleza grega, de
tudo emfim que Manuel Pamplona lhe ensinara ou suggerira debaixo das
arvores do Minho--ou nos sales dos velhos solares, duma preteno
architectural to portuguesa e ingenua.

--Coitado, dizia  predilecta Helen, como era bom na simpleza de
provinciano, e sabio de coisas classicas, de que sentia smente o
pautado e regramento do periodo--numa preteno humanista adoravel!

E lembrar-me de que fui eu quem o obrigou  unica viagem que fez! Ah! a
confuso que sentiu ao entrar em Londres, memorava. E ainda bem, pois
que esse aturdimento lhe anesthesiou o desgosto de deixar-me. Sinto no
peito o seu abrao de despedida, o ultimo abrao, como elle disse a
chorar. Tinha de ser!...

E Helen Green, uma linda adolescente de dezasseis annos, muito enleada
em Peregrina:

--Dize-me, mas a morte do Tio Manuel no prejudica a tua estada aqui,
no  verdade?

--No. Sei vagamente que posso emancipar-me. Vou escrever  Tia Helena,
a tomar parte no seu lucto--deve estar consternada! e ao procurador a
mandar que promova a minha emancipao immediatamente. Depois traarei,
 vontade, o novo plano de vida.

--E a emancipao no te pode ser recusada? inquiriu Helen.

--Pode, mas no o ser, porque vou recommendar ao Jos Loureno que se
entenda com os do conselho da familia, estimulando-os, sem olhar a
despesas. Confio absolutamente nelle.  fino, ladino, e... minhoto. E
olha que o Codigo de expedientes do Minho, minha querida, vale as leis
inglesas, concluiu beijando Helen.

      *      *      *      *      *

Passaram mses sobre a morte de Manuel Pamplona.

Maria Peregrina trabalhava no quarto, segundo o costume quella hora,
quatro da tarde, escrevendo vagarosamente, quando vieram annunciar-lhe a
visita dum portugus. Desceu ao salo, intrigada. Quem seria o
portugus? Teve a maior das surprsas! A um canto do salo, discreto,
attento  decorao das paredes, dando voltas ao chapeu, de roda de
palmo, estava o procurador.

--Oh Jos Loureno! exclamou Peregrina, como quem chama por uma viso a
desapparecer, pois s tu? Em Petersfield! E, vendo-o caminhar para ella:

--Venha um abrao; quero abraar o Minho nas abas de Londres!

E o Jos Loureno, com os olhos e a voz rasos de lagrimas, baixando-se
para a abraar na cintura, reverente:

-- verdade, senhora Morgada, vim dar conta do recado de V. Ex. e
receber novas ordens. A Maria tambem queria vir, mas l me pareceu de
mais.

Que, a bem dizer, o que aqui me trouxe foram as saudades. Ha tanto tempo
que no via a Fidalga. E a Maria, tinha tantas saudades como eu,
coitada! Lembra-se todos os dias do tempo em que a apartou. Ainda outro
dia l appareceu um senhor a pedir colheita e ella esteve todo o sero a
falar da senhora Morgada, a ponto que se ia zangando porque elle se riu,
quando ella disse que V. Ex. era a menina mais linda que havia no
mundo. E, a falar verdade, que fra est! D gosto v-la assim. Que
linda! Como a Maria havia de gostar de v-la!

O tempo crre. E o que faz o sangue! As raparigas do Mosteiro da creao
da Fidalga esto umas lambisgoias. A no ser a prima de V. Ex. que
tambem, no desfazendo em ninguem, est um anjo. Das outras nem falar...

--Pra, Jos, disse Maria Peregrina desnorteada com a loquacidade do
procurador. Havemos de falar muito do Mosteiro, das pessoas que temos
pelo Minho, mas antes de mais, interessa-me saber como dste com
Petersfield.

--Muito facilmente, senhora Morgada. O vinho do Mosteiro , como a
Fidalga sabe, o melhor vinho de Portugal e creio at que do mundo, pois
que elle vae para toda a parte...

--Jos! No te esqueas da minha pergunta. Queria eu saber como dste
com Petersfield, observou Maria Peregrina, impaciente e medrosa da longa
historia dos vinhos verdes...

--Perde a Fidalga, a gente no sabe falar, mas era o que eu ia para
dizer. Ia contar que o vinho do Mosteiro  muito procurado, e dahi
vend-lo cedo a uma casa do Porto, que tem agentes inglses. Entendi-me
com um agente, que todos os annos vem a Inglaterra. Fizemos viagem
juntos e estou certo de que se o perdesse j no ficava por c. Ia
direito para o Minho. Eu podia ter escripto a V. Ex. e forrar o
dinheiro da viagem, mas tinha saudades da Fidalga, alm de que tinha
gosto em vir dar parte a V. Ex. de que est emancipada e ninguem mais
manda no que lhe pertence. Os homens a principio oppunham-se 
emancipao, que era cedo, e no constava um caso assim, demais
tratando-se da maior fortuna do Minho... Afinal, tudo se remediou.

--s um letrado, disse Maria Peregrina. Espera: quero mostrar-te a uma
pessoa amiga!

E, levantando-se, foi chamar Helen, que entrou, passados minutos,
quedando, curiosa, deante do Loureno, que a cortejava, mesureiro.

--Que curiosa figura! dizia Helen, passeando os olhos de turquesa sobre
o corpo athletico do velho, cingido no burel grosso do vestuario, de
cala em polaina, bota de prateleira, jaqueta alamarada, e um grilho de
oiro  laia de corrente.

--Que curiosa figura! repetia a inglesa, approximando-se mais do
Loureno.

E voltando-se para Peregrina:

--Que vaes fazer delle?

--Primeiramente, hei de passe-lo por Londres. Sabes que estou
emancipada--o que equivale a dizer que mando em mim. Heide lev-lo a
toda a parte. Quero sentir as suas impresses no Hyde-Park e Camara dos
Communs. Tenho pena de que o humor ingls no vena as complicaes do
protocolo da tua Crte, pois fazia gosto em apresent-lo em Windsor!

E dando pela atteno baldada do velho  conversa em ingls:

--Estava a dizer que iamos passear muito. Quero que leves que contar
para o Minho.

--Sim, minha senhora, como a Fidalga quizer, mas eu precisava de estar
l para as malhas, de amanh a trs semanas, arriscou o Loureno,
reverente.

--Estars, havemos de arranjar tudo. Descansa.

E ficaram os trs,  puridade, no salo do collegio, estudando,
discutindo o Minho.

--Aproveita, Helen! dizia Peregrina. Eu traduzo-te o velho. Olha que  a
primeira vez que o Minho authentico atravessa a Mancha...

      *      *      *      *      *

O Collegio de S. James dava  instruco literaria o logar competente.
As aulas de letras comeavam s nove horas.

Rapazes e alumnas tinham educao conjuncta em varios ramos de ensino, e
designadamente em _sport_. Entendeu a Pedagogia que era preciso preparar
creaturas fortes. O Collegio de S. James executava  risca os votos dos
congressos. Facultava a mais vasta educao, instruindo pelo livro,
pratica de laboratorios, trabalho de officinas, jardinagem, etc., isto
na maior liberdade de aco compativel com a ordem, no proposito de
extremar vocaes e especializar talentos. Rapazes e raparigas
aproveitavam as sombras do arvoredo, que abraava o collegio,
conversando, pintando do natural, jogando,  vontade, numa confiana
mutua de professores e alumnos.

Para o ingls o culto da natureza livre  a razo maxima da sua forma de
sentir a Liberdade. Maria Peregrina, uma peninsular, com sangue de casas
reinantes decahidas, caldeado de globulos extranhos, e uma imaginao
escandecida pela sobreexcitao dos talentos, recebeu de comeo com mau
senho aquella imposio de fora ingenua, que dominava o collegio.

Mas, pouco a pouco, foi-se achando bem. Como tinha caracter nos defeitos
adquiridos e congenitos, aproveitou o que lhe pareceu de molde a
serv-los, relegando o ensino que toldava o seu hellenismo nascente,
collidindo com o genio do Sul de que ella era expresso.

--Ah! dizia em conversa de camaradas, no _hall_, ri muito dos do
conselho de familia, quando me destinaram para _menina de collegio_.
Coitados, entendem que todas as aves se do em gaiola. E que na mesma
cabem pardaes e aguias...

Afinal, vim na ida de ver a Inglaterra e seguir mundo. Com o pretexto
de experimentar collegios, ia vendo terras e educando-me por mim e para
mim, como sempre desejei; mas certo  que me tenho achado bem...

-- que as gaiolas na Inglaterra so folgadas, disse Edgar Buckley, um
bello rapaz do bando, dezoito annos, loiro, irlandez de nascimento e
corao, de physionomia severa e sympathica.

--No  isso, advertiu, meigamente, Peregrina, fitando Helen.  que
achei em Petersfield a creatura que me deu alentos  exteriorizao da
minha Arte. Eu tinha latente um amor exotico que no achava apoio algum
fra de mim, e, portanto, no podia vir a publico sobre forma alguma. A
Arte  sempre uma expresso de amor. S produz quem ama. Que esse amor
seja bom, ou mau, que importa! O que  preciso  amar.

--Maria Peregrina! arriscou Edgar, sabes que commungo comtigo na
admissibilidade do amor extravagante; mas parece-me que este amor deve
ser accidental. manh, quando sahirmos do collegio, iremos todos cahir
no amor vulgar; e, a falar verdade, supponho que sobretudo quelles que
tem talento isso convm. Pois no  certo que o amor extravagante nos
degenera e gasta?

--Eu te digo, Edgar, ha duas maneiras de considerar a Vida:--viv-la
para o espirito, para a Arte--numa tenso firme de Belleza, e viv-la
como o commum da gente--almoando, dormindo, trabalhando  hora,
realizando num dia trabalho egual ao do dia seguinte, e talhando em
vinte e quatro horas o programma, a obra de vinte e quatro ou quarenta e
oito annos. Para estes no importa o amor exotico. E convenho que os
prejudique se o tentarem... Mas para os outros, os da vida superior,
muito longe de lhes prejudicar a obra e o destino, creio que lhes d em
Belleza o que perdem em felicidade. No leste de certo, o que ha
escripto cerca da cultura dos homens na Grecia? Nietzche, por exemplo,
affirma a supremacia do vicio; esclarece--que as relaes eroticas dos
homens com os adolescentes foram, duma forma que nem ns chegamos a
comprehender, a condio unica, necessaria de toda a educao viril; que
todo o idealismo da fora na natureza grega se baseou em taes relaes;
que o commercio sexual regular baixava ao passo que se ia elevando a
concepo daquellas relaes.

--E parecem-te, perguntou Edgar, certas, essas theses?

--Absolutamente verdadeiras. Condizem com os estudos a que me tenho dado
da civilizao grega, e de o entender assim a minha concepo nova de
Hellenismo, o Poema que estou urdindo e vou publicar.

--J agora, Peregrina, como teus admiradores, creio que temos direito a
saber o entrecho do Poema. A tua Arte  tambem nossa.

--Claro, insistiram os do grupo, que eram o companheiro constante de
Edgar, Hugh, um adolescente de olhar quebrado, vago; Violet, uma
rapariga tambem inglesa, de olhos e cabellos castanhos, de andar suave,
e fala cantada; e Helen, a predilecta de Maria Peregrina.

--Pois vou explicar-vos o Poema, j que desejaes interessar nelle, disse
a portuguesa, sentando-se.

Conheceis, de certo, at pelas nossas conversas, a poetisa Sapho. Muito
se tem escripto sobre ella. No ha noticias claras da sua vida e obras.
Pertence, principalmente,  lenda. As suas _Odes_, como cerca de setenta
fragmentos reunidos nas _Lyrici graeci_ de Bergk--no so de molde a dar
notas seguras acerca do que foi.

Um facto  assente--o valor da sua extrema figura. Qual a reproduco
mais legitima segundo a Arte? O Vaticano possue uma estatua de Sapho,
sentada num rochedo, meditando; em Napoles ha uma pintura encontrada em
Herculanum e um busto em bronze; modernamente occuparam-se della muitos
auctores. Tenho reproduces dos trabalhos de Gros, Ramey, Duret,
Diebolt, Clesinger, etc. Trataram em opera a tragedia de Sapho--Angier
(musica de Gounod); e Salm (musica de Martini). A ida dos seus
presumidos defeitos deu ainda logar a um romance de Daudet--alis
inferior, pois que o artista trata incidentemente de Sapho em duas
linhas, dando a Fanny Legrand, a heroina, aquelle nome, porque ella
veste uma historia que tanto podia ser a de Sapho, como a de qualquer
nevrotica, dada a volupias e violencias. O que  assente, emfim,  que a
critica tem oscillado na sua maneira de entender a poetisa, sem ver
nella o contraste do espirito grego num largo instincto de generalizao
e triumpho pelo amor exotico.

Assim a considero e vou cant-la.

Para mim, Sapho foi a mulher de genio que acceitou como um facto a
homosexualidade grega, o desprezo transitorio pela mulher, e tirou dahi
estimulos para a sua campanha de amor, independentemente de preconceitos
de sexo--fundando a sua escola para levar  civilizao ttica a quota
parte que lhe devia a adolescencia feminina, o mundo-feminino, em uma
demonstrao de vicio e genio que eram parallelos ao genio e vicio que
contrastavam as maiores figuras do hellenismo.

Ver do conflicto entre o seu valor e o desprezo pelo sexo, sentir o
culto de si propria, historiar e reproduzir a hypercivilizao grega e
fazer dessa mulher sublime o ponto culminante, a expresso de synthese
da sensualidade dum povo que aspirava ao _contrle_ da civilizao do
mundo--tal , meus amigos, a razo do meu Poema, a concepo do livro
que tenciono publicar com o titulo--_Nova Sapho_. Porque  uma nova
_Sapho_, concluiu, a que espero desvendar.

Os presentes, desde muito industriados no amor lesbico por Peregrina,
com leituras tendentes a desculpar-lhes o peor da vida hellenica, tinham
preparao bastante a comprehender a tessitura do Livro. Applaudiam-no,
sobretudo, pelo arrojo de lanar a publico a ida dissolvente do amor
extravagante.

Todos se mostraram surprsos, mas cheios de admirao pela creatura
invulgar que supremaciava sempre na roda em que estivesse, e que
decididamente ia dar que discutir.

--Curiosa faina! dizia Edgar, baixando o olhar...

E todos se deram a commentar a inteno e episodios em que a auctora
repartia os cantos, at que vieram as trez horas dissolver aquella
inesperada academia, num collegio, a poucas leguas da utilitaria
Londres!

A campainha badalra o signal para o banho. Alumnos e alumnas
separaram-se em direco s respectivas piscinas.

      *      *      *      *      *

As casas de banho eram distanciadas, nas extremas do recreio. A dos
rapazes era um alpendre espaoso, com dois panos de tijolo, columnas e
um coberto escuro de lousa miuda, que dava, de longe, por entre a
ramaria, a impresso selvagem dum enorme dorso de crocodilo.

Naquella tarde, segundo o costume, os rapazes correram todos para o
alpendre. Em minutos, professor e alumnos tinham despido os fatos. Tudo
mergulhou. S Edgar e Hugh se deixaram ficar junto ao trito;--Edgar
muito triste, distrahido, de busto inclinado, parecendo desembaraar-se
da roupa com desgosto; Hugh muito mirado no corpo do companheiro, j nu,
de p, attento e  espera para mergulharem juntos.

Soberbo quadro o dos rapazes que  beira do lago acamaradavam com o
trito, num grande contraste de belleza!

O Trito era a fora rude, o abrao forte da terra e do mar, meio-peixe
e meio-homem, o genio mysterioso, assistindo interessado ao que os dois
diziam, num silencio de confidente.

Hugh era a belleza vulgar, a media da belleza adolescente, firme nos
traos, duma carnao que era um calendario a marcar-lhe a edade, sem
uma nota de imprevisto.

Pelo contrario, Edgar era a excepo:--a belleza parte, no contornado
do seu corpo branco, suavemente tatuado de veias roxo-lirio, sem um
trao a mais, uma flaccidez destoante, um descuido de lanamento.

Inclinado, repuxava as pernas, deixando adivinhar as rocas perfeitas de
seus musculos, que to bem lhe jogavam a gentileza do corpo, forte e
airoso, flectindo-o numa harmonia suprema de linhas.

--Que formoso s! disse o companheiro.

--De que vale s-lo, reflectiu Edgar com tristeza. A natureza quando nos
engendra devia logo equilibrar a alma com o corpo e eleger com as nossas
tendencias a mulher de tendencias equivalentes que tivesse de
pertencer-nos.

--Ah! exclamou Hugh, percebo. Ests apaixonado por Maria Peregrina. E
querias que a natureza te destinasse em Londres uma companheira de
Portugal...

--No brinques. Sei que me  fatal o amor que tenho por ella.

--Que fazem? inquiriu o professor de natao, por entre os gritos e o
espadanar da agua que sahiam daquelle lago.

Subito, os dois rapazes moveram-se como duas estatuas que resolvessem
partir; levantaram as mos em seta e mergulharam na primeira clareira.

A piscina era um lago de carne. Curioso espectaculo! Ephebos de jaspe,
remando corpos desenvoltos... Eram os amantes aguerridos do heroe de
Carthago; Apollo, Adonis, Ganymedes! Memorias tomando banho...


As piscinas destinadas s alumnas eram abrigadas por uma casa ampla,
repartida em cellas, com mobiliario e objectos ligeiros de _toilette_.

Havia duas tinas quadradas de dez metros e de diversa altura, para
receber as alumnas, segundo o adeantamento em natao.

Abastecia-as de agua uma Esphinge de lavrado exotico:--cabea de
escocsa, peito amplo montado em corpo de leo escanzelado, e tendo 
laia de asas pennas ralas de milhafre. Era o monstro de Thebas peorado
pelo canteiro ingls, vingando as victimas do Enigma.

Certo  que a filha de Typho parecia ter resurgido do mar e, esquecida
do aggravo de OEdipo, golphava da boca larga e mal talhada columnas de
agua.

 hora do curto dialogo de Edgar e Hugh desciam as raparigas s
piscinas.

Lestas, seguiram quasi ao mesmo tempo para o patim da tina alta. Entre
Helen e Violet ia a portuguesa. A brancura das inglesas emprestava luz
ao corpo de mel de Maria Peregrina, que sobresahia pela desenvoltura de
linhas. Todas usavam um calo curto e camisolim decotado, justos. A
malha de Peregrina era de seda morena, como o corpo que apertava. No o
escondia, sophismava-lhe a obrigao do vestuario, tornando-a mais
bellamente nua.

No patim as trs hesitaram; depois foram descendo. A ultima a entrar foi
Peregrina que impelliu Helen, suavemente, pelas ancas; segurou,
distrahida, o cabello farto, anelado e selvatico, e ficou-se a seguir
com o olhar o corpo branco da companheira, a boiar na tina funda.

S, de pernas colladas, braos levantados como segurando a cabea
esbelta, Maria lembrava um gomil precioso de olaria rica que um principe
tivesse ido encher ao lago e ahi esquecesse.

Foi a ultima a entrar e a primeira a sahir. Deu volta s duas tinas,
arando a agua em sulcos dum desenho desmanchado e sahiu, mau grado os
protestos das companheiras.

Um quarto de hora depois partiam todas para as cellas-barracas.

Helen ia a entrar para a sua, mas recuou, suppondo enganar-se. Estava
occupada por Maria Peregrina que acudiu a cham-la.

-- esta a tua barraca, informou, abraando-a. Sahi mais cdo do banho e
vim para aqui para te enxugar com beijos.

--Olha que estou molhada, dizia Helen, achegando-se do lenol.

--Ests molhada? No importa. Deixa morder o teu corpo velludoso de
asclepia. Tenho sde para te beber toda, dizia de olhos chammejantes,
fremindo os labios pelo corpo branco-humido da inglesa.

E sorvendo-lhe as extremidades crestadas do peito:

--Sabes a historia destas lindas nodoas? No sabes, minha tonta, vou
contar-ta.

So dois peccados. Deus tinha apartado uma nuvem branca para fabricar
petalas de magnolia. Sabes que no se pode tocar em taes flores;
escurece-as um carinho.

A sua mo deu-se a modelar-te, por capricho daquella massa--a das flores
sensiveis.

Ps um cuidado especial no peito que te repartiu em globos medidos pela
sua mo divina, e a que deu a maciez das petalas e o calor das rlas.

Pois o maroto de um anjo que o viu distrahido foi, guloso, dar-lhe dois
beijos. So estes pedacitos crestados, rematados por agulhetas finas,
que ainda ha pouco pareciam romper-te a malha e me beijaram quando as
beijei.

--Muito interessante o conto, commentou a inglsa, rindo.

E abrindo os braos:

--Venha de l esse lenol de beijos. Quero sentir os labios que dizem
to lindas historias...

      *      *      *      *      *

Passaram mses. Uma tarde, estava Peregrina no quintal a tocar violino
junto  Fonte Verde, de costas para a alameda, quando ouviu a
folhagem...

Voltou-se.

--Ah! s tu? disse com enfado a Edgar, que avanava para junto della,
sentando-se  beira da Fonte.

--Sou eu que estou aqui a ouvir-te ha muito tempo. Que bem comprehendes
o violino!

--Ento, dize o contrario, que bem que o violino me comprehende,
respondeu ella, pois que improvisava musica sobre motivos meus.

--Era uma despedida--a despedida de Helen, no  verdade?

--Era, sim:--anesthesiava-me. As ondas de musica podem ser ondas de
ether para a Artista que pudr bem mergulh-las. Por mim no posso. No
sei esquecer, pois que despendo bastante trabalho a fixar... E o culto
que tenho pela musica no vae at apagar-me os defeitos ou virtudes do
temperamento.

--Tens ento muitas saudades de Helen? Dentro de breve tempo estar ella
nos braos dum _gentleman_. Conheo John Brooke de casa de meu pae.  um
diplomata muito querido da aristocracia.  bastante mais velho do que
ella, mas hode ser felizes. O casamento foi arranjado pelos paes. Mas,
a proposito, deve dizer-se que ha paes que acertam... A que melhor podia
aspirar? Bem sei que te de a sua ida. Persistes em negar a natureza. No
fim ha de succeder-te o mesmo; regressars a ella mais cedo ou mais
tarde.

--No fales assim, Edgar, se tens algum empenho em ser-me agradavel. Tem
caridade comtigo.

--Sabes, Maria, que  por caridade para commigo que penso assim. Por
caridade commigo e por amor de ti. Ha que tempos te amo! Chegava a ter
ciumes de Helen, que entrava passivamente nas tuas loucuras.
Conversava-a sobre os vossos delirios. Tinha um prazer amargo em
acompanhar pela dor o vosso fremir de corpos, que nunca podiam casar-se.
De toda a tua philosophia s para mim resultou um bem:--estar ao p de
ti, ouvindo os echos duma alma a despedaar-se num conflicto que tem um
unico suppuradouro--o teu talento. O encanto que derramas no podia
vencer a natureza, subjugando a mulher que escolheste. Conversa-a daqui
a mses. Creio que o casamento  breve. Vers que mal se recorda do amor
em que a usavas. Ah! mas o encanto das tuas palavras, como o talento dos
teus defeitos no se perdeu. Tenho tudo no peito. Tinhas ao teu lado
alguem que te amava religiosamente...

--Sem me comprehender, objectou Peregrina.

--No digas isso. Amar  comprehender. V como eu, do Norte, me sinto
meridional ao p de ti, s para te pedir um pouco de tolerancia para
este amor que recebes como um peccado. Dize o que queres que faa para
merecer-te!

Queres que a teu lado seja o pregoeiro do amor exotico, explicando que
os nossos corpos se no entendem; que os nossos laos so um commercio
do espirito? Comprarei essa mentira por toda a casta de infamia, e irei,
de alma lavada, prostituir-me s casas de pederastia que houver ou
tivermos de inventar. Como esbanjas a fortuna dos teus encantos! Tens o
talento de te fazer amar, mas no sabes amar...

--Basta, Edgar! Bem dizia eu:--no me comprehendes. No extranho. Eu
sou, de facto, um enigma, o arremdo da Esphinge, que o capricho dum
canteiro exprimiu em pedra  beira do lago. Sou o monstro de Thebas, que
resurgiu em frmas novas. O que vs  o meu avsso. No me percebes! No
te devorarei, como o antigo monstro fazia a quem lhe no decifrava o
enigma. Petersfield no  bem o monte de Thebas e a Esphinge de hoje tem
de ser uma Esphinge civilizada...

Vou explicar-te o enigma que sou. Dizer-te como sou.

Tenho a cabea das mulheres de Granada, talhada em sombra e sonho; o
peito  portugus; assento o busto no torso de Leo, que  do escudo das
minhas armas e das armas da Peninsula,--a bravura do Ocidente; as minhas
asas so o genio judaico--a tara duma raa, perseguida, que ninguem
acceita, que no acceita ninguem...

--Vamos daqui, Edgar, concluiu num riso amargo.

--Maria, pediu o irlands, um instante apenas!

--Vamos!

E partiram os dois, silenciosos, perdendo-se no borborinho dos que
batalhavam o _tennis_ num recanto do recreio...

      *      *      *      *      *

Passou um ms. Chegou a noite de nupcias de Helen.

Meia noite. Maria escrevia sem cessar desde as 9 horas. Subito sentiu
mexer na porta. Levantou-se e foi abrir.

 porta estava Edgar, a tremer de commoo, cingindo uma capa leve,
redonda pelos joelhos.

--Entra, disse-lhe Maria.

-- ento certo, meu amor, que te condoeste de mim? Imaginei ao ler o
teu bilhete que no era verdadeiro. No podia ser. Tu no podias
querer-me. Quasi me no falavas depois que te revelei o meu amor. E
assim, de repente, um recado para que te viesse possuir... Que estranha
s! Que abenoado momento te inspirou, dizia elle abraando-a... Foi o
genio do amor que preside a tudo, que sabe quanto a minha vida te
merece.

Mas, vejo-te to morna, depois duma resoluo to nobre...

Maria, s minha devras. E conta-me o que te levou a chamar-me. Dize-me
que me queres. Que sou o escravo do teu amor...

E, solto da capa, apertava-a contra o corpo, despindo-a, e listrando a
beijos a sua carne morena...

E ella, afastando-o com mansido, deslumbrada:

--Deixa-me ver-te com olhos de Artista. s bello, realmente!

E desapertando-lhe a malha lilaz:

--Despe tudo isso, quero ver-te bem. A historia do bilhete  simples.
Recebi esta manh carta de Helen. Casou hoje. A esta hora deve estar com
o noivo; lembrei-me de tirar uma copia do casamento... Quiz ser possuida
ao mesmo tempo que ella, e lembrei-me de ti!

Demais, sempre no meu ponto de vista de Arte, no me  indifferente
noivar com um rapaz to bello como tu.

--Maria! Despe a intelligencia e entrega-te! Veste, como eu, o espirito
de animalidade, e deixa que a nossa carne se entenda.

E, abraando-a, lanou-a sobre a cama estreita, collando a sua boca 
della, e emmaranhando-se-lhe nos cabellos, que, desmanchados, desceram
como uma segunda noite, a agasalh-los...


Sobre a madrugada Maria Peregrina afastou, suavemente, os braos de
Edgar e disse-lhe com fleuma:

--Vamos, arranja-te. Creio que no querers que te procurem aqui.

--Conforme, disse elle, se o facto de nos encontrarem aqui nos obrigasse
 unio para sempre, gritaria j daquella janella o meu triumpho. Porque
foi um triumpho para mim esta noite, no  verdade? dizia mordendo os
labios vermelhos de Maria. Quebrei o Enigma. A Esphinge era uma mulher,
embora a mais preciosa das mulheres, a unica que Deus poderia dar-me e
tambem a unica, Elle sabe, que eu lhe pedi!

Eu andava ha muito a procurar-me. Perdera-me a sonhar... Encontrei-me em
ti. Vi-me  luz negra do teu olhar, fluido de amor e perdio. Os teus
olhos so como o genio da aventura:--reflectem amor, lucto, Belleza
dolorosa... Como sinto os enleios negros do seu fulgor, penumbras de
sonho e loucura!

Vejo atravez delles a alma da tua raa--aquella que elles discorrem,
fataes de amor.

Adivinho-me junto de ti na primeira hora em que viveste, aquella em que
odiaste outra luz, e exclamo:

--Ahi est a Artista, uma Raa que vae chorar, cantando; recemnasceu o
crepusculo do grande povo, aquelle que viveu madrugadas e vae morrer
Poeta, amortalhado na sua alma de sombra.

No teu corpo de marfim e sda, realizou o Divino da Belleza um sonho
luxurioso, aquelle sonho que Elle viveu um momento, confundindo-se em
ti, em mim. Escreveu na tua boca de dahlia a nova redempo--a prophecia
de prazer que o universo syllba a mdo e que os teus labios franzem,
reprsos de amor. A Vida  o Amor, o nosso Amor... Como recordo a Noite!
Tudo o que havia de voluptuoso ella atrahiu e teceu, descendo,
interessada, a possuir-nos.

Sinto o roar velludoso do seu tecido de mysterio e vicio. E chego a ter
zelos das suas caricias. S tu devias ser presente. Eu proprio queria
ser ausente... em ti. Houve no nosso amor um erro, o genio da tua carne
que um momento interessou tudo!--Oh! como odeio a Noite, a sombra
immensa de todos os delictos e volupias que o Ceu espectra para vingar a
pureza, a abstinencia eterna...

Soffro e amo o teu genio--o genio do erro que me faz abdicar de mim,
mirado nos encantos da tua figura de chamma, ateada de imprevisto.

Como te amo! Transformas tudo. Se at solves a nevoa que turva o olhar
da minha raa!...

V como eu, que sou da nublosa Irlanda, me sinto peninsular ao p de
ti...

Mas que passividade  agora a tua? Ento, minha querida, fala! Olha que
j no s a Esphinge...

E, tocando uma minitura de esmalte, florida de diamantes:

--Deixa ver isto; quero ver, com vagar, o teu unico traje desta noite. 
lindo vestir smente uma joia na noite de nupcias.

E reparando:

--Ah!  a Sapho de Pradier.

Perdo-lhe porque esteve calada... Foi discreta.

--A peor Sapho para ti, Edgar, no foi ella, fui eu. Digo-te, com
desgosto, que a Esphinge permanece. Nem um s minuto vasei a minha alma
na tua!

No me arrependo do que fiz, pois que consegui o que esperava,--soffrer.
Foi uma noite que sacrifiquei  minha saudade. E deu-me volupia o
soffrimento, como d sempre. Mas lembra-te de que te vejo hoje peor do
que nunca. Eu sou como os aleijados que no perdam aos que possuem
corpos sos. A minha alma  doente, no perda a tua alegria em
possuir-me  custa dum prazer de que eu soffri o avsso--ondas dum
horror que hade durar...

--Por quem s, no me relegues ao inferno depois de possuir-te. Irei
para onde fres. J ninguem nos separa. Respeitar-te-ei todos os
caprichos, at loucuras, que eu sei que o genio as tem... S uma coisa
quero--o direito de fundir a beijos o teu corpo...

--Basta, Edgar! disse ella, dando-lhe a capa e acompanhando-o at 
porta. Deixa-me! No exasperes a minha sensibilidade, duplicando o meu
horror por ti. Vae!...

E, fechando a porta sobre Edgar, que descia cauteloso e somnambulo a
escadaria, foi, semi-nua, como estremunhada, procurar no segredo dum
movel o retrato de Helen, que ficou a fitar por largo tempo.

      *      *      *      *      *

No dia seguinte tentou Edgar falar-lhe. Queria discorrer sobre a noite
antecedente, aquella noite que lhe custara canseiras e milagres, pois
que teve de atravessar pavilhes s escuras, saltar e assaltar janellas,
resolver difficuldades, at que, vencida a mulher dos seus desejos, a
via, de subito, despedi-lo como uma creatura desprezivel, porque a
amava!...

Que extranha aventura! Podia ser? Mas quando ia para se approximar,
sentia uma tal commoo... depois, parecia to firme o proposito de
Maria em afast-lo, que elle proprio, sentindo por si a repugnancia que
lhe inspirava, era o primeiro a fugir, corrido.

Succediam-se os dias at que Edgar soube por Violet que Maria Peregrina
ia sahir do collegio no sabbado seguinte. Assim o fra participar ao
director. Era uma segunda-feira.

Edgar, desesperado, tentou o ultimo reducto. E, decidido, procurou a
hora em que Maria, segundo o costume, ia abancar junto  Fonte.

Estava l, de facto. Viu Edgar e baixou os olhos sobre um livro que
tinha aberto, sem ler.

Elle chegou junto della e comeou a falar-lhe resoluto. Mas, pouco e
pouco foi perdendo a serenidade, ao passo que ia lendo na physionomia da
amante o horror que lhe inspirava.

--Queria saber, comeou, se era verdade que ella ia sahir do collegio.
Tinha o direito de sab-lo, pois que o acaso os juntra, e elle estava
resolvido a segu-la; uma palavra sua de amor, de benevolencia apenas,
era sufficiente...

--Basta! disse ella, fitando-o com deciso. No me canses.

E levantando-se:

--Respeita a minha sensibilidade, mesmo que no a comprehendas.
Deixa-me!

E metteu pela ala da esquerda, deixando Edgar aturdido, junto  Fonte.





Na manh immediata, elle levantou-se cedo. Foi para a casa de estudo e
escreveu durante dois quartos de hora; a seguir foi  sala das armas e
dahi para a quinta, onde passeou at ao almoo--oito horas e meia.

Acompanhou as aulas at  uma hora. Foi ao dormitorio vestir um fato
ligeiro de _football_, mas mal entrou no jogo. Falou por espao de meia
hora com Hugh; e emquanto este seguia com os demais alumnos para o
_tennis_, Edgar desceu rente ao muro, a internar-se nas sombras.

Passado tempo ia Maria Peregrina para junto da Fonte. Levava o violino
para tentar um trecho de Wagner, em que Edgar tinha falado.

Momentos antes, dissera a Violet:

--Afinal,  sensibilizante a amargura do pobre rapaz, mas no posso
soffrer o horror que me causa a perfeio daquelle systema de nervos to
bem ajustados a um corpo magnifico, e tudo ao servio dum amor normal,
duma animalidade de cavador!

De repente avistou a Fonte, e, a seguir, um corpo estendido a alguns
palmos da vasa. Apressou o passo: era Edgar!

--Edgar! Edgar! chamou.

Nada...

Sacudiu-o, e o corpo abandonou-se-lhe. Maria Peregrina, recuou; ps-se a
examin-lo: estava de bruos, com o ouvido direito collado  areia, o
brao esquerdo ao longo do torso e o direito estendido para a frente,
tendo na mo um revlver.

Percebeu ento; estava morto:--suicidra-se.

--Pobre rapaz! disse a meia voz. Que lindo!...

Edgar vestia simplesmente:--camisola de sda preta, calo de linho
branco, e sapatos de camura cinzenta, solados de borracha.

Assim viera do recreio dos jogos.

Maria Peregrina ajoelhou junto ao cadaver e metendo a mo pelo calo
largo, ps-se a afagar-lhe a coxa luzente. Depois flectiu-o, voltou-o,
subiu-lhe a camisola at ao peito. Subito, deu com trs cartas. Leu os
endereos: uma era para ella! L estava na letra muito firme de Edgar,
escripto o seu nome; as outras duas eram--uma para o director, outra
para o pae, o sr. Buckley.

--Pobre Lord, exclamou, como hade ficar!...

Guardou a carta que lhe era destinada, e ficou a contemplar aquelle
corpo, cr de tocha.

--Que bello, no seu ar de crepusculo! murmurou. Mas que rictus o da sua
boca dolorosa!

E, de repente, como obedecendo a uma fora intima, baixou-se mais,
beijando-lhe a pelle de cera; cahiu sobre o cadaver, soergueu-lhe a
cabea, collou os labios  boca-lilaz do morto, e ficou por minutos como
que adormecida sobre elle...

Depois levantou-se, examinando a mo e o brao com que o soerguera.
Sentira na mo um liquido; era o sangue que borbulhra do ouvido direito
do suicida.

Pousou outra vez na areia, a cabea de Edgar. Foi lavar-se  Fonte;
comps o cadaver e ficou ainda uns minutos a contempl-lo.

--Que lindo ests! disse-lhe, quasi ao ouvido; e como gostaste dos
ultimos carinhos! J no tens o rictus de ha pouco...

Leio as nossas pazes  luz roxa do teu sorrir de morto!

E beijando-o:

--Parto contente. Adeus!


V

Dias depois do drama de Petersfield, estava Maria Peregrina installada
na Praa de Trafalgar, em Londres, no Hotel Metropol.

Acompanhava-a Violet, que sahira do Collegio com ordem da familia,
ordenado estabelecido, e auctorizao de seguir com ella durante o tempo
do contrato--cinco annos.

s tres horas, veiu um creado annunciar a chegada duma carruagem.

Violet comps a _toilette_ de Maria e esta sahiu depois de breves
recommendaes.

--Manda seguir para a avenida Northumberland, n. 1013, disse ao
trintanario.

Pouco tempo depois parava a carruagem.

Maria Peregrina entrou no vestibulo da casa indicada.

Perguntou se estava Helen Brooke e entregou um bilhete.

--Vou ver, disse o porteiro.

Voltou dahi a pouco, e informou:

--Est, mas no recebe.

--Como assim? inquiriu Maria.

--Foi a ordem que me deram...

--Manda andar para o Hyde Parck, disse ao trintanario, j na rua,
voltando as costas ao porteiro.

A carruagem seguiu.

      *      *      *      *      *

Na manh seguinte, s nove horas, trabalhava no gabinete de estudo,
quando chegou o correio.

Dentre o mao de correspondencia, foi extremando as cartas de letra
conhecida. Leu-as com vagar e interesse, sobretudo as que vinham de
Petersfield, dos antigos companheiros de collegio.

Passou a abrir as revistas, maos de livros, etc. Dentre as cartas
desconhecidas tomou uma, ao acaso. Foi ver a assignatura. Leu com
extranheza: John Brooke.

A carta dizia:

Estava hontem em casa quando V. Ex. veiu para visitar minha mulher.
Fui eu quem prohibiu que fosse recebida. Helen ps-me ao facto das
antigas relaes entre V. Ex. e ella. Porque me no convem nesta casa,
entendi dever dar-lhe parte da minha resoluo.

Maria Peregrina leu com atteno a carta. Releu-a, como se quizesse
certificar-se da primeira leitura e escreveu por minutos.

Depois chamou:

--Violet!

A inglesa appareceu quasi logo.

--L; e estendeu-lhe a carta de Brooke. Ahi tens a explicao da forma
porque fui recebida.

Agora v a resposta, e deu-lhe a folha recem-escripta.

Violet leu alto:


                                                       Meu caro Senhor!


Sei o que Helen lhe disse, porque sei o que ella, incapaz de mentir,
podia dizer-lhe--a verdade. No posso culp-la. Ella teve a sinceridade
duma confisso que V. no merecia, pois a ouviu sem a comprehender. A
circumstancia da minha visita e o supplementar da sua carta so para mim
coisas minimas.

No tenciono voltar a procurar Helen. E como ser a ultima vez que me
dirijo a V., vou aproveitar o ensejo para lhe vaticinar que a sua
conducta para commigo pode ter realizado a inteno de magoar-me, mas
no o defende.

O temperamento de Helen no se fecha com prohibies e ordens como as
que deu. E, se proseguir com ellas, peor lhe ser. Helen dar-lhe- o
amor legal com um horror que no fim hade amargar aos dois.

Da inalteravel amiga de Helen:


                                                     _Maria Peregrina_.


--Podes fechar a carta e sobrescrit-la, disse, quando Violet acabou de
ler.

E como falando s:

--Que infelicidade a minha e a dos que me rodeiam! Comecei por matar
minha me, para entrar no mundo! Perdi meu pae aos nove annos.

Tenho no ouvido as suas ultimas palavras:

--Hasde ser, como todos os nossos, infeliz. No tive tempo de te quebrar
o motivo das maiores desgraas--o orgulho. Demais, tens talento.

Peor ainda:--talento e orgulho--o que ters de supportar!

Cdo o Acaso me accendeu a sensibilidade.

A pobre Louisa Huley foi a primeira a soltar os amores doentios que eu
tinha em mim. A fatalidade mandou-me da Inglaterra uma creatura para
tentar-me.

Acabo de receber carta della.

Est perdida, vae para a Suissa tratar as ultimas esperanas de
tuberculosa, e pede-me uma esmola!...

E fitando Violet:

--No te esqueas de remeter-lha.

Helen, que foi a suprema alegria da minha vida, porque ns s nos
alegramos quando satisfazemos vicios,--ahi est nas mos dum ingls
bruto, incomprehendida, bloqueada de ciumes e grossarias.

Edgar--morto tragicamente junto  Fonte Verde, em Petersfield, e eu a
detest-lo quando o seu lindo corpo se encapellou na minha posse e a ter
por elle, a partir da hora em que o vi morto, uma quasi paixo...

No imaginas como estava lindo, e sem se mexer, ali,  minha ordem. Ah!
senti-o bem meu naquella hora que encher uma parte da minha vida.

Como soube ler-lhe o corpo!

De quando em quando sentia barulho. Eram as folhas a bisbilhotar
horrores contra mim!

Eu tinha mdo que revivesse, que a sua alma regressasse ao amor.

Tu nunca amaste um morto!...

Elle, muito languido, cr de sda crua, a dar-se-me, passivamente,
movendo aos meus delirios o seu corpo de ambar.

Eu, muito collada a elle, falando-lhe, emprestando amor aos seus membros
perros, lendo as linhas de sua nobre belleza--um Apollo de morte, a
sent-lo a ss, sem que houvesse ali mais do que eu propria e a sua
carne...

Oh! o delirio daquella tarde!

--Nunca me mostraste a ultima carta delle.

--Ah! queres v-la?

E depois de levantar-se a busc-la:

--Ahi a tens.

Violet leu:


                                                Minha querida Peregrina!


Morro amando-te. Quiz que soubesses que te comprehendi. Beijo-te ao
partir. Olha que no levo resentimentos. Sei que no podias amar-me. Que
me concedeste o mais que podias conceder-me. Mas eu no podia ficar. Era
doloroso sentir que te afastavas tanto de mim, quanto eu de ti procurava
approximar-me.

Creio que morto te no merecerei a repulsa que me tens dado.

Presumo que sejas a primeira a visitar-me. Irei suicidar-me junto 
Fonte, na ida de que sejas a primeira a ver-me!

Se assim fr, ao menos ento hasde pensar em mim. E podes vr-me outra
vez com os olhos de Arte, que j me no magas. Pelo contrario, onde
estiver, heide exultar de orgulho--se o meu corpo te der linhas
perfeitas que entretenham por minutos a tua sensibilidade.

Procura bem. Olha que a morte  carinhosa com a adolescencia. Eu heide
ser bello, ao menos na hora do teu encontro.

V-me bem! Se a minha carne te merecer um carinho, heide soffre-la onde
quer que esteja. No quero que ds pela sua sensibilidade,
encapellando-se de restos de amor, porque heide deixar-lhe ainda amor...
Nem poderia lev-lo todo, to grande elle !

Adeus, Peregrina. Parto com a alma que foi o teu pesadelo. Perda-lhe. O
corpo deve estar em breve junto  Fonte. Tu amas a passividade, as
linhas que podes submetter e emendar nos teus nervos.

Possue-me, que eu devo ser um exemplar excepcionalmente tratado pela
Morte. A Morte  tambem como tu--delicia-se, ceva-se na belleza
passiva...

Adeus, Peregrina!

      *      *      *      *      *

Um anno depois da sahida de Petersfield publicava a Artista a _Nova
Sapho_. O poema acordou em Portugal applausos e protestos. Havia a
corrente dos moralistas, escandalizados com os desvairamentos da
Poetisa; e havia os camaradas serenos e prestes ao movimento idealista,
em que o poema se integrava. Aquelles aferravam-se  conjectura
historica e explicavam que a Sapho segundo os sabios no era a lesbia
vicienta que a tradio tinha fabulado, mas uma viuva honesta, com
filhos e netos, erudita e moral. Para os homens de letras mais attentos
aos casos de sensibilidade, o poema era uma affirmao de
temperamento--padro de Arte excepcional que, pondo em foco a vida
hellenica, devassava o fio conductor dessa vida atravez das
civilizaes.

Certo foi que o poema, a despeito dos ataques  moral, desafrontada
pelos folhetinistas dos diarios portuguses, foi lido; a critica
acceitou-o, e Maria Peregrina foi consagrada entre um cenaculo pequeno,
mas escolhido de cultores e admiradores das Letras.

Quando lhe falavam nos ataques dizia:

--Estou como Liszt--No me custa esperar. No escrevo para a gente de
hoje.

Enviou exemplares a varios escriptores latinos e ainda a alguns da
Allemanha e Inglaterra.

Encontrou de tudo:--applausos, repulsa, bemquerena.

De vez em quando, os diarios portuguses insistiam nas primeiras
campanhas, em homenagem ao lyrismo de 1850, e s letras declamatorias do
momento. Datam daquelle tempo as suas relaes com alguns escriptores
inglses e designadamente com Oscar Wilde, com quem se correspondia.

Em maro de 1895 foi o escriptor prso por accusaes do Marqus de
Queensbury. O perseguidor muito aferrado ao _Criminal Law Amendment
Act_--f-lo prender e julgar.

Os debates deste processo, escandalosos pelas accusaes e categoria do
R., apaixonaram a opinio.

Foi condemnado  pena de priso por dois annos, que cumpriu em 1897.

Maria Peregrina, defensora de Wilde, escreveu em ingls artigos e
opusculos sobre o escabroso processo, j quando elle tinha cumprido a
pena e abandonado a Inglaterra. Conhecida no meio intellectual de
Londres, frequentava os sales onde se conversava Arte; ia aos _clubs_,
especialmente aos de gymnastica, praticando este _sport_, e privando com
camaradas em que descobria affinidades de vicio ou belleza.

A edade no lhe contraordenava os propositos da adolescencia. Adulta,
crescia em talentos e vicio.

Aos intimos explicava:

--Os meus talentos so os meus vicios, tratados pela imaginao.

Horas tardas, quando Londres deixa os _clubs_, _restaurants_ e theatros,
Maria Peregrina sahia s ou com Violet a frequentar o que ella chamava
os Templos da Noite.

--A Noite faz em mim o dia, affirmava.  hora em que tudo est alegre
soffro eu a minha Arte.  nella que emprego os dias, pois que  de todos
os soffrimentos o mais voluptuoso.

Horas mortas tornejava a oeste de _Trafalgar square_, por _Haymarket_,
_Picadilly_, sob as arcadas de _Pall Mall_, errante por entre o rancho
de bacchantes, perdida na onda de luxuria que  Londres a taes horas.

Frequentava tudo--o _Savoy_, _Empire_, _S. James_, _Alhambra_, as ruas
onde as retardatarias entretem a fome, sorrindo a quem passa, os
logares onde havia luxo, miseria, erotismo, alcool...

Os inglses, affirma Stendhal, sero os ultimos a acreditar no inferno.
E, por isso, elles, sem o entrave religioso que embaraa os outros
povos, soltam  vontade o seu desejo animal, num desdobramento que
excede tudo.

Eram estes requintes que Maria Peregrina apercebia e queria viver.

Wilde tinha-lhe escripto um dia:

--Aquelle que se entrega absolutamente a si proprio, no sabe nunca
aonde vae parar.

Queria l saber aonde iria ter?

O que desejava era calar os nervos, a sde de imprevisto, que a queimava
intimamente. Sahia a explorar a noite. Pelas ruas havia renques de
mulheres, duma fealdade de arrepiar, ao lado de creaturas mal crestadas
do tempo, nas quaes a belleza persistia, apesar do vicio e das doenas.

No era a belleza graciosa, que contrastava a mulher de alguns paizes,
nem a classica, nem a sensual que caracterisa o mundo feminino do
Oriente, ou a belleza crepuscular do Ocidente e Sul--a belleza que ella
encontrava nas poucas mulheres formosas da Inglaterra.

Era uma belleza especial--a que adstringia  raa, expressiva de falsa
innocencia e suavidade.

Tratava de afogar os desgostos em sensaes novas, e dahi andar pelas
ruas onde excepcionaes figuras erravam como sombras, a commerciar toda a
casta de prazeres. Mulheres duma brancura de linho, carnaes de lirio e
dahlia, de olhos anilados e estrigas de cabello oiro-fulvo, passavam
bebadas nas esquinas, dispersando a alma em risos idiotas. Ia no seu
encalo, interessada pela historia daquellas marafonas, que pareciam ter
descido do Ceu por tentarem santos e que os homens desprezavam...

--Ah! o peccado da terra est em no aproveitar bem as creaturas, dizia.
Estas, so as flores da rua, que valem bem mais do que as que se abrigam
sob o crystal das melhores casas de Londres.

Colleccionava as mais perfeitas para uma especie de harem, onde passava
em sero algumas noites, emmaranhando, tecendo a sua vida com a desgraa
dellas.

Conhecia a geographia dos bairros mais mesquinhos da City,
percorrendo-os a miudo, bem como os prostibulos onde se vendiam as
mulheres de preo.

Ora arrastava _toilettes_ da maior elegancia pelo Savoy, ora ia,
modesta, irm das sombras, conversar as mulheres que viviam os prazeres
da noite, mais rasteiros e humildes.

De longe em longe, combinava com Violet e iam as duas pernoitar com
moos de acaso.

Percebia que as relaes naturaes lhe acalmavam os nervos.

Ento, deixava-se abordar pelo mais novo dos presentes s sucias da
noite.

Guardava silencio sobre o nome. Preferia mesmo entregar-se a viajantes,
que ao outro dia perdesse na confuso de Londres.

E sahia, enjoada, com odio ao sexo, exasperada daquellas horas
batalhadas com extranhos, duma luxuria que lhe era necessidade e
tormento.

--Usei hoje o meu amargo, dizia para Violet.

O amargo era o commercio sensual com o homem, que tinha como remedio.

Do mesmo passo que percorria o peor de Londres, partilhando o muito que
ali havia de perverso animal e vida exotica, tinha em cuidado no
perder uma nota da vida superior do grande centro--instruindo-se,
apontando tudo, e adaptando-se ao luxo e requinte aristocratico da terra
tradicionalista por excellencia.

To depressa era a mulher que se confundia por entre o bosque de gente
que se apertava nas ruelas miseraveis de Whitechapel, como a mulher de
aspectos nobres, com geitos de duquesa, que passeava a sua prosapia de
peninsular para alm do _Strand_.

No meio em que era conhecida fazia-se excepcionalmente admirar pela
fidalguia de maneiras e talentos e pelo encanto da sua palavra de
superior.

Apesar dos desequilibrios de creatura insexuada, delirando perverses,
nunca perdera o geito fidalgo da sua bondade.

--A bondade, dizia sempre, creio que vir a ser a minha jangada de
salvao.

E, de facto, no privar com gente miseravel, que recrutava nas ultimas
camadas, jmais deixava de ferir a nota da commiserao, estipendiando o
infortunio com dadivas que lhe inculcavam fidalguia e a procedencia
portuguesa.

Um facto havia a salientar nesta maneira de praticar beneficios:--a
predileco pelos desgraados mais abjectos.

Para ella no havia criminosos, havia desgraados. E os que cahiam na
alada da justia ou no odio da opinio eram sempre os mais sympathicos
e dignos de affecto.

Londres  a cidade do apostolado. Planta-se uma Religio a cada esquina.
Confundem-se nella cultos, ritos, seitas.  a Babel da Alma. O ceu da
alma inglesa  nevoento como o ceu de Londres. Segundo uma estatistica
de poucos annos, havia em Inglaterra e Galles 34:467 casas de
religio--das quaes 14:077 eram officiaes.

Maria Peregrina ia muitas vezes assistir s praticas e devoes
religiosas.

--Ando a procurar a minha religio, dizia, e no encontro seno farrapos
della em credos oppostos!

O ultimo tempo que viveu em Londres foi num torvelinho de misteres
desencontrados,  merc dos nervos.

A sobreexcitaco no lhe dava treguas.

--Se me aquieto, morro do mal-de-viver, acudia s observaes de Violet.

Frequentava cursos de linguas, de Philosophia, de Arte e de _Sport_;
escrevia; passava, invariavelmente, duas ou tres horas--procurando o
aperitivo sensual da noite--um caso exotico que lhe aquietasse a ancia
infinita de viver, de soffrer, e recolhia tarde a dormir
pesadelos,--rebates das canseiras do dia.

Adoeceu. Era inevitavel, diziam os medicos. No sabe quem , para onde
segue. Precisamos de tratar-lhe a sensibilidade.

E receitavam calmantes, repouso--o inverso da vida que levava.

Um ms depois levantou-se. Estava alquebrada, mas o tempo primava em lhe
conservar a belleza, em desconto das infelicidades.

Deu-se por esse tempo um acontecimento decisivo para ella.

Paris intellectual, benevolo e esquecido das miserias intimas de Wilde,
offereceu-lhe uma festa.

Peregrina encontrou no acontecimento um ponto de sahida da antiga vida
de Londres. Associou-se aos camaradas de Paris e partiu a tomar parte na
homenagem.

--Adeus, meus amigos, dizia abraando diversos artistas, despedindo-se.
No voltarei. E, no entanto, presinto que serei tanto mais infeliz
quanto mais me desviar da Inglaterra. Aqui deixo o melhor e o peor da
mocidade...


VI

Depois de curta passagem por Paris, Berlim, Scandinavia, Roma e Napoles,
entrou Maria Peregrina em Athenas, na teno de demorar-se. Violet
acompanhava-a.

Vivendo a Grecia antes mesmo de a ver, sentiu  chegada uma grande
commoo de quem encontra uma terra desde muito seguida em espirito.

O mar da Grecia no tem a cr desbotada da massa de agua no mar alto.
Toma,  approximao do Archipelago, nova designao e tinta, como
prestando homenagem  velha Hellada.

 um mar de lazulita, seguindo o recorte da Grecia em que salienta a
gloriosa Athenas, branca em seus edificios de marmore de Pentelico e
Paros.

Aportou a Phalero.

A breve trecho, entrou na antiga capital da Attica, que se estende num
desenho largo--terra de neve pela brancura do marmore, e uma verdadeira
Heliopolis, plena de sol.

As casas so a renovao da architectura grega, copias das antigas
marcas do genio hellenico, a que preside a Acropole, vasta cidadella dos
tempos gloriosos, da edade de oiro.

Maria Peregrina e Violet foram hospedar-se no melhor hotel da rua do
Stadio.

Dentro de breve tempo Maria tinha entrado em sua vida normal,
despendendo nervos e tempo no encalo duma felicidade que s de passagem
encontrara.

A mais do que as outras cidades que percorrra, Athenas dava-lhe as
sombras dum passado que ia referindo aos pontos que lhas recordavam.

-- aqui que eu tenho de estudar, dizia, a geographia da Belleza
hellada--synthese de toda a Belleza terrea, com parentesco no Ceu.

Suppunha-se nos velhos tempos de Athenas e ia pela Acropole, ao
entardecer, memorar espiritos desencontrados, poesias fragmentadas de
Sapho, a catechese do segundo genio da Egreja--Paulo, tudo o que podia
acquiescer ao seu talento aventuroso, perdido na ancia duma perfeio
morta.

Deu-se a estudar a lingua grega; ia visitar os museus; matriculou-se na
aula de Arte; procurou a todo o transe encher o tempo, a ver se a
occupao obrigatoria lhe entravava os nervos.

Nos dias em que tinha de feriar o espirito de lucubraes eruditas ou
artisticas, ia visitar as ilhas proximas, ou at Phalero, ouvir o mar.

Mas no havia occupao, por mais interessante ou impertinente, que lhe
aquietasse o gosto, exigente de origem.

Por toda a parte encontrava suggestes  pratica do vicio lesbico, sem
que volvesse a encontrar a passividade amoravel de Helen, dando-se-lhe
num corpo que era o sonho da sua alma ocidental de decadente.

Pelas ruas deparavam-se-lhe moos espartanos ao lado de raparigas
esbeltas, de saiaes tufados, redondos pelo joelho, com o kepi grego de
borlas, de jalecas curtas, segurando peitos cheios.

Mulheres e rapazes de Corf, e demais ilhas proximas, passeavam corpos e
trajes bizarros, que prendiam aos restos duma civilizao de requinte.

Tambem a flora de Athenas parecia prender-se  decadencia daquelle solo
que fra a joia do vicio no reinado da Attica.

Tudo a inculcava como um marco da velha cidade da carne e da orgia.

No entretanto, Peregrina, admirando aquella belleza, prodiga de
imprevisto, no a sentia. Era uma belleza que suggeria, no a
apaixonava.

--Toda a parcella de belleza se gasta ou transforma, dizia. No ha
belleza em pores, permanente. Ha unidade no Bello, o que  diverso.

A velha Hellada desmanchou-se em holocausto ao mesmo hellenismo. Era
preciso assim. O proprio desmancho e renovao de civilizaes, o
caldeamento do sangue, transfuso das raas, e mistura de genios,  que
asseguram a unidade da Belleza, na sua concepo liberta.

Em raso desta unidade, explicava a Violet, foi que eu, do Ocidente,
encontrei o meu elemento affim numa raa que me era apparentemente
opposta. Posso encontrar noutras creaturas condies de maior belleza, 
face da Arte. Mas o meu defeito de superior faz que o meu procedimento
seja cego em materia de sensibilidade. Ha em mim uma fora cujo motivo
mal sinto no vago da consciencia, e que  cega e me cega, que escapa 
minha reflexo e no me consulta, caminha, no pede, exige.

-- que te apaixonaste por Helen, no vs mais ninguem, considerava
Violet.

--Mas sei l porque me apaixonei por ella. Se ao v-la hoje no sentiria
afundar-se todo o meu passado num mar de nojo feito do amor que lhe tive
e das complacencias que me deu...

Violet procurava sondar os desesperos de Peregrina, e tomar o logar de
Helen. Impossivel! Violet era para Peregrina a escrava, que usava 
falta doutra em suas perverses.

Helen era um abysmo de alegria, um corpo de risos com nervos de seda.

Era o melhor e peor duma raa que, junta a ella, estreitava o abrao de
duas civilizaes a suicidarem-se...

--Ah! se ella tivesse vindo commigo, dizia Peregrina, como eu reveria a
velha Hellada!... S v bem quem recebe suggestes para produzir. Mas s
produz quem ama. E s ama quem possue...

      *      *      *      *      *

Havia em sua alma, sedenta de exotismos, intervallos duma ternura de
creana, em que se dava ao culto da simplicidade, tecendo obra ingenua.

Datam da sua estada na Grecia, e merc daquellas horas, os versos que
juntou num livro curioso, a que chamou--_O Livro das Creanas_.

Os titulos dos capitulos indicam a sua indole. Assim, havia nelle--_A
historia duma gota de agua_, _Aventuras de uma aresta_, _A conta de
crystal_, _Hostia de oiro_, _A camelia cr de mel_, etc., assumptos
innocentes, pontos pequenissimos de partida a uma philosophia de
desvairamentos para auxiliar os vos da imaginao infantil, isto vasado
num metro facil, dico correntia.

Mas sobre esta innocencia apparente, todas aquellas historias eram um
hymno  Fatalidade, tecidos dum maravilhoso novo,--expresses simplistas
dum espirito doente.

A _Aresta_ da historia era uma heroina, de formas pequenissimas e de
alma grande que o vento, as chuvas, a tempestade metiam em aventura 
merc do Acaso, que  o genio das coisas.

A _Hostia de oiro_ era o Sol que um negro do Senegal perseguia no
poente, andando de terra em terra a ver se o colhia para commungar com
os da sua tribu--caminhando por montes altos quando elle tombava, at
que morreu de desespero e saudades em uma terra do Norte, deixando-se
matar e enterrar pela neve quando viu que, depois de dois mses, a linda
hostia no apparecia. No dia seguinte, veiu o Sol a sorrir,
desenterrando o negro, solvendo a neve, envolveu-o num resplendor de luz
e fez delle uma estrella, que ficou no ceu a velar a sua raa cr de
fuligem e muito especialmente aquella tribu.

A historia da _Camelia cr de mel_ resumia o episodio duma rosa do Japo
que se condoeu dos amores dum indio desprezado por uma mulher branca e
trocou a cr com ella. E assim as restantes.

      *      *      *      *      *

Passado pouco tempo da entrada na Academia, j Maria Peregrina estava
relacionada com varios camaradas, que logo deram pelo seu talento.

Era o tempo em que os extrangeiros mais acudiam a Athenas a seguir os
cursos de Arte. A mesma razo que levra ahi Peregrina detinha l tambem
alguns delles, vivendo por educao ou atavismo memorias da velha
Grecia.

No lhe foi difficil dar por aquelles que mais se lhe approximavam em
perverso e requintes.

Dentro de pouco era intima da Princesa de Tuscolo, uma italiana de 35
annos, principalmente gastos em passeios de luxo e prazer e dum russo,
pouco talentoso, mas culto, homem de 29 annos, com grande fortuna e
ancia de imprevisto.

Iam muitas vezes para Corintho e Corfu, inventando romarias a que no
faltavam luxurias.

Mas sempre a mesma sombra de tedio vinha escurecer a imaginao de Maria
Peregrina, findos os passeios;  que tinha de roar as scenas vulgares
do que ella chamava a torpeza civilizada.

Uma tarde em que foram todos ao Stadio, vasto circo de feitura recente,
para arremdo dos antigos exercicios olympicos, Maria props que se
arranjasse uma casa onde pudessem commungar sensualidades.

Foi a proposta acceite. E a casa ficou a chamar-se desde logo _Templo de
Amor_.

Era nas immediaes de Athenas, a caminho de Kefissia.

Ficava numa encosta, emmaranhada de arvores.

Tinha por fra o geito grego--cujo risco fra executado com escrupulo.

Dentro, o aspecto dum templo.

Havia ali reproduces em marmore da Venus do museu de Napoles, de Milo,
Medicis, Capitolio e Troia; de Apollo, e trs estatuas de Sapho,
salientando-se a de Pradier, que, dum estrado alto, curvada, parecia
presidir s danas orgiacas, que a sua memoria suggeria; finalmente, uma
larga profuso de espelhos, luzes, e instrumentos de musica,
sobresahindo harpas, lyras e psalterios.

As _toilettes_ da chegada, no dia da inaugurao, lembravam as das
velhas festas da Hellada, pelo esmero com que haviam sido reproduzidas.

S Maria Peregrina puzera um pouco da sua originalidade no vestuario,
alis riquissimo.

Entrou coberta por uma _falteta_,  maneira das que usam as mulheres de
Malta, refulgente de finissima renda e pedraria.

Quando appareceu j o _Templo_ estava povoado de adolescentes ns;
tocavam as harpas muito casadas aos violinos.

As luzes num grande desacordo de cr davam ao _Templo_ uma refulgencia
que fazia esquecer a Terra...

A Princesa de Tuscolo e Ivanwitch, que tinham vindo antes, observavam os
adolescentes. Alguns eram do Stadio, gymnastas e _jongleurs_ precoces.

Outros eram ingenuos camponezitos de Corfu; havia lindas raparigas de
Corintho e um ano de Colonia, resgatado havia pouco a uma companhia de
zingaros.

Tocaram as harpas o _Canto de Sapho_ e depois _Rhythmos de dana_, numa
harmonia dolente.

Maria Peregrina chamou duas negras, que, a um canto, cortavam aquelle
mar de luz com os corpos de sombra, e entregou-lhes a _falteta_.

O resto da _toilette_ era uma simples fita larga, de velludo-musgo, que
a enroscava desde o busto aos quadris.

Tirou-a, mostrando as lindas formas em que sobresahia um ventre
perfeitissimo, especie de salva de metal moreno fulgente, peitos de
formas certas, que no temiam desmanchar-se no ardor da dana, e ancas
sumidas, contrastes do typo extranho de _femme-garon_, de geito a
servirem a flexura rara do seu corpo resumante de sensualidade e
adolescencia...

Todos se desembaraaram dos vestuarios. Era madrugada.

Comeou a orgia pelas _Danas sensuaes_. Extranha gente! Eram rapazes,
flectindo corpos de belleza sobria, linhas puras de desenvoltura suave,
sonhos de Aphrodite, animados; raparigas multiplicando as curvas ideaes
de corpos de amphora, tudo o que havia de excepcional na concepo
excelsa--a melhor argila, modelos supremos do Divino Oleiro.

E, em contraste, como a desenhar o arabesco entre aquella florao de
carne, diversamente colorida, volteava o ano, corpo curto, pernas
rectas, movimentos perros mas certos, carne cr de cerveja, face de
fauno que surgisse do bosque, avido de luxurias e se perdesse num
labyrintho movedio de Belleza...

Comearam as danas em homenagem aos manes da velha Hellada. A Athenas
do vicio estava ali. A outra, a cidade nova, dormia somnos brancos, cr
do casario.

Peregrina dizia, rindo, para os tangedores das harpas:

--De vagar, moderae os dedos.

E para Tuscolo e Ivanwitch:

--Se chega ao Parthenon o echo desta festa, temos ahi Socrates, a
remir-se pela culpa, com uma fileira de sabios, deuses e artistas.

E como falando comsigo:

--No Parthenon  que a festa maxima ter de dar-se.  a primeira joia de
Arte do mundo. Os deuses no a conservaram seno para que ahi fosse a
grande festa pelo definitivo triumpho hellenista.

Mas quando ser?!

      *      *      *      *      *

Em 1900 resolveu sahir de Athenas.

A 28 de novembro recebeu um telegramma de Robert Ross, annunciando que
Oscar Wilde se encontrava em Paris, moribundo.

O romancista, depois duma larga tragedia, seguida de peregrinaes
varias por Napoles, Corsega, Sicilia e Roma, foi fixar-se num modesto
Hotel da rua das Bellas-Artes (Hotel d'Alsace), e ahi foi atacado da
meningite que ps ponto nas suas desventuras.

Apenas recebeu o telegramma, Maria Peregrina partiu com Violet. E chegou
a Paris quando Wilde entrava na agonia.

No o abandonou at 3 de dezembro, em que foi com raros amigos
acompanh-lo a Bagneux.

Era uma triste manh de dezembro.

 porta do cemiterio desceram a urna os amigos do Artista, conduzindo-o
at  modesta sepultura, por entre fileiras de cruzes e arvores nuas de
folha. Assim fez aquella travessia boa, decerto para elle a melhor. O
tempo calra o vento e a chuva, como por gratido ao amigo que tanta vez
lhe emprestra alma.

Maria Peregrina seguia o grupo, num passo senhoril, mas hesitante,
pallida, arrastando sobre a greda um vestido negro cahido em tulipa.

Era ao longe uma figura extranha! Dir-se-ia representar ali a vida do
Poeta--misto de genio, perverso, orgulho.


VII

Decorreram dez annos.

Maria Peregrina passou  Scandinavia e depois aos pontos mais extranhos,
errando pela Asia e pela America, e vindo a fixar-se em Roma, onde viveu
os ultimos dois annos. No voltou  Grecia nem a Inglaterra.

Em qualquer dos dois paizes espalhra vicios e mocidade, que lhe seria
grato reviver, se o reverso das provaes lhe no aguasse a saudade. No
era a desgraa da sua vida que ella culpava; era o rebate della nos
meios que tentra, e tivera a ingenuidade de suppor benevolos.

Ainda ultimamente lhe tinham sido devolvidos volumes da _Nova Sapho_,
que mandra para as Academias de Londres e Athenas.

Esta devoluo desgostou-a. Suppunha ter ali admiradores, amigos, que,
afinal, a abandonavam, a vexavam.

A dor  nos superiores dum effeito extravagante:--no os convulsiona,
maga-os ou transmuda-os. Ha casos, na apparencia pequenos, que lhes
decidem o aspecto, que no mais os deixam rir sinceramente.

No era o caso: Maria Peregrina tirocinra desgraas desde muito nova,
para succumbir inteiramente. No entretanto, sentiu-se devras.

No a incommodava o debate que a publicao do seu livro havia levantado
em Portugal. Considerava medianamente as letras da sua terra. Mas o
significado daquella devoluo nos meios de _lite_ que frequentra
abateu-a extranhamente, profundamente. Queria reagir. Mas por mais que
considerasse a justia que lhe fora feita como Artista, sentia-se
desfalcada, vexada, pelo desprezo que lhe votavam como mulher. Ella
propria sentia em si duas entidades diversas--a que produzia, creava, e
a outra, a que no conseguia libertar-se das offensas e intrigas das
Academias. Um dos contrastes da creatura de genio  uma nota inferior--a
crena na fatalidade.

Muitas das infelicidades lanam-nas  conta do destino:--acceitam-nas
serenos. No assim as que batalham o seu amor proprio.

A superioridade, , como observa Nietzsche, o que est para alm do
homem. Mas isto que este pensa ao definir o valor alheio no o sente
quando se contempla.

Dahi o conflicto. O que produz, o que cria  o que est para alm delle.
O que discute competencias, e barulha vaidades  elle proprio,--o homem.

Acceitar os talentos e discutir o caracter duma creatura superior 
levantar competencias com ella propria:--desdobr-la em duas figuras que
o mais das vezes se desentendem.

A superioridade  uma fora parte. O homem  que intenta dispor a seu
talante daquelle valor; e, pois que reflecte a elevao duma
intelligencia poderosa, pretende cham-la a derimir os conflictos da sua
sensibilidade de semi-Deus com a que inculca a sua qualidade humana.

Afinal, por si se liberta. A sensibilidade do Artista  um excesso de
vida emotiva, uma doena que lhe d altas e baixas bruscas, e o quita
quasi sempre num fundo de melancholia, que  a dor reflectindo a
aspirao intangivel da fuso perfeita do homem e do Deus que elle
apercebe para alm de si.

A valvula aberta a este estado unico de dor reside para o Artista na
propria exteriorizao da Arte.  ento o semi-Deus, o creador
librando-se para alm da miseria humana...

      *      *      *      *      *

Maria Peregrina, ao receber os livros devolvidos, cahiu num torpor de
doente.

Demais sabia ella que no meio literario conhecido, por entre os
applausos dos que a cercavam, havia ms vontades, denunciadas em
insinuaes, e palavras equivocas.

Dava por todos, pelos que lhe no perdoavam o talento e faziam da moral
uma arma contra ella, e pelos outros, os que sinceramente a repulsavam
pelo seu caracter de degenerada. No meio que frequentra em Londres,
sentira dia a dia o reflexo dessa m vontade. Ultimamente, para no ser
vexada, deixra de todo os sales particulares, onde perdera relaes
sem motivo, e donde se afastou para que a no afastassem.

Na Grecia era tambem conhecida no meio academico pelo titulo do seu
livro--_Nova Sapho_.

Em Portugal continuavam as mais exasperadas campanhas.

Impossibilitados de discutirem a obra no ponto de vista artistico, os
jornalistas, a quem a critica estava affecta, davam-na como documento de
autopsychologia, fundibulando grossarias sobre a mulher que tivera o
ousio de escrever um livro, indice do mais torturado temperamento.

Ah! ella perdoava que lhe no sentissem a obra. Mas o que lhe doia era o
odio que lhe votavam pelos vicios, que amava alm de tudo.

--E ns a tentarmos obrigar o mundo a ver-nos com olhos differentes
daquelles porque se v a si proprio, commentava! Como se elle
interpretasse a differena que fazemos em nosso favor! Emfim, heide ver
se, ao menos, posso salvar o orgulho...

      *      *      *      *      *

Estes e outros factos, denunciativos da frma por que era tida nos meios
conhecidos, fizeram que nos ultimos tempos em que viveu em Roma se
esquivasse aos homens de letras e demais candidatos s generosidades dos
seus talentos, e de sua fortuna. No queria relaes; cansavam-na os
empresarios de festas particulares ou publicas.

--Conheo, dizia a Violet, o bastante em cada cidade para me torturar
sem prejuizo do amor-proprio.

Sei de cr a geographia do vicio e da moral de todas as terras onde
tenho demorado quarenta e oito horas. Dispenso informadores. Que
necessidade tenho de acotovelar-me com as ms vontades dos paladinos das
convenes, uns trpes a occultas que nem tem a grandeza do bem, nem a
coragem do mal?

E, fiel ao programma, firmava-se no orgulho das fraquezas, tratando de
alto os que se lhe abeiravam e fugindo a conviver.


Foi neste tempo, nos ultimos trs mses que viveu em Italia, que urdiu o
livro--_A Emparedada_, entre quedas bruscas do temperamento, dias de
doena e horas de rememorao do drama de Petersfield e Londres.

Este livro era a expresso maxima dos seus talentos, pois que era a dor
dum temperamento doente, consumindo-se numa ancia de Arte. E, como tal,
realizou o maximo de sinceridade.

Era a Dor, traduzindo-se em melancholia e expresses imprevistas a
beirarem a loucura, no encalo de solues que derivava da tyrannia dos
nervos, incendidos de desejo. O Poema foi escripto, composto e impresso
rapidamente.

--No quero que a razo me estrague a obra, dizia.

O seu valor, se algum tiver, deve ser o defeito que sou eu propria. Se
me dsse a scismar cerca destes versos, emendava-os. Ento o Poema no
era eu, era toda a gente, a obra-synthese da Moral, da Arte, da
Intelligencia que por ahi corre nas livrarias, academias, nos
parlamentos, por toda a parte.

Ah! no, _A Emparedada_ heide ser eu em conflicto com isso tudo.

A _Nova Sapho_ ha de vingar-se da estupidez com que a tratam,
librando-se acima da torpeza moral dos que a reputam abjecta...

E nervosamente, sempre que os maiores abatimentos lhe davam tregua,
escrevia, desdobrando-se no drama das suas melancholias.

      *      *      *      *      *

Em abril de 1910 estava a obra impressa e distribuida.

Dois mses depois entrava Peregrina em Lisboa, seguindo immediatamente
para o Minho, acompanhada de Violet e de Jacob, o ano resgatado 
companhia dos zingaros.

Foi em junho que nos encontramos em viagem e depois em Lares.

Pouco tempo demorou ali.

Dias depois de termos estado em Lares, morreu D. Maria Helena duma leso
cardiaca. Havia muito que a medicina de Guimares tinha endossado aos
santos esta cliente, excepcionalmente piedosa.

E ella, muito de mal com a medicina, e sempre affecta ao Ceu, conseguiu
viver seis ou sete annos mais do que a sciencia annunciava.

O acaso, complacente com a devota, fez que a doena a victimasse a uma
sexta-feira, depois dos exercicios do Corao de Jesus, confortada pelos
sacramentos, indulgencias e rezas da Congregao de que era presidenta e
benemerita.

Entretanto, foi annunciada ordem de suspenso de missa a monsenhor
Andrada.

Chegra ao Pao archiepiscopal de Braga a noticia das suas homilias.
Escandalizou-se o Arcebispo Primaz das doutrinas com que elle enchia as
predicas; e, cuidando ser victima de informaes erradas, officiou ao
accusado para que as explicasse.

Sinceramente respondeu Andrada, enviando resenha de algumas predicas, e
o commentario dos pontos em que se desencaminhava dos sermonarios que
tinham o beneplacito do Pao de Braga.

E, insistindo nas suas maneiras de apostolar, declarava no se submeter
a emendas em questes doutrinarias, pois que, accrescentava, tinha para
si que os erros emendados ficavam mais compridos, e era peorar os seus
humildes discursos--contradiz-los, aspando-lhes o unico merecimento que
tinham,--a sinceridade que os urdira e expressavam.

No se fez esperar a suspenso. Foi para Lares, onde Maria Peregrina o
tratava como pessoa de familia. Pouco tempo ali demoraram. Passados
mses partiam para Lisboa:--Maria Peregrina, Salom, Violet, o padre e
Jacob.


VIII

Um dos escriptores de mais talento era ento um rapaz de vinte e nove
annos, que se isolava propositadamente das confrarias literarias para
viver e reflectir pelo livro impresses que eram o sentir intimo duma
figura parte. Esse escriptor era D. Nuno Alvaro de Sousa e Villar,
III. Conde de Nevogilde.

Oriundo duma familia nobre de Traz-os-Montes, com um bom patrimonio em
terras, repartidas por trs provincias, vivia, habitualmente, em Lisboa,
reservando dois mses para passar numa quinta em Entre-os-Rios, e
viajando outro tanto tempo, approximadamente, todos os annos, pelo
extrangeiro.

Os livros de Nuno de Villar, como elle os assignava, revelando um
temperamento, eram provas do movimento idealista contemporaneo em
Portugal, provas raras entre uma flora arrepiada de pessimas letras,
reflexo de auctores dessorados, perdidos em liturgias de Arte, ingenuas
e pelintras.

Era alto, de cabellos escuros, parco em rir, olhos negros, serenos e
profundos, nariz de feitio judaico, em bico de aguia, pallido, expresso
triste, um pouco desmanchado de maneiras, que lhe inculcavam lassido de
animo, sem prejuizo da gentileza de linhas que lhe contrastavam a raa.

Escrevendo, exprimia aquella lassido numa prosa sua, duma suavidade e
rythmica novas, muito senhor de todos os processos, que coava,
conscientemente, pelo seu criterio, numa ou outra notula erudita, para
se librar, logo, segundo o temperamento, s creaes e pontos de vista
proprios.

Processos seus, idas extravagantes, frmas singulares--taes as
qualidades e defeitos que o extremavam.

Os ultimos livros--_O Genio do Acaso_, _Symbolos_, _Os Sensuaes_
(romance), e a _Vida plastica_, eram documentos claros do seu talento e
distinco de escriptor.

Profundamente individualista, esmaltava os escriptos de dizeres
pessoaes, que lhe inculcavam o orgulho, que era o fundo do seu caracter
de homem de raa. Em todos os livros marcava o trao do seu declivar de
decadente; era, fundamentalmente, um negativista. Cria na Arte. Era ella
a sua religio, o seu refugio e tormento.

quem della, via a burguesia, que appellidava de utilitaria e estupida,
a moral, a fico. Para alm... nada.

Typo esquisito de superior, era difficil nas relaes.

Horrorizava-o a descoberta duma grossaria nova. E tinha para si que
conhecimento novo era cabaz aberto a novas grossarias que tinha de
supportar.

Ignorava-se em Lisboa a sua vida. Os mais alviareiros sabiam vagamente
que uma ou outra vez era visitado por mulheres de reputao suspeita,
que variavam nas dependencias do Palacio-Foz, na Avenida, onde vivia.

Andava quasi sempre s. E nos theatros e livrarias em que apparecia, era
difficil abord-lo, pois se mantinha numa reserva educada, que afastava
os mais ousados em relaes.

Entre o publico e elle estava o editor.

--Os editores, affirmava, so vulgarmente calumniados de pessimas
creaturas. Eu prefiro-os ao resto da gente. No quero saber do publico,
nem dos reclamos das folhas, nem dos criticos das redaces, nem do que
podem pensar as academias que por ahi praceiam bacharelices.

Basta-me o editor para me relacionar com algum espirito que me entenda,
ou qualquer gerao por vir que lave a Idiotia que por ahi corre.

E, de facto, no mandava livros s redaces, nem s academias, nem s
bibliothecas, nem a pessoa alguma.

--Escrevo para mim e para alguem que no conheo.

Os conhecidos no valem uma linha, informava, no _Preludio da Vida
Plastica_.

Em volta da sua figura, duma gentileza doentia, de aspecto simples, mas
mysteriosa, dum retrahimento religioso, mal disfarado na distraco que
affectava, cresciam lendas mais ou menos exoticas a que vivia alheio.

Ainda em casa, era pouco communicativo.

Unicamente conversava com o mordomo, um velho de confiana, egualmente
discreto, fechado a qualquer esclarecimento que lhe pedissem acerca da
casa.

Para o mordomo, o silencio era um ponto de honra, em tal assumpto. O seu
programma era obedecer sem discutir, e calar comsigo qualquer ordem que
lhe fosse dada; assim servira o II. Conde de Nevogilde, um excentrico,
e assim servia o filho, D. Nuno de Villar.

Era, de resto, bem simples o seu trato, pois que afora coisas minimas,
era de natural indulgente e carinhoso para os inferiores. Esquisitamente
methodico, tinha horas proprias para tudo.

Quando fechado no gabinete no permittia que fossem interromp-lo.

--Se  hora em que leio ou estudo, houver fogo em casa, deixa-me morrer
assado--recommendava ao mordomo.

No havia ordem, nem visita, nem telegramma ou acontecimento que
absolvesse um creado que lhe alterasse as ordens.

--Que tudo l fra mude, dizia, nesta casa s a minha vontade pde
variar, e depois a dos outros segundo ella.

      *      *      *      *      *

s onze horas tomava o primeiro almoo.

A seguir, via a correspondencia.

Num dia em que folheava os jornaes,  hora do costume, leu uma noticia
de segunda pagina, cerca dos trabalhos de Ruy Augusto, em exposio nas
dependencias de S. Carlos. A folha reproduzia alguns trabalhos e o
retrato mal zincographado do auctor.

Tratava-se de um pintor precoce, tambem estatuario, rapaz de dezenove
annos, que merecia as benevolencias da gazeta em artigo banal, salvo uma
ou outra nota biographica.

--Ha de ser um prodigio como os do costume, pensou Nuno. Artista de
merito desde os 15 annos!

Emfim, tenho curiosidade em ver as obras do rapaz.

Chamou:

--Jos!

Appareceu o mordomo.

--Vae mandar preparar a carruagem para ir a S. Carlos.

O creado sahiu a cumprir as ordens, e meia hora depois Nuno entrava no
Theatro.

A exposio abria por um grupo de inteno inferior e execuo horrivel.
Denunciava um motivo pago que o auctor no havia comprehendido.

Seguiam-se outras obras detestaveis.

De subito, foi Nuno surprehendido por duas figuras, que diziam no
suppedaneo--_Ganymedes servindo Jupiter_.

Curiosas figuras! Jupiter era uma creao impossivel, desproporcionado,
numa atitude artificialissima. Pelo contrario, Ganymedes era um marmore
a resumar candura. A sua atitude, offerecendo a taa do nectar, as
curvas delicadas do corpo, as minucias, como o desenvolvimento geral do
busto e membros, confusos numa indeciso de sexo--tudo era de molde a
devassar o artista que tinha concebido e executado to extremada obra.

Mas poderia aquelle trabalho ser do mesmo auctor do Jupiter, e do
destacamento de estatuetas que tinha visto? Foi andando. Por entre a
colleco de obras inferiores deparou, a breve trecho, com dois
trabalhos que no desmentiam o _Ganymedes_,--o _Vagabundo_ e a _Figura
errada_.

O _Vagabundo_, notavel de formas e expresso de alheamento, era um
pequeno bronze de meio metro, harmonico, e que ajustava, absolutamente,
ao dizer da peanha.

A _Figura errada_ era o mais notavel dos trabalhos apresentados.
Jehovah, pensativo, encostando a cabea  mo esquerda e tendo na
direita uns restos de barro, contemplava, indeciso e descontente, a
figura que acabra de fazer. Esta figura era a expresso suprema duma
alma que conseguira emprestar ao bronze todo o valor, realizando uma
alta inteno.

Reproduzia um adolescente das mais bellas formas, corpo idealmente
flexuoso, talhado em linhas suaves, duma musculatura branda, dum boleio
irreprehensivelmente plastico.

Mas na sua physionomia, como talhada em sombra, havia uma tal expresso
de dor que o bronze parecia ter fixado ali a alma do artista que lha
vazara.

Lembrava a estatua de _Hermes_, de Praxiteles, numa atitude nova de
horror e desespero. Era uma figura de expiao!

      *      *      *      *      *

Nuno passou aturdido pelas suggestes daquella estatueta  segunda
sala--a da pintura.

Os demais objectos de estatuaria eram inferiorissimos:--bustos mal
acabados, atitudes mal surprehendidas, assumptos quasi idiotas.

Na sala de pintura esperava-o nova surpresa.

Havia a considerar as figuras que eram pessimas e as paisagens, bellas,
sem discrepancia.

--Que extraordinario artista! dizia Nuno comsigo: to desegual!

E passando mentalmente as figuras que tinha extremado:

-- curioso que do o mesmo typo em differentes edades.

So reproduces duma unica figura! E quasi que s as reproduces dessa
figura so notaveis.

O resto  intoleravel!

E, vendo as paisagens, ia recolhendo impresses.

--, em pintura, dizia comsigo, um raro apostolo do movimento
contemporaneo. A sua paisagem no se filia em escolas passadas.  a
belleza nova atravs dum grande temperamento.

      *      *      *      *      *

Tinha passado hora e meia depois da entrada de Nuno.

Este viu o relogio e chamou o empregado, mandando apartar as estatuetas
escolhidas e trs paisagens.

A seguir perguntou:

--O artista no est?

--Est alm, vou cham-lo, informou o empregado, dirigindo-se a um
compartimento da extrema.

Pouco depois appareceram os dois:--Ruy Augusto, seguido do empregado.

Nuno de Villar teve um movimento de surpresa.

O apparecimento do esculptor foi uma revelao. As figuras apartadas
eram variantes dum modelo, que era o proprio Artista.

Elle dirigiu-se a Nuno com passo hesitante, flectindo-se,
desordenadamente, num enleio de creana. Nuno attentou-o com
curiosidade.

Era uma figura pequena, duma gentileza effeminada, moreno, olhos verdes;
abria os labios grossos num sorriso triste, e tinha o cabello em ondas
negras e compridas.

Quando Nuno de Villar deu a razo de o ter procurado, elle, confuso,
numa grande perturbao, declarou-se muito honrado com a visita de to
grande artista  sua obra, e pelas acquisies feitas; pediu-lhe para
que deixasse estar no salo os trabalhos comprados, durante alguns dias,
e recusou-se a receber logo o preo.

Nuno, cada vez mais interessado, ficou a conversar.

Ruy, parco de palavras, flectia-se em gestos de atteno, sorrindo aos
elogios do interlocutor.

Quando, porm, Nuno lhe observou as desegualdades, a expresso branda
dos seus olhos de esmeralda transformou-se.

O olhar, at ahi fixo em Nevogilde em expresses suaves duma galantaria
senhoril, volveu-se rapido numa espectrao selvatica, vazando em
tonalidades extranhas sentimentos de tal melancholia e dor que mal se
comportavam nos seus olhos de verdete, normalmente de esmeralda
desbotada.

E Nuno, educado e tolerante:

--Afinal as desegualdades so naturaes nos artistas. A Arte tem os seus
caprichos, as suas horas.

--No  isso, replicou Ruy, em voz sumida. Perde-me V. Ex. a confisso
que vou fazer-lhe e que s a um grande artista pde fazer-se.

A razo de taes desegualdades prende  minha maneira de ser. Vejo-me na
Arte como num espelho. Melhor do que num espelho, pois me vejo
intimamente.

Eu perteno a uma raa que vive odiada e odiando.

Exprimo o povo,--o bastardo duma fidalguia heroica e devassa, que nem
talentos, nem sangue pode medir. Sou o acaso, a torrente vermelha do
Destino, com uns laivos anilados de sangue nobre...

Degenerei em Arte, a feio bella do Odio.

Veja que nem tenho appellidos. O meu nome  Ruy Augusto.

Sou rude convivendo.

Como vejo com horror ou indifferena as creaturas, no tenho modelos que
me impressionem. Toda a obra tem um fundo de photographia. Mas a minha
objectiva recebe mal as imagens. A sua qualidade deforma, sobretudo, as
que geralmente passam por preciosas. E se algumas affinidades mostra 
pelas mais humildes: aproximao de raa.

Depois, a alma soffre com os esforos da vontade. No sente quem quer.
Eu deso de olhos fechados a escada que vae dar ao incerto. Isto na
vida, assim tambem na Arte. Sigo o temperamento. A paisagem, no me
apparece turvada com a figura humana.  a belleza que no maga. Amo,
quero dizer, sinto a paisagem. V. Ex., provavelmente, no sabe, pois
que me no conhece, como sou indicado nos meios que frequento?

Chamam-me o _Vagabundo_. Creio justissima a etiqueta.

Fechado em Lisboa, onde trabalho ao acaso, quasi sem recursos, realizo,
de facto, essa figura extranha, que cansada de caminhar por entre
paredes, desvaira na paisagem reminiscencias e nostalgias dos
descampados da sua terra, que  a terra da sua raa.

Ahi tem V. Ex., concluiu, a razo porque entre uma feira de estatuas
encontrou trs boas e porque na pintura o meu processo  mais harmonico
e o reputo supremo como documento dos meus talentos.

--Muito curiosa a informao, disse Nuno.

E, de repente, fixando Ruy, a sorrir:

--Sabe que conheo o seu modelo preferido?

Ruy ruborizou-se, commentando, enleado:

--Veja V. Ex. que, a despeito do cuidado que ponho em disfar-lo, o
talento de sentir-me tutela-me absolutamente; no tenho meio de o
esconder, de me esconder.

E Nuno, muito curioso de mais notas, cerca do artista:

--Diga-me,  certo o que affirmam os jornaes quanto  sua precocidade?

--Absolutamente certo. Um dos quadros que V. Ex. escolheu  dos meus
quinze annos.

Mas isso no tem valor, accrescentou,--cada um amadurece quando tem
necessidade de amadurecer. Sou fructa outonada. Meu pae era um velho, um
morgado de vinculos perdidos, que me engendrou aos sessenta annos numa
lavadeira da sua casa, uma rapariga forte como as armas, segundo l
dizem em Villa Alva, donde sou natural.

No conheci pae, nem me. Melhor assim! A miseria  a independencia
quando bate  porta de um s, quando no temos de reparti-la...

E confuso:

--Mas estou a incommod-lo.

--No est, contrariou Nevogilde. Adeus! Tenho de sahir, mas quero
pedir-lhe a fineza de jantar hoje commigo.

--Muito obrigado, concordou Ruy.

      *      *      *      *      *

Dias depois estava Nuno tomando o pequeno almoo no gabinete de
trabalho, sumido numa cadeira larga, conversando com Ruy.

O mordomo pediu licena.

--Entra! mandou Nuno.

--Vieram trazer esta carta e um volume.

E Nuno, depois de abrir tudo:

--Quando veiu isto?

--Antes de hontem, informou o mordomo, mas V. Ex. entrou depois do
correio, hontem sahiu antes da hora do correio...

--Sim, disse Nuno, podes sahir.

E para Ruy:

-- que sou escrupuloso nas horas de receber. Abri excepo para o Ruy.

E apontando a carta:

--Sabe que  escripta por sua causa?

 de Maria Peregrina, que tambem me offerece a _Nova Sapho_, a pedir
para lhe ceder um dos trabalhos que lhe comprei. Quer o _Vagabundo_.

Fica o Ruy encarregado de lhe pr o _pertence_ em favor da cobiosa.
Escusado seria dizer-lhe que saldarei a importancia.

Ella lamenta-se por no ter apparecido primeiro em S. Carlos, gaba o seu
talento, e pede-me a cedencia, desculpando-se por se me dirigir sem
apresentao. Mera formula. Lisonjeia-me ser-lhe agradavel.

-- uma mulher notavel, affirmou Ruy. _A Emparedada_  um bello livro.

--Sim, esclareceu Nuno. A sua obra ficar. No leu este volume--_Nova
Sapho_? E dando pela negativa: pois offereo-lhe um exemplar que ali
tenho. Ficarei com este que tem a dedicatoria. Leia-o!

E sorrindo:

-- o Vicio illuminando a Arte--Sodoma e Lesbos resurgindo a arder...

-- parallelo em belleza  _Emparedada_, inquiriu Ruy?

--No, disse Nuno. Os dois trabalhos completam a artista. Mas esta obra
accusa tranquilidade. Parece equivaler a uma quadra feliz da escriptora.
Presente-se ali um fio, embora tenue, de amor a dirigir o poema.

 a belleza harmonica, com apoio numa razo intima da vida.

A _Emparedada_  um poema superior.  talvez a sombra daquella paixo,
projectada pelo talento. A auctora viveu nelle desesperos e
melancholias. E, como nada disto soffre razes, o poema attingiu o
Genio, que, fundamentalmente,  o talento transpondo a primeira zona da
loucura.

--Ser verdadeiro, Conde, perguntou Ruy, o romance que por ahi corre a
respeito da auctora?!...

--Julgo que no, disse Nevogilde; corre um romance inferior ao seu
talento. Mas creio, absolutamente, que tenha raiz na moral nova que
apostoliza.

-- que s a noticia da chegada della surprehendeu a curiosidade de
Lisboa. E, a partir dahi, no ha dia em que no corra um episodio novo a
seu respeito.

--Pouco sei della, concluiu Nuno de Villar. No entanto, interessa-me
bastante tudo que lhe respeita pois que mulher e auctora parecem
fundir-se nas obras.

Tenciono ir agradecer-lhe o livro. Veremos se tratada ir desmentir-me
impresses.

--Tenho pena de no estar em S. Carlos quando l foi. Soube que
appareceu hontem, disse o pintor.

--V-la- mais tarde, se nos auctorizar a visit-la.

--Ah! disse o _Vagabundo_, enleado, nem me faltava mais nada. Tenho boa
disposio e presena para apparecer no palacete do Alecrim, por entre
as maltas de tom...

--Engana-se Ruy. O nome que lhe advem do talento, e encanto da sua
figura, como as immunidades de artista, fazem que todos o recebam bem.

E, se l fr, vae para conversar a mulher excepcional. Que vale o resto?

Ruy levantou-se e foi ler perto as horas dum relogio-Imperio que sobre o
fogo pulsava o tempo.

-- tarde, disse, vou deix-lo. O Conde d-me licena...

--Dou, disse Nevogilde, mas espero-o para jantar. Apparea. No esquea
a recommendao sobre a estatueta. Mande mudar o _pertence_.


IX

Havia mses que a Artista se installra em Lisboa, num palacete da rua
do Alecrim. No lhe foi indifferente aos nervos a curta estada no Minho;
socegou. Mas o Minho deu-lhe todos os attractivos em pouco tempo;
cansou-a a serenidade.

Estava grata  pobre terra que lhe dera um arremdo da antiga felicidade
na companhia da prima, a Salom, ingenuamente linda, condescendente.

Mas o Minho pareceu-lhe pequeno para theatro das novas aventuras, que
lhe traziam, sem enthusiasmo, um bem-estar, que no sentia ha muito.

Em volta de Peregrina, mexeu-se Lisboa. Appareceram os que desejavam
folgar na casa do Alecrim, como pertencendo  sua parentela, e havia os
recem-vindos das letras, que thuribulavam a Artista na presena e
andavam pela cidade contando as extravagancias que derivavam da sua
conversa livre.

Ella, conformada pelos novos amores, mal dava pelo cisco que remoinhava
nos seus sales.

E, aos certames do sabbado, acquiescia, benevola, dispensando attenes
e espirito. Entretinha-a brandamente aquelle gaudiar de gente que ia ali
explorar-lhe o luxo e destinava a prender a futilidade da Salom.
Entretanto, para si preferia outros dias, aquelles em que tratava 
puridade os intimos, que eram os da casa, Nuno de Villar e Ruy.

Nuno de Villar procurou-a, para agradecer a _Nova Sapho_, e offerecer o
trabalho de Ruy; e ficou, desde logo, um amigo da casa, a quem Peregrina
tratava com distinco e affecto.

Ruy apparecia esquivo, cobrindo o orgulho de humildades.

Peregrina tratava-o por tu; gabava-lhe o talento; tomava-o,
carinhosamente, por uma creana que era preciso amimar; ria dos seus
enleios, a ver se conseguia dar-lhe  alma selvatica tranquillidade e
estados mais felizes.

No havia meio.

Era, como frisava Nuno, o genio do povo, o Principe da Plebe,
irreconciliavel com outras camadas.

Frequentava os meios aristocraticos, por curiosidade. A Arte dava-lhe
admisso nos sales. Mas trocar affectos com outras raas, no podia. A
sua obra era a concepo do homem que conversa de perto a natureza e a
exterioriza, sonhando alto.

Elle sonhava em tela e bronze. Era poeta, pintando  sua maneira. Os
pastores da sua provincia, vagabundeavam com os gados com os quaes
trocavam expresses de olhar. Mas estas expresses davam-nas entre si,
misturando, desvairando a alma, na alma livre dos campos.

Reflectiam-nas, desgarrando cantares impregnados de nostalgia arabe.
Fra dos descampados, eram outros.

Tambem Ruy, ainda nos sales, distrahido, usava expresses mansas de
cordeiro.

Se o chamavam  vida e fixava os que o cercavam, espectrava logo
denuncias duma alma irreconciliavel.

Quasi sempre calado, brando  vibrao das inferioridades, como dos
talentos alheios, era nos sales de Maria Peregrina como um alumno que
apparecesse a tirar a falta.

Entretanto, a casa da artista era uma verdadeira academia, aos sabbados.

Romancistas em comeo de vida, homens de Estado, jornalistas, pintores,
poetas de primeiro vo, tudo ia ali privar um pouco com a Poetisa, e
dizer discursos de Arte, de philosophia e at de politica.

Maria Peregrina, tolerante, ia acompanhando aquella Babel de convenes.
E a Nuno, que a increpava, educadamente, da generosidade, accusando-a de
subsidiar os apostolos do que chamava a philosophia do Pdre, respondia:

--A colleco dos sabbados  o meu narcotico. Aquelle barulhar de idas
disparatadas, auxilia-me a esquecer o passado, a viver o presente.

      *      *      *      *      *

Uma noite estava no Salo-verde, s e muito attenta a um volume de
Spinoza, que lia havia horas, quando entrou um creado a annunciar:

--O sr. Conde de Nevogilde e o sr. Ruy.

--Que entrem! mandou.

E vendo-os:

--Como vo?

E para Nevogilde:

--No quiz vir hontem? A noite esteve desagradavel... Tem escripto
muito? Que bello o ultimo folhetim para o _Jornal do Rio_!

Como o Nuno consegue ser original sem diatribe, crear sem demolir. Como
se excede, escrevendo!

A puridade, na conversa, tem ainda impertinencias. Escrevendo, s edita
o homem superior. Admiro-lhe, sobretudo, o alheamento da vida commum; a
elevao do espirito, exotico quasi a frio; a forma por que consegue
percorrer notas to extranhas dentro da mais perfeita serenidade do
dizer.

-- que a conversa  para mim uma distraco, um vicio. Pratico-a, como
pratico os demais vicios, tal como os nervos, as influencias ma
suggerem. A conversa no sou eu; so os outros e eu.

Tenho para mim que a companhia desdobra de ns uma creatura differente
da que formamos intimamente. E, quanto mais intelligentes somos ou nos
julgamos, peor --mais ingenuos somos tambem, mais facilmente cahimos na
tal rde de suggestes...

At Maria Peregrina , acompanhada, uma pessoa to diversa de si
propria!

-- verdade, Nuno, confirmou. E quando estamos ss,  que mais
soffremos!

Por mim, contrariando o proloquio, prefiro estar mal acompanhada a estar
s. Contudo, convenho em que precisava de viver isolada.

E premindo o boto da campainha:

--Vou mandar chamar a Salom e Violet; com a leitura no sei dellas ha
muito...

Veiu Jacob, fez uma mesura a distancia e quedou, cabisbaixo,  espera de
ordens.

--Anda c, disse meigamente Maria Peregrina, passando-lhe os dedos pela
face de pergaminho, tu vaes, meu velho, dizer s senhoras que as espero,
sim?

Voltando-se para Nevogilde:

--Gosto muito deste ano porque  menor do que a sua maldade, e a
maldade delle profundamente legitima dentro do destino. No imagina,
paga a pena convers-lo a ss. O Mal no tem que ensinar-lhe coisa
alguma. Depois, to intelligente e commodo nas suas formulas. Veja como
entrou respeitoso. Eu uso-o como uma extravagancia, de longe em longe; a
alma delle vale um frasco de essencia exotica que entorno sobre mim s
temporadas...

Salom e Violet chegaram  sala ao mesmo tempo.

Nuno, levantou-se para cumpriment-las, mas antes que tivesse tempo de
faz-lo, j Salom o inquiria sobre a falta da vespera e averso s
reunies do sabbado.

--Estava agora para explicar a Maria Peregrina a razo da minha falta.

Ainda bem que a sua chegada me salva de repetir-me. Ia dizer que no
gosto das reunies do sabbado porque me aborrece a colleco de letrados
que geralmente juntam. Alm do chronista, que  sujo, to effectivo na
immundicie como nos seres, ha os dois poetas, que reputo duma
pelintraria intellectual abaixo de tudo, deputados, os dois
ministros--todo o indice da familia portuguesa que trato a distancia.
No sei como pode atur-los, concluiu, olhando para Peregrina.

--Aturo-os bem, e divertem-me: so originaes na sua ingenuidade. E eu
quando vejo alguem original exulto. A vida  to monotona, a gente
escorreita to pouco interessante...

--Sabe? interveiu Salom, voltada para Nuno: tambem esteve hontem a
mulher do pintor...

Vinha pasmosa de cres e _toilette_. As tintas do cabello e da cara,
desacreditavam, de vez, o marido.

--Se  o marido quem a pinta ou lhe inspira a cr, o que nunca ouvi,
objectou Violet. O contrario  que parece verdadeiro;  ella o modelo, a
razo da arte como dos infortunios do pintor.

--Coitada, commentou Peregrina, que pena me d! Deus deu-lhe um cerebro
estreito, que mal chega para a moral burguesa. E teima em ser _alguem_!
Quando, afinal, nem tem vontade de ser boa, nem talento para ser m.

O horror que deve ser o conflicto da carne escandecida pelo temperamento
sem a menor centelha de genio que o aproveite!

--Ah! commentou Nevogilde, essa, apesar de tudo,  sympathica no seu
remoinhar de _toilettes_ de rainha pobre de tragedia...

Quem eu no aturo so os outros.

Umas creaturas to enfezadas, to pobres de corpo, como de alma... Que
miseria!

--Nuno! observou a Artista, delindo as palavras num sorriso:--no me
faa arrepender do conceito em que o tenho. Demais, esse luxo de parecer
forte denuncia fraqueza...

Que mal lhe fizeram as minhas visitas de sabbado? Seja bom! A
inferioridade dos outros  que faz o nosso talento.

Nevogilde ia a replicar, quando sentiu refolhar o reposteiro e surgir a
cabea quasi branca de Jos d'Andrada.

--Ol, monsenhor! Ento que vae?

--Uma optima temperatura nesta sala, replicou o padre. Estou certo de
que  o unico compartimento civilizado de Lisboa, pois que tem
tudo--espirito, luxo, calor...

E sorria, numa expresso boa, encarando Peregrina e os companheiros de
sero.

-- verdade, observou Nuno. E, entretanto, se o monsenhor no viesse de
fra, do frio, j nem agradecia esta temperatura e companhia.

Eu creio que at no ceu haver dezembros para que haja camaras mais
reconditas onde Deus alumie e aquea os escolhidos. No lhe parece,
monsenhor?

--Sei l! respondeu Andrada. Nunca me dei a averiguar se o ceu tinha
calendario, mas creio que no, pois que, apesar de relapso, segundo os
vigarios de Deus na Terra, quando leio o Breviario no dou pelo tempo...

--O monsenhor quando morrer no chega a estanciar no purgatorio, to
lavada  a sua vida neste mundo!

--No sei, sr. Conde, como Deus v as nossas obras! Se as avalia pelas
intenes, estou certo de que nos absolver a todos, seja qual fr o
conceito que o mundo faa de ns.

Elle v-nos ainda informes. Sabe o que o destino vale contra as
creaturas. Creio que castigar a maldade, mas ser bom para a desgraa,
perdoar os nossos erros.

De certo, ha de prosperar-nos no ceu segundo as intenes.

Por ellas saber quem so os limpos de corao.

--Como poder passar no ceu sem a Mouraria? perguntou Nuno, rindo,
voltado para Ruy.

E dirigindo-se a Maria Peregrina:

--No imagina,  uma sereia bohemia. Como sente a vida humilde dos que
viciam por essas ruelas e sabe insinuar os imprevistos que por l
existem!

--Ahi est um emprego que me dir bem, affirmou Ruy, em sua voz cantada:
serei o informador junto de Deus da miseria que sei.

--Deus dispensa-o de tal trabalho, disse Andrada, sorrindo. Vive na
consciencia de cada um. Julga os nossos julgamentos e joga para isso com
factos que nos so despercebidos. Mas deixemos o assumpto se V. Ex.as
o permittem.

Discutir Deus  estrag-lo. Basta crer nelle, acceit-lo no maximo de
bondade que pudermos pedir ao temperamento.

Uma novidade:--acaba de chegar a Lisboa o novo ministro ingls; vae ao
Pao na proxima semana apresentar as credenciaes.

--E quem ? perguntou Nuno.

--, deixe V. Ex. vr se me lembro: ... John Brook.

--Brook! disseram a um tempo Peregrina e Violet.

--Conhecem? perguntou Nuno.

--Sim, conheo; quero dizer, sei quem , informou Peregrina. Uma pessoa
da familia delle foi do nosso tempo em Petersfield.

E, disfaradamente, olhou para Salom, que conversava baixo com Violet.

Appareceu um creado.

--Est l em baixo o sr. dr. Amaro Sanches; pergunta se V. Ex. pode
receb-lo.

Peregrina fez um gesto de cansao e disse de vagar, hesitante:

--Que entre...

Nuno ia a levantar-se.

--Ah! fique, peo-lhe, implorou Peregrina.

--Se assim o deseja, fico. Mas custa-me muito aturar um capello, e ento
aquelle--lente, filho de lente, neto de lente. Tem as caldas todas.

--Deixe l, replicou Peregrina. O genero  antipathico em Coimbra. Fra
de portas  toleravel. Ver que  discreto...

Momentos depois entrava na sala o dr. Amaro Sanches, pequenino,
precioso,  busca de expresses, anecdotico, preoccupado com a maneira
de estar.

Explicou que partia no dia seguinte para Coimbra a reger cadeira. Falou
das aulas e contou de enfiada as partidas do velho Loureno, Jos Braz e
casos do Quental.

E Maria Peregrina, que via, disfaradamente, a atitude admirada de Nuno,
como a desviar-lhe a palavra:

--Esteve na Granja, no  verdade? Divertiu-se? Agora vae extranhar;
muito trabalho...

--Ah! no imaginam. Este anno a praia esteve animadissima. Disse l umas
conferencias na Assembla sobre a Pedagogia na Allemanha. Sou um
apostolo deste grande pas. Fiz l o melhor do meu apprendizado
scientifico. Estou gratissimo ao ensino allemo. Ser o meu guia na
aula. Os meus collegas na Faculdade vem de maus olhos este exclusivismo
pela Allemanha. Mas V. Ex.as sabem que  a primeira em tudo:--em
Medicina, Philosophia, Arte, Politica, etc. Sou tradicionalista como um
allemo. Quero Sciencia, Arte e Politica tudo  allem. As creaturas
disciplinadas a uma s ordem-- auctoridade, que  no governo uma
individualidade de poder, na aula o professor... Por mim serei um
ditador. Um mestre  na cathedra um governante. Tem de impor os
methodos.

E, numa confuso de assumptos, verboso, descrevendo methodos de ensino,
as dansas da Granja, tudo o que lhe ia lembrando, passou uma hora. At
que pediu licena para retirar:--tinha de levantar-se cdo...

Houve um movimento que tanto podia ser de atteno  despedida, como de
allivio.

Nuno, vexado, abreviava os agradecimentos s offertas do professor,
muito importante, convidando-o a ir a Coimbra ver os progressos do
ensino.

--Que fosse; o ensino estava ao par do que vira no extrangeiro; no era
s a Medicina que honrava Coimbra, a antiga capital intellectual do
pas; honravam-na todas as faculdades, destacando-se a de Direito, onde
o professor Alves, que ensinava Direito Patrio, remontava o estudo da
sua cadeira s edades paleolithicas;--que fosse ao menos assistir 
festa dum capello, aconselhava com interesse: era a festa academica por
excellencia.

E para Maria Peregrina e Salom:

--Porque no vo V. Ex.as tambem? Deviam gostar. Haveria em breve o
capello dum rapaz que se doutorava ao mesmo tempo em philosophia,
mathematica e medicina e ia ostentar na festa um capello tricolor; no
imaginavam:--era uma summidade, com vinte e cinco annos!

Que fossem, insistia; j o pae e o av, que tambem tinham capello,
falavam com unco da grandiosa festa.

E os presentes  uma, para que se calasse:

--Que tinham o maior desejo de ver a tal zebra insigne. Era possivel
apparecerem. Haviam de combinar...

Enquanto falava, Amaro Sanches fitava Salom, que parecia a unica a
interessar-se por aquella la coimbr.

Afinal despediu-se, promettendo voltar em breve. Ia muito sensibilizado
pelas reunies dos sabbados.

E, depois de salamaleques varios, arrastando cadeiras, lembrando ainda
os ditos do Dr. Loureno, sahiu muito contente de si e da Universidade,
aps um aperto de mo prolongado  Salom, que o fitava com ternura.

Quando sahiu tudo se calou. Nuno levantou-se, esfregou os olhos, como se
tivesse acordado dum pesadelo, e disse, voltando-se para Ruy:

--Vamos!

--J? inquiriu Peregrina.  cdo; so onze horas.

--Estou fatigado, contuso. Tenho a impresso de que o homem varreu sobre
mim toda a calia dos paos de Joo III.

Quando a torre cahir no faz tamanha bulha!

A cabea deste lente rehabilita o chaos. Aquelle craneo  uma terrina de
salada russa!

Adeus, Maria Peregrina!

--Espere um pouco! disse ella, fixando-o.

Coitado! Depois das sabbatinas nas aulas, dos successos na Granja,
triumphos em theses, do capello amarello, retrato entre o pap e o av,
dos cumprimentos dos rapazes, num meio pco e idiotamente romantico, que
queria V. que o homem fosse?

--O que eu me perguntava, no decurso daquelle desapontoado de coisas,
era no que redundaria a gerao que tem educadores de tal jaez?

Que viveiro!


X

Dias depois, escrevia Peregrina, quando foi interrompida por Jacob, que
lhe trazia um bilhete.

Leu: Helen Broock.

--Est no vestibulo esta senhora? perguntou.

--Est, informou o ano.

--Acompanha-a aqui.

Momentos depois entrava Helen, e abraava Peregrina num transporte de
alegria.

--Ha que tempos nos no vemos!

E beijava a antiga companheira na boca e nos olhos, incendida de cr.

Maria Peregrina recebeu-a com moderado enthusiasmo. Quando ella se
distanciou, mirou-a curiosamente.

Helen no era j a esbelta rapariga de Petersfield. Era uma figura quasi
vulgar. Debalde Maria Peregrina procurava nella a linda pelle de seda
que a tinha arrebatado tanta vez, as frmas excepcionaes, a flexuosidade
e candura do movimento.

--Estou mudada, no  assim? Tu no ests resentida commigo?! Sabes que
tive um grande desgosto com a carta do John. Coitado, agora  um
cordeiro. Tenho vingado a grossaria que praticou comtigo.

Ento, minha _Sapho_! dize alguma coisa  tua velha amiga, abraa-me!

E beijava-a com ternura.

--Que queres que diga? Que s junto de mim o passado! O acaso, veiu
juntar-nos, quando estamos to longe do que fomos.

No imaginas o estado de indeciso de espirito em que ando. Depois que
te deixei, a nostalgia de Petersfield pautou-me toda a sorte de
extravagancias. Queria encontrar alguem que te substituisse; e,
entretanto, ia enchendo o tempo, pervertendo-me, para no pensar no
perdido.

No encontrei quem procurava. Nem tu, segundo acabo de verificar, podes
substituir-te.

No sei se sabes que vive commigo Violet.  uma pobre creatura que me 
docil como a minha carne. Talvez por isso a vejo com amargura. Est ahi
outra rapariga, minha parenta.

J percebi que amo nella a simples frescura da mocidade, talvez a
ingenuidade dos seus enleios de provinciana.

Mas o vago duma aspirao suprema, persiste em mim. Eu queria, sabes?--o
goso tranquillo, pr um fim onde s encontro o indeterminado...

Um horror!

No tento uma aventura que me pague a imaginao de urd-la...

--Pois calculei que eras feliz. Tinham-me dito que recebias a melhor
gente de Lisboa; que davas festas...

--A melhor gente de Lisboa  pessima. Excepcionalmente encontrei uma
figura rara, o Conde de Nevogilde, um excentrico, escriptor de
merecimento, por quem sinto a melhor devoo. Vale-me nalguns seres.

Vou por estes dias passar algum tempo  sua casa de Entre-os-Rios, a
Villa-Feia.

--Extranho logar, disse Helen, se o titulo no mente.

--No mente, creio. Aquella Villa  um capricho da natureza em favor do
proprietario.

 um scenario novo, com uma flora especial, cheia de imprevisto. Tudo
ahi  curioso. E no imaginas o enthusiasmo de Nuno Nevogilde pela sua
Villa, como sabe estimar o encanto do Feio.

 um rapaz adoravel. O seu interesse vale mais do que o seu talento.

Ser interessante  ser tudo para os outros. O interesse  bem mais raro
do que o talento.

Este pode ser monotono, impertinente; o interesse  o imprevisto, o
encanto derramado naturalmente, filho duma razo que escapa, adstricto a
um genio cujo enredo nos move sem que possamos defender-nos das suas ms
consequencias.

No  o que elle diz,  a forma porque diz.  insinuante, muito crestado
de viver, apagando-se junto dos humildes, pasmando perto dos tolos,
soffrendo o que v, o que adivinha...

--Vaes ento passar uma optima temporada? disse Helen triste e morna aos
enthusiasmos de Peregrina.

O que te no lembra  Petersfield! Outros tempos, novos amores...

Pois eu, minha querida, vivo ainda na recordao dos velhos tempos. No
te enganavas quando respondias ao John, annunciando-lhe que eu
permaneceria fiel aos teus ensinamentos. Cada vez tenho mais horror ao
homem, sobretudo ao que me deram por companheiro. Ainda bem que a
_diabtes_ promette liquid-lo breve...  a sua nota sympathica--a
doena.

--Olha que nos meus ensinamentos no cabe tal ferocidade. Ha coisas que
podemos pensar, mas devemos envergonhar-nos de dizer. O pensamento nem
sempre joga com a vontade.

Eu sou feroz commigo: tenho-me desejado a morte. Gosei a morte de Edgar,
como nunca esperei gosar coisa alguma no mundo. Mas no lha desejei.
Ter-lha-ia evitado, se a adivinhasse. Ante o facto consummado o meu
espirito exultou. Espirito e corpo, num abrao como jmais se deram,
possuiram aquelle lindo morto ou antes a Belleza-morte, no maior
elasterio de sensualidade... Mas, vigiar dia a dia o que vae dar-nos a
felicidade de morrer, perscrutar-lhe os passos da doena, porventura
promover-lha, isso no  digno de ti.

--Ah! minha Peregrina, tu no sabes o que  sentir o amor do homem que
detestamos. Olha que  peor do que o contrario, amar a pessoa que nos
detesta!

--Mas afasta-te delle. Deixas de ser ministra de Inglaterra, mas s a
mulher digna, ainda que vivas como uma rameira, de amores com outras
rameiras. S a mulher livre; nada ha peor do que a honestidade forada.

S a hypocrisia  crime!

Os olhos de turquesa da extrangeira nublaram-se de lagrimas; cahiu a
soluar sobre o peito forte de Peregrina, que a afagava friamente.
Bateram  porta.

Era Violet e Salom.

--Esperae um pouco! disse a Artista.

E, dentro de breve tempo, sahiam as duas a encontrar-se com a antiga
condiscipula e Salom.


XI

A Villa-Feia, sobranceira a Entre-os-Rios, assenta na encosta que domina
a junco do Douro com o Paiva.

Este ribeiro desce obliquamente, como um fio de platina a fundir-se nas
aguas de oiro do Rio, que segue, como um grilho mysterioso, a perder-se
no mar.

O antigo pao senhorial da Villa-Feia  um systema de torres e torrees
extravagantes, casas afiladas de frestas altas e seguidas, que do de
longe a impresso de linhas pontoadas; e quadrados enormes, atarracados,
beirados de ameias grotescas, e frestas em losango, que pem na cantaria
verde-negra um recorte de retinas extranhas, attentas ao mechanismo
liquido das correntes e  paisagem roxa dos montados.

Tanto o pao torreado como o plantio da maior parte do arvoredo da
Villa-Feia, foram obra dum velho templario que, segundo a Lenda, veio
esquecer ali as canseiras da guerra.

Aquella architectura, informam os do povoado, foi ida do templario. A
deformao das arvores e outros _signaes_ da Villa maldita, foram
castigo de Deus, irritado com o porte de D. Alvaro de Castro Leite de
Villar, um dos maioraes da Ordem que, em 1312, Clemente V aboliu.

Corre a fama de que o grande cavalleiro fra um dos que mais
justificaram a liquidao da Ordem militar e religiosa dos Templarios,
pois que escureceu o brilho dos feitos mais ousados com actos de
desenfreada sodomia.

O seu temperamento, fra do natural, delineara um castello
desproporcionado, alheio  architectura do seculo.

A natureza requintou em lhe deformar as arvores, dando  Villa-Feia uma
flora monstruosa, invertendo o tempo das flores e dos fructos e afeiando
as plantas de melhor raa. Mas no  smente nas velhas arvores, que os
do povo inculcam como plantadas pelo Templario, que as deformaes se
notam.  em todas as arvores que ahi se disponham. Quanto mais formosas
so fra, mais afeiam l dentro. Ha-as chloroticas, abraando-se numa
adherencia de enxerto; outras, communicando serpentes de ramaria e
abraos a muitos metros dos troncos; raas humildes, attingindo
desenvolvimentos notaveis; eucalyptos, geralmente desenvolvidos e que
ali figuram de anes, enfezados, exiguos.

Desenvolvimento, florescencia e fructos, parecem obedecer a leis
especiaes. A Villa-Feia  um capricho da Natureza; uma pagina de
Pathologia vegetal.

Os fructos so acres; as flores, em meios tons, e dum recorte esquisito,
no tem aroma, o que faz que os camponios supponham que a sua
approximao lhes veda o olfacto.

Tudo ali  extranho. Cada arvore toma um aspecto diverso das mais da sua
raa em outras terras. O choupo-choro abre em traos rectos; o _ulmus
pendula_, de braos geralmente curvos no sentido do tronco, revira os
ramos em hastes de novilho; cactos prodigiosos, vestem o sop da
encosta, formando cordes farpados; pinheiros bravos abrem-se em
umbellas rtas, de agulharia verde-escura; os cedros parecem arvoresitas
de Natal, ramos de presepio; cyprestes bastos, tragicos e colossaes,
pem pontos de admirao na paisagem; chores, flexiveis como vimes,
descem em tufos emmaranhados as suas lagrimas verdes, longas at aos
ps; medronheiros de grandes troncos, herpeticos de musgueira, de folha
sca, mal vestidos, ostentam, simultaneamente, floritas brancas e
fructos exiguos de coralina.

Os sobreiros jmais deixam o tom acastanhado que usam noutras terras ao
abandonarem a cortia:--pem na Villa-Feia uma _nuance_ de sangue velho,
erguendo-se, rachiticos, como adolescentes morenos alcanados pela
tisica.

Nos recantos mais sombrios o cho  hirsuto de tojeira, cerdoso de
espinhos bravos, bastos como pellagem de javali, salvo nas ruelas,
abertas em lacetes, tortuosos, duma colleao mysteriosa de labyrintho.

Domina a Villa um penedo enorme, simulando uma figura-gigante, deitada
na tojeira, que se desdobra em volta como uma pelle.

 uma figura nua, guarnecida de musgos, ostentando signaes nitidos dos
dois sexos; lembra a figura de Hermaphrodita que um artista ensandecido
tivesse trabalhado ha muitos seculos, e postado ali como um amuleto
maldito do mundo sensual.

Corre entre os lavradores que o Penedo fra cinzelado por D. Alvaro em
noites brancas de janeiro, de collaborao com o Demonio, que, em baixo,
no Ribeiro de Cobre, referve coleras.

E rapazes gastos e velhos sensuaes, crentes na sua virtude, vo horas
mortas, pedir-lhe foras desbaratadas.

O Encommendado no se cansa de predicar o peccado em que incorrem os que
veneram o mysterioso granito.

E velhos menos confiados contam casos de creaturas tolhidas, quando
foram de romaria ao Penedo, depois de encontrarem a alma-penada do
Templario, em companhia do Demonio, revendo a obra.

O Ribeiro de Cobre ganha a primeira altura da encosta dum salto,
borbulhando tufos de agua escura, que rasam em madra pela aude. Dali
partem levadas que cortam em leque os campos baixos.

Vogam na madra aves de agua, pequenos cysnes e enormes gansos, de
pescoos de cobra e bicos de fava, remando de vagar os corpos
gondolosos, vestidos de pennas, tufadas como ramos de chrysantos negros.

Tracto singular de paisagem, onde esparsos olivedos pem nodoas de
saudade em cinza!

Parece haver o maior parentesco entre o Ribeiro de Cobre, assim chamado
em razo da cr e o arvoredo, em que predomina o acastanhado dos
sobreiros.

O povo guarda-se cautelosamente de pescar no Ribeiro, se bem que seja
abundante em peixe e, sobretudo, em trutas, que lembram desenhos fugidos
dalgum jarro precioso do Japo, a refulgirem escamas de prata e oiro por
entre o cobre liquido do humilde corrego.

 que desde muito se conta na aldeia que D. Briolanja, a ultima morgada
da Villa, fra victima de peixes ahi pescados:--que ceara as
endemoninhadas trutas numa vespera de Anno-Bom e amanhecera sem fala,
muito branca, fazendo esgares, at que morreu, depois duma agonia
mysteriosa, ao cabo de poucas horas.

Para alm da madra, ha um velho moinho redondo, de grande
circumferencia e pedra tosca, de juntas tomadas a verdura, com janellas
oblongas e uma roda de dentes podres.

Semelha um caro horrivel, de olhos azeitonados, comidos de ophthalmias,
sobrancelhas rentes de musgueira verde-limo e boca enorme, a que a roda
de dentes cariada d a expresso confrangida dum riso diabolico de dor.

A agua que a boca do moinho espma, em camarinhas escuras, travs da
roda gasta, vae sumir-se a distancia, no lagedo amarello das alluviadas,
que escondem o Ribeiro num tracto de dez passos. E , sob o lagedo, que
a agua espadanada contra a penedia baixa referve coleras de inferno,
resoando naquella abobada de acaso as presumidas falas do diabo, segundo
a voz corrente na aldeia.

Sobranceira ao moinho, na outra margem, fica a _Eira de Vidro_, uma
escama natural de mica luzente, que, ao meio dia, quando o sol a veste,
refulge, a meio da Penedia-amuleto, cordas de luz branca.

Circuita o exotico miradouro uma escarpa de granito rendilhado, que
lembra o espaldar e braos de uma cadeira gothica de Cathedral.

Finalmente,  deste poiso extranho que os valles proximos escutam e
repetem os dizeres dos que ahi falam.

Condies de acustica desconhecidas pem no espao trios de arremdo!



Tal a descripo da Villa-Feia, conforme um inedito de Nuno de Villar,
III. conde de Nevogilde e ultimo representante do Templario.

Era ahi que o escriptor villegiava quando a Cidade o aborrecia, ou
sentia necessidade de dar asas  sua erudio e Arte. Ahi escreveu _Os
Sensuaes_, o melhor dos seus livros, e varios capitulos da _Vida
Plastica_, opusculos criticos, afora artigos. Dava-se bem com a paisagem
que o cercava, e, sorria, benevolo, sempre que perguntava e ouvia a
historia do Templario. Os camponeses interrogados  que o no
indulgenciavam pela transigencia com o execrado cavalleiro. E, 
puridade, aventavam suspeitas:

--Que o representante de D. Alvaro parecia seguir-lhe as pisadas; que
no era facil fugir s leis do sangue; que na Villa-Feia tudo se
deformava, os homens como as arvores...

E discutiam as figuras que pernoitavam no velho casaro senhorial.

Maria Peregrina tinha dito a Nuno que ia ser hospeda delle, quando este
falou em ir para Entre-os-Rios.

Nuno, corts, agradeceu a visita e acceitou-a. Intimamente aborreceu-a.

Convidra o _Vagabundo_ para o acompanhar. Queria mostrar-lhe aquellas
sombras. No sabia porque impressionava-o bem a convivencia daquelle
desequilibrado, que alternava com elle grossarias e carinhos, que ora o
abordava com humildades de rafeiro, ora o perseguia, desdenhando da sua
Arte e nobreza, dos seus privilegios de singular.

Maria Peregrina era a mulher absorvente que, apesar de tudo, receava,
com quem no queria intimidades.

Era preciso attend-la. Era uma creatura excepcional. Mas, por isso
mesmo, horrorizava-o o excessivo carinho que lhe notava. Admirava-a como
mulher, mas temia-a. Era uma sensual que tinha percorrido a gamma do
mais extravagante teclado da vida. Quereria porventura matar um novo
capricho? E elle que s usava creaturas inferiores, que percorria altas
horas os becos mais suspeitos a recrutar mulheres de acaso, como se
haveria deante da mulher invulgar?!

Ah, se encontrasse pelos prostibulos mulheres daquellas formas!

Mas ter relaes sensuaes com ella, uma intellectual, que havia de estar
a ver, a frio, as suas atitudes de animal enfraquecido, cahindo, segundo
o costume, na hysteria, que  a carne entregue a si propria, a
velocidade adquirida do prazer a derivar na loucura!

Isto, se a commoo lhe deixasse ver nella a _mulher_!

E, muito triste com a ida da Artista, ia contando os dias, num horror de
frade que treme da primeira tenso da carne.

Ah! elle era bem culpado, pensava. Podia ser como toda a gente. Se se
deixasse de requintes no temeria mulher alguma. Mas degenerra-se.

Exigia sempre nas relaes uma certa liturgia; dahi o seu pessimismo
litterario, o pessimismo em tudo.

E, involuntariamente, lembrava as palavras de Lichtenberger:

O pessimista  um degenerado, um doente que deve curar-se ou partir,
mas que no tem o direito de empeonhar a existencia dos sos, de
desmoralizar os potentes, de calumniar a vida.

Como sentia aquellas verdades!

Era assim... Claro que tambem Peregrina era uma doente; mas por isso
mesmo lhe no perdoaria. Demais, o seu horror por ella ferir-lhe-ia o
amor proprio.

--A doena odeia a doena. O que ns procuramos nos outros so as
qualidades que no temos, pensava Nuno.

Por isso elle era um forte, entre uma seara de mulheres, castanholando
modas e vendendo alegrias.

Mas, na Villa-Feia, com Maria Peregrina a trocar beijos e impresses de
Arte--que horror!

E era fatal a sua ida. Equivoca situao! J tinha percebido que ella o
desejava.




Por sua vez Peregrina, enthusiasmada, nem parecia a mesma.

--Tu lembras a antiga alumna de Petersfield, dizia Violet.

E vendo-a cuidadosa com as _toilettes_:

--J percebi, vaes noivar...

--Talvez, disse Maria Peregrina, rindo; no sei. Os programmas nunca
antecipam muito os meus desvarios. Geralmente vico sem elles. A
surpresa , afinal, o melhor da vida. Irei ver como as arvores da
Villa-Feia me recebem. Corre que o antigo Pao tem a fortuna de afeiar o
que  bello e engrandecer o que  humilde...

      *      *      *      *      *

Passados dias partiram os dois, Nuno e Peregrina, os creados do
Palacio-Fz e Jacob.

Nuno esteve inquieto at  hora da partida; esperava Ruy.

Esperou debalde: minutos antes da sahida, recebeu carta delle,
explicando a falta com o motivo de ter de seguir nesse dia  tarde para
Villa Alva. Era-lhe impossivel ir a Villa-Feia, informava. Esperaria
Nuno em Lisboa.

Nevogilde, contrariado, entrou para a carruagem.

Ficaram em Lisboa Violet, Salom, e Jos de Andrada.


XII

Decorreu um ms sem que ao palacete da rua do Alecrim chegasse qualquer
noticia de Villa-Feia.

Salom partiu para o Mosteiro, a pretexto de visitar as propriedades e
passar ali algum tempo.

Jos de Andrada recolheu  cama myelitico, dias depois da sahida da
Artista.

Violet,  vontade, senhora da casa, deu-se a receber aos sabbados a
velha colleco de hospedes, e mais assiduamente Manuel Brito de Miraz,
da _Folha da Noite_, continuador do publicista das _Horas Trpes_. Em
breve tempo se entenderam intimamente, o chronista e a inglesa. A
fatalidade fez amante de Violet o mais crapuloso do bando que passeava
os sales de Maria Peregrina. Horas tardas, se o chronista no
apparecia, sahia ella a visitar os bairros suspeitos, trocando-o por
fadistas.

Um dia chegou Peregrina, sem prevenir.

Violet correu a abra-la, e a saber da villegiatura em Villa-Feia.
Achava Peregrina cansada, mas alegre.

--Ento, muito conciliada com o sexo feio? perguntou. Era certo que Nuno
podia excluir-se da designao do seu sexo--pois que no era feio; e ria
para a Artista, que a ouvia serena.

-- verdade, disse por fim, estive bem.

Nuno resume hoje para mim tudo! E eu a correr mundo  procura de
_alguem_. Achei, sabes? A minha selvajaria amedronta-o, perturba-o;  um
animalsinho, lindo de formas e docilidades, a submeter-se-me, a gostar
dolorosamente os meus maus tratos, porque o maltrato, e a entregar-me,
assustado, o corpo de raa, que veste naquellas horas uma alma de mulher
e de lacaio. Ah! sei, afinal, o que  o amor...

Mas no sei porque lembro-me de que no pode durar a nossa felicidade...
E por c?

--O peor, informou a inglesa. Salom foi quasi logo depois da tua
partida para o Minho a tratar de negocios que me pareceram pretexto para
sahir.

O monsenhor est no quarto, impossibilitado de andar, inutilizado por
toda a vida, segundo o medico.

--Uma noticia triste--a do padre, disse Peregrina. A de Salom nem vale
discuti-la; chegou-lhe a nostalgia do Minho. Foi folgar as cirandas do
Mosteiro, contar a differena que vae desta  sua aldeia.

Mas o padre, coitado! Vamos v-lo.

E subiram as duas at aos aposentos do doente.

--Ento que tem, monsenhor? perguntou Peregrina da porta.

E, depois, correndo para elle a abra-lo, enxugando-lhe, commovida, as
lagrimas:

--No se excite, ha de melhorar...

--No melhoro, minha senhora. Os milagres nunca desmentem a razo. O que
fazem  escond-la, s vezes. Ora a razo contribuiu-me
irremissivelmente com uma doena incuravel. Eu devia adivinh-la. T-la
como fatal derivao da minha vida.

Tenho o mal dos que passaram a vida a vibratilizar os nervos.

Ainda na orao e no culto vivi uma tolerancia que escandalizou os meus
superiores. Como no havia de ser tolerante para os peccados alheios, se
sabia, por experiencia, o que era o inferno e a penitencia de
soffre-los.

Emfim, aqui tem V. Ex. o mais acabado exemplar de miseria que podia
recorrer  generosidade da sua nobre estirpe, a pedir a esmola dum
quarto e dum talher.

Sou o _index_ de faltas e excessos. Se algum dia escrever o romance da
sua vida,--e creio que ter assumpto,--peo-lhe que se no esquea de
associar  sua peregrinao de mulher nobre, to nobre que tem nos
escudos symbolos de duas nacionalidades, a tragedia simples dum padre
que batalhou deveres e nervos para vir acabar, miseravel, entre
grandezas--as que V. Ex. quiz repartir com elle. Pois que est em moda
o romance social, no deixaria de representar bem o clero de duas
Potencias historicas a desfazerem-se...

Maria Peregrina e Violet commoveram-se. A confisso daquelle homem,
precocemente velho, a trasbordar amarguras, veiu aguar o enthusiasmo da
Artista, que pensava encontrar nos amores de Nuno uma nova epocha. Quem
 feliz ou imagina s-lo quer ver em tudo felicidades. E maga-se se os
fados lhas desmentem. Mal encontrava palavras a consolar Andrada.

E vingava-se, prodigalizando-lhe cuidados, andando em volta delle a
adivinhar-lhe os desejos.

--Quero tornar-lhe superfluos os movimentos, dizia.

Ha de ver:--quando pudr mover-se dispensar-se- de faz-lo. Ter a
vontade confortada de preguia, com pouca vocao para ordenar lidas.

E abraava-o, carinhosamente, enquanto Andrada lhe beijava as mos a
chorar.

      *      *      *      *      *

--Vou a casa de Nuno, disse ella a Violet, no segundo dia depois da
chegada.

Estou surprehendida com o socego delle.  de admirar que no tenha
vindo. Est a abeberar os excessos de amor que trouxe da Villa-Feia.

Nuno recebia aquellas caricias duma sensualidade selvagem, medroso, de
olhos baixos, humilde.

-- um exame de consciencia que naturalmente est a fazer. Tem medo de
que no saiba dar-lhe impresses novas. Como  creana em amores. Mas
vou educ-lo. Hei de pagar com usura os seus encantos de novio. V,
Violet, manda preparar o carro.

Um quarto de hora depois chegava ao palacete-Foz.

Nuno estava no quarto que communicava com o gabinete.  hora do correio
entrou o mordomo, segundo o costume; e, depois de entregar a
correspondencia, informou que havia meia hora que Maria Peregrina
esperava no salo.

--Ah! disse Nuno, admirado, porque no mandaste entrar?

E depois:

--Mas, no; como te no tinha prevenido... Olha, quando vier manda logo
subir.

Mas no, depois falaremos cerca das visitas. Convida-a a entrar. J!...

E, confuso, levantou-se quando lhe presentiu os passos.

Peregrina entrou, encarou-o a distancia, e, depois de curto exame, foi
beij-lo nas palpebras. Comeou a cofiar-lhe o cabello, duma negrura
luzente; ora o abraava, ora o repellia...

--Ento no recebes antes desta hora? Nem a mim que sou senhora dos teus
nervos e posso subjugar-te num momento! Anda c, deixa morder a tua
boca!  um fructo de desejo...

E mordia-a suavemente.

Depois, afastando-se:

--Vae buscar aquella pelle de urso. Cobre o escudo dessa alcatifa.
Extranha ida--brasonar tapetes! Que os outros pisem os nossos brases
v, mas ns! Deita-te aqui, minha creana.

E desabotoando o vestido cr de hortensia:

--Faze o mesmo que estou fazendo! Despe-te! J!... V como as sedas da
pelle do urso se levantam. E olha que so dum urso do plo!

Nada resiste ao genio sensual!

E, de repente, enlaou-o pela cintura, fazendo-o tombar, passivo e
tremente, sobre a pelle branca.

A physionomia de Peregrina espectrava a alegria selvagem da louca, que,
numa ancia de luxuria, se preparasse para devorar o amante, depois de
esfarrap-lo.

A expresso de Nuno era de dor acceite. Lembrava um religioso a
deixar-se maltratar, sorrindo aos cilicios, crente num ceu a apparecer!

De subito ergueu-se sobre o corpo de cobra da amante, e, num momento,
desmanchou-o uma extranha furia; cahiu em coma, voltou a soffrer,
sereno, o martyrio daquella mulher, cilicio de amor, simultaneamente
divina e infernal, sagrada pelas frmas e demoniaca no capricho das
perverses! At que cresceu, de novo, em tempestade; e, sobreexcitado,
inconsciente, sacudiu-se em crise hysterica, e impelliu Peregrina, que
tombou, exnime, ao longo da alcatifa...


XIII

--Quem ? perguntou a Poetisa, ouvindo a porta do gabinete, e
suspendendo a escripta duma folha de papel que levava em meio. No
recebo a esta hora.

--Est l fra, informou Jacob, o sr. Miraz que pede para entrar;
promette demorar pouco.

--Bem, disse Peregrina, aborrecida, manda subir.

Miraz chegou, muito desmanchado, cumprimentou, abrindo a boca num riso
enigmatico e sujo, e sentou-se, cruzando as pernas.

--Que deseja? perguntou ella.

--Venho propor a V. Ex. um negocio.

 um negocio que no deve parecer-lhe pesado. Entro nelle sem rodeios,
pois que V. Ex. conhece o mundo, sabe o que  a vida.

Quando a necessidade entra pela porta, diz o proloquio, sae a virtude
pela janella. Eu creio que nunca tive virtude para baldear da janella. O
que tenho so miserias.

Mas estou de posse dum manuscripto que vale dinheiro. E digo que vale,
pois que fui ver por quanto um editor o pagava. Offereceu-me vinte
libras. Para editor  bastante; mas para V. Ex. vale mais.

Eu preciso dum conto de ris. A V. Ex. no lhe faz differena esta
quantia e a mim aproveita-me.  uma somma salvadora. Ver que jmais
comprou socego por tal preo...

--Mas de que se trata?

--A publicao vae intitular-se--_Sapho em Lisboa_. Insere episodios que
V. Ex. especialmente conhece, documentados com uma carta do ministro
ingls.

E desdobrando um rlo de papeis:

--Leia V. Ex.:--confio-lhe os manuscriptos, na minha presena.

Ella tomou o mao, muito serena. Leu a primeira folha:--era a carta de
Broock, despedindo-a de casa. Viu algumas paginas com vagar.

--Onde e como obteve esta carta? perguntou depois.

--Permitta-me que no responda j.

 segredo. Posso vend-lo tambem, mas caro, pois que interessa terceira
pessoa.

--Esse segredo escuso de pagar-lho, replicou ella.

E continuou a ler. Passou algumas paginas e de repente disse, fitando-o:

-- uma historia incompleta, pessimamente feita. No me perturba a ida
de ver praceados os meus delictos. Mas a historia ha de apparecer mais
tarde, honestamente documentada e escripta.

Isto, accrescentou,  uma torpeza idiota. Vale, como documento para v.,
bem mais do que para mim.  um caso simples de _chantage_ a illustrar a
vida dum jornalista de terceiras paginas, tambem _souteneur_ e ladro!
Est bem na _Folha_, enquanto no houver casas de recluso bastantes...

--Pode V. Ex. pensar e dizer o que quizer. O que no quero 
demorar-me; preciso de saber se tenho de contratar o manuscripto com o
editor...

--Demais, estupido... Ento imaginava que eu, de posse desta carta, que
 minha, lha daria sob qualquer ameaa ou violencia?

E, destacando-a, atirou-lhe com as tiras sujas do manuscripto, premindo
o boto da campainha.

Miraz levantou-se, derrubou um pequeno movel que o separava de Peregrina
e cresceu para ella, que amarfanhou a carta, preparando-se para
defend-la, e encarando-o num misto de arrogancia e nojo.

Elle deitou-lhe as mos aos pulsos e ia a torcer-lhos, quando se abriu a
porta e entrou o creado, surpreso.

--Pe l fra este velhaco! ordenou Peregrina.

Immediatamente o creado agarrou o chronista pela golla do casaco,
arrastando-o ao primeiro patamar e fazendo-o rolar sobre a passadeira
at  porta.

--No o maltrates, avisou Peregrina, do gabinete.

Era ao tempo em que elle, j da porta, confundido com o tapete, bolsava
para o alto os peores adjectivos da _Folha_.

Mas, sentindo o creado, sahiu rapido, tapando com as mos grossas os
rasges do fato, esfrangalhado.

Peregrina mandou chamar Violet.

Ella entrou, confusa.

--Vejo que dste pela scena. Leio-te na cr o delicto...

E mostrando a carta de Broock:

--Quanto recebias do conto de ris que elle queria por esta carta?
Devias ter a melhor parte...

--Perda-me. No lha dei, roubou-ma, num dia que veiu ahi ficar.  um
miseravel. Pois que me faltava aqui? Dinheiro?!

Elle sim, era precisado. Imagina que o satisfazia ir ao Tavares commigo,
cear. S tinha comido l seis vezes, confessou. Que miseravel! E sujo!

Oh! perda-me Peregrina. No sei que loucura foi a minha. Estive a
conversar demoradamente cerca de ti. Contei-lhe, de boa f, a historia
da tua vida. Mostrei-lhe a carta. E elle, o miseravel, roubou-a quando
sahi do quarto,  mistura com uma trancelim de platina e umas notas de
banco que tinha na mesma boceta. Perda-me!

--Perdo. Contudo, no podes continuar aqui.

O que succedeu foi uma fatalidade, mas eu dou por toda a indicao! Irs
abraar os teus. Tambem vou sahir de Lisboa, desta villa, com pretenes
a terra civilizada e que s tem de civilizao o peor:--alfobres de
litteratos--genero-Miraz, gafos de toda a ordem, a especular escandalos.

Vaes para Londres. Eu vou escolher um ponto retirado,  beira mar,
esquecer-me...

Na mesma tarde conversava Nuno com a Poetisa, acerca dos episodios do
dia. E combinavam ir os dois passar o outomno  Figueira, a viver o
socego da praia,  hora em que os banhistas retiravam.

Nuno demoraria em Lisboa quinze ou vinte dias, a liquidar negocios.
Maria Peregrina partia immediatamente.


XIV

--Porque s tu to esquivo aos meus affectos, depois da convivencia que
temos tido? perguntava Nuno a Ruy, sentados ambos num banco de azulejo
arabe, no parque do Palacete-Fz.

Vs a incondicional devoo que tenho por ti, como sei ouvir os teus
casos...

Senti o prazer amargo das tuas confidencias:--os amores innocentes com
Paulina, aos treze annos; e as luxurias de dois annos de collegio com
escolasticos anemicos. Viste a cordura com que ouvi tudo--sonhos e
miserias adolescentes. Estimo-te como o destino te engendrou. Que
preveno , pois, a tua contra mim? A cada momento sinto que me
repelles...

--Sim, disse o _Vagabundo_, separa-nos a raa. Attribuo as mais das
batalhas intimas aos fios de sangue nobre que me laivam o temperamento.
Vejo mal as figuras de privilegio; como j te disse, s vivo os affectos
que me no melindram. No sei o que vale a amizade. Dou pelo interesse
extranho, e raramente por uma ou outra figura de Belleza humilde.
Propriamente culto no tenho por ninguem.

Nem sei porque, seduz-me o teu espirito, mas vexa-me o teu affecto.  um
caso de sensibilidade que no apercebo bem. Mas no falemos nisso.
Conta-me os teus delirios com Peregrina.

--Sei l o que hei de contar:--amarguras. Tambem nos afastam razes
intimas. Deante della, sinto-me abdicar de mim. Sou uma fora que o seu
amor explora. Goso e soffro segundo o seu capricho. D-me um amor que me
faz ganhar a eminencia de sensualidades supremas, e me despenha, cgo,
s minhas fraquezas, onde tropeo com nervos e hysterias. Ainda bem que
partiu. O mdo que me causava!

Vou escrever-lhe a denunciar-lhe este mdo e o proposito de jmais a
encontrar. De-me a desilluso que vae sentir. Mas, deixemos isso...

Agora sou eu quem relega o assumpto que deste.

Canta alguma coisa; quero ouvir-te o _Fado triste_...

--V l, disse o Vagabundo, tangendo a guitarra que levantra da extrema
do banco.

E interrogando-se:

--Que lettra ha de ser? Ser uma velha _Cantiga_, a ultima que me ouviu
Paulina, em Villa Alva.

E, desviando os olhos de Nuno para os espalhar, num alm de
reminiscencias, cantou em voz branda, os treze versos:


      Senhora, partem to tristes
      Meus olhos por vs, meu bem,
      Que nunca to tristes vistes
      Outros nenhuns por ninguem!
      To tristes, to sadosos,
      To doentes da partida
      To canados, to chorosos;
      Da morte mais desejosos,
      Cem mil vezes que da vida!
      Partem to tristes os tristes,
      To fra d'esperar bem
      Que nunca to tristes vistes
      Outros nenhuns por ninguem![1]


Nuno fixava, perturbado, o _Vagabundo_.

--Vaes deixar-me abraar-te, disse quando elle acabou.

--No, contrariou Ruy, esquivo e j de p, entornando o olhar verde pela
folhada mysteriosa do arvoredo...

 tarde, vou sahir.

--Espera um pouco.

E, dando por detonaes, longe:

--Que ? Ouo barulho...

--Deve ser o desabar dum regimen, informou o _Vagabundo_. J vs que no
perdia o tempo enquanto conspirava pelas alfurjas, no segredo e abrao
dos meus irmos de crime.

--Ah! ento conspiravas com essas figuras de patibulo com que s vezes
te via, s noites, pela rua? Tenho prazer com a confisso. No sabia que
um artista, como s, podia tropear em coisas politicas, e suspeitava
das tuas companhias. Pensava coisas peores...

O odio que me causavas quando te via encarar esses homens esguios,
alvacentos, de torso recurvo, que o vicio planta nas esquinas, como
postes de infamia, electrizando, vendendo-se  nevrose dos que passam...

Num dia em que o teu olhar se misturou no riso duma figura assim, senti
gelar a alma, todos os sentimentos, no riso que te desafiou. Confundi-te
com a larva que me pareceu essa figura...

Afinal, no podia ser; tu no podias dar-te quelles farrapos.

Mas intrigava-me, profundamente, o mysterio que encobria os teus seres.

Em que passavas o tempo? Era o que me perguntava em vo. Como havia de
suppor-te a conspirar! Tu a urdires a desgraa dum regimen!

Vem c, minha creana. Deixa l os regimens. Elles so o que valem; e
valem os povos que inculcam.

Os povos so como as mulheres feias; culpam os espelhos que lhes
reproduzem a hediondez!

Alegra-te aquelle barulhar de cobia? No  um systema que tomba.  o
desabar das monarchias do Ocidente, dos povos que ellas inculcam, das
tradies que resumem.

Mas que vale uma tal quda, se a Arte e os artistas ficam! No teem
patria as grandes memorias...

Ainda te entretens com a cabala publica? Para que? Qualquer quota de
esforo que lhe ds te deminue. Comicios, revolues, conjuras, que 
isso? Que valem, que entravam?

Nada. Uma nao moribunda a _fazer_ phrases...

Coincidencia curiosa:--sonhei esta noite que tinha ido ao Pao das
Crtes, que no servia j o actual regimen, mas um outro.

Entrei. Havia deputados e senadores, escolhidos dentre a primeira gente
e a ultima corja da nao--dispostos atabalhoadamente, pela sala, em
_Carrara_, granito e gesso. Vi-me afflicto entre aquellas figuras de
museu politico, que mal conhecia, com quem no queria privar.

A um canto barafustava um velho a elegia do Passado. Era uma figura
moldada pelo tempo em granito e gesso.

Subito, vi mexer o busto do Propheta, que estava ao centro do
salo,--nariz em bico de aguia, testa alta, repas finas e ralas. Jorrou
dos olhos redondos de mocho velho duas columnas obliquas de negrura,
desfranziu a boca de satyro, e falou assim:

--Nacionalidades! Patrias! mentiras de poetas...

Heroes so poetas de mentiras!

Systema latente  trapaa a chocar.

Videntes so loucos a sonhar, cegos vendendo luz!

A Vida  o que cada um quer. S a Arte vale, a Arte, o fio-mestre da
Vida!

Nacionalidades! Patrias!--mentiras de Poetas. Portugal!
Hespanha!--Versos, trastes velhos!

--No achas curiosa, Ruy, a coincidencia? E como no fundo o sonho 
verdadeiro?

Sabes o que vae ficar, provisoriamente? Quem vae governar?

No sabes. Vae ser um arremdo do Gro-Lama.

No conheces, nem imaginas quem seja?

Vou explicar-te essa figura, j que no ls o Escriptor-santo, em cujas
obras vem retratada.

O Gro-Lama  uma figura que os chineses conceberam perduravel, um homem
eleito Deus por uma casta da China antiga, rodeado de ritos, unces e
virtudes, substituido cautelosamente, secretamente, apenas morto, por
outro, semelhante em parecer; no nosso caso, s-lo- por outro
semelhante em manhas, at que o Destino funda, providencialmente,
embustices e embusteiros, em sacrificio a uma civilizao por vir...

O Gro-Lama do Ocidente ha de ser um litterato que somme a idiotia das
Academias, e tenha a presumpo da viso dos tempos, um misto de
Bandarra e Gongora, prenhe de democracia e lettras.

Se era esta a figura que trabalhavas...

--Sei l para que trabalhava. Sentia necessidade de privar, j te disse,
com os meus eguaes; no se foge s affeies que o Destino impe. A
affeio  do Destino...

O Destino pode ser a Raa. De politica nada sei, nem quero saber. A Raa
mandou-me suppurar na Politica o odio innato, viver na loja secreta a
miseria intima.

Ahi tens a razo da minha solidariedade com as revolues. Sou affim de
todos os que odeiam!

Ha pouco discorrias suspeitas sobre as minhas fraquezas. Exquisitos
reparos! Que direitos podes arrogar-te para discutir-me? Convenho que
repugne a tua Arte a minha predileco pela Belleza humilde, que me
discutas como artista... Mas aventar alto suspeitas, a generalizao das
minhas miserias! Nego-te esse direito!

Em todo o caso, quero dizer-te que, no momento, curo, sobretudo, de
vingar principios, e, no numero das liberdades que batalho, entra a
liberdade do Vicio.  a preveno do doente, que no sabe bem onde os
nervos, a educao e as taras podem arrast-lo...

Adeus, Nuno!

      *      *      *      *      *

No dia seguinte, passeava Nevogilde no gabinete de trabalho.

Parou por momentos deante de um contador, e esteve a afagar um gomil
esguio e depois as curvas puras de dois boies, p-de-pedra, esmaltados
de flores de linho. Volveu a passear a diagonal da sala, e foi junto da
secretria premir o boto da campainha.

Veiu um creado.

--Ainda no chegou o mordomo? perguntou.

--Veiu ha instantes.

--Que apparea, immediatamente, a falar-me.

Minutos depois entrava o mordomo.

--To grande demora? Recommendei-te pressa!

--Ah! sr. Conde, estava a ver que no dava com o paradeiro do sr. Ruy.
Que mais valera no trazer noticia alguma... Sei quanto V. Ex. se
interessava por elle! Coitado...

--Est doente?!

--O sr. Ruy, informou o mordomo, morreu ha poucas horas... Cahiu s
primeiras balas das tropas fieis, junto ao monumento da Restaurao, na
Avenida, entre os revoltosos...


XV

Maria Peregrina, que chegou  Figueira muito fatigada e doente, no
comeo de outubro, foi installar-se na pequena vivenda de Mira-Mar,--
extrema da cidade.

Passou os primeiros dias num torpor de contemplativa de quem mal d pela
vida externa.

O mirante e os alegretes de Mira-Mar eram pontos de vo  sua imaginao
triste para um paiz de bruma, que nem bem sabia onde era, e, a bem
dizer, s existia em si propria.

Esse paiz era ella mesma, nevoenta como o espirito que o crera para si.

De Mira-Mar avistam-se as terras barrentas do Cabo Mondego, morrendo na
agua, o lindo casario da serra, branco e religioso como um systema de
ermidas, bellos poentes, tudo o que o abrao do mar e da serra pode dar
de grande, como expresso de paisagem voluptuosa.

Do Mirante distingue-se, nitida, a linha do Cabo, que lembra as navalhas
recurvadas que usa a gente do norte, e em que o mar figura como uma
lamina, resplandecente de sol, a certas horas.

A Cidade, rica de luz e notas imprevistas,  das que mais convidam a
noviciar amores.

Mas Peregrina, crestada pela vida, muito oxydada de alma, passou os
primeiros dias do outomno recolhida numa rememorao de si propria, que
nem o mar, nem toda a belleza da terra seriam capazes de delir.

Havia uma grande affinidade entre ella e o tempo. Reflectia o outomno na
sua physionomia de sombra, vincada de traos melancholicos, que
signalavam uma belleza de occaso, especie de imagem de marfim antigo,
vivendo o seu crepusculo de idolo abandonado...

Aquella physionomia, talhada em sombra e chamma suave, no era j o
involucro, a mascara; era a mulher toda,--a alma a esbater-se em luz de
outomno.

Na segunda quinzena de outubro fez-se-lhe no espirito alguma trgua.

Sahia, s tardes, a percorrer a praia, embevecida no scenario discreto
da linda terra de pescadores.

Aves marinhas andavam aos bandos, misturando o som rouco da sua voz 
voz da agua inquieta, e esvoaando sobre o mar que parecia uma geleira
arada, muito riscado de fitas brancas, ondas regulares, certas,
espreguiando-se, com volupia, numa luxuria rhythmica.

Quasi toda a adolescencia morena da praia, afrontava nua o mar,
confundindo a sua carne cr de mel com as vagas serenas daquelles restos
de oceano.

E Peregrina, de olhos fitos naquellas formas, batidas pelas ondas, vivia
ento sua belleza em massa, irm em amor dos bronzes que para ali
boiavam doidamente, sentindo na alma aquelle mar, aquelles corpos
humidos e macios, tudo...

Ia ao outro lado numa bateira branca aos areaes de Lavos, muito sensivel
 musica dos remos, espadanados por dois moos fortes.

Tardes cr de graphita.

Era  hora em que as gaivotas, as rlas e as negrelas pem accentos
circumflxos na tarde, limitando a altura, num sob-ceu de asas.

Passava horas nas praias fronteiras  Figueira, esquecendo-se, at se
deixar dominar por aquella belleza de chromo, vivendo as cambiantes do
ceu de outubro, duma belleza intima e serena.

Nuvens cr da terra accrescentavam o Cabo at ao sol, que primeiro se
projectava em amphora de luz, e depois morria numa brasa, a boiar no
mar.

J noite, tomava um remo, ao lado dos moos da bateira, e ahi vinham
todos, muito certos e irmos naquella labuta embaladora, de olhos fitos
no pharolim, que se ergue entre o Mondego e o Oceano--um polyedro verde
que lembra um pedacito de mar-esmeralda, gelado, para nortear noctivagos
da agua.

Nalgumas tardes ia at  explanada, junto do Forte, para sentir a mar
contra a muralha e avistar o recolher do sol.

Passava o tempo a ler as cres em que se dispersava o dia, as
tonalidades roxas que preparam a passagem para a treva.

Marcam a extrema do Cabo o casario da mina e o pharol alado em redoma.

Noite alta, mandava o pensamento em derrota pela agua, e figurava-se a
passear por entre as arcadas da mina ou pelas escarpas do fim da serra.

Vieram as chuvas e as primeiras tempestades.

A Figueira, no vero to cheia de luz, veste de escuro o outomno. Abrem
os dias num ceu de cinza que pouco e pouco melancholiza os campos.

Rompem-se em agua a cada hora nuvens de chumbo, enquanto o vento revlta
a paisagem, arremessando, escramalhando as pedras, a areia e os ramos.

Em tardes de granizo e trovoada, quando os elementos se assanhavam,
Peregrina recolhia ao Mirante a viv-los de perto, emparedando-se ahi
como num biombo de vidro.

A tempestade, aquella agua batida, a disperso electrica do fogo das
trovoadas, davam-lhe impresses que ella casava aos estudos de sua alma
em desarranjo.

E, ento, nostalgica das tardes da Grecia, procurava viver uns trechos
do passado; e, fazendo do Mirante uma rplica do _Templo de Amor_,
mandava vir adolescentes dos mais formosos, fundindo-se com elles numa
tempestade esteril s tempestades de fra.

Juntavam as vozes em orpheo, cantando as modas creadas pela toada
undisona da bahia. Tudo ali condiz:--a voz das aves, o canto rouco da
marinhagem, a surdina do mar.

Mas os arrancos da trovoada abriam clareiras naquella toada de poro,
pois que as creanas a suspendiam a espaos, agoirando castigos.

Os relampagos, que pareciam abrir o vidro em letras chinesas, quebravam
em linhas de fogo contra os bellos corpos de topazio.

Havia sempre na ronda um predilecto com quem Peregrina trocava especiaes
lascivias...

Illuminada pelo fogo duma paixo inconsumivel transfigurava-se, fundindo
a alma em corpos eleitos, que vestia de delirios em disperso de beijos.
Beijos mudos, impressivos como a alma que os mandava, parecendo romper a
seda-lacre dos labios que os praticavam...

No entanto, as dansas continuavam, como um pretexto de enleio daquelles
corpos atarantados, rematados por faces pallidas, esbatidas de penumbra,
de risos brancos e gelados, inculcando o torvelinho a que se entregavam
por mero capricho duma artista louca.

Ia para o mar num yacht oriundo dos estaleiros de Portsmouth. Vivendo na
attraco dos perigos, sahia de preferencia em horas de tempestade,
pondo  prova a coragem dos companheiros, em geral ephebos.

Era em dias em que o mar respira fundo, erguendo-se em violencias de
desejo.

As ondas, que na praia so rolos brancos, morrentes em torvelinhos de
catarata, tomam na barra a expresso aguda de fundos verdes, quebrados,
de garrafa, esfarrapando cambraias.

Seguia o yacht, cr de turqueza, desenhando letras de alphabeto liquido,
mysterioso.

E Peregrina, irm pela alma daquelle tumulto verde, ia afogando
pensamentos no remoinhar de agua em desespero.

O barco, ora arremettia contra as ondas, despedaando-as, ora as subia,
suavemente.

Se subia, era arfante e lento, num rumor de dyspneia que attingia o alto
daquellas cordilheiras de agua. Ao desc-las, quasi cahia de chofre,
sacudindo e batendo os corpos da tripulao extranha.

Cada onda que partia espiralava alto camarinhas de leite que morriam num
veu sem cr.

Nos postos, os da tripulao systematizavam o trabalho aos signaes do
mestre.

E Peregrina da camara roxa de crystal, que simulava na amurada uma
amethysta, ia seguindo e vivendo aquellas violencias, anesthesiando-se
em ondas de som, crente de que uma tal instabilidade a destinra, para o
seu caso, o Deus das almas que lhe pedem esquecimentos.

Animava-se a barra, e havia lugres, escunas, a solicitarem para terra a
interveno da pilotagem.

Peregrina, que conhecia o significado das cres, lia de prompto as
bandeiras alternadas nas barcas, senhoreando-se do programma de
manobras.

Seguia com interesse aquella faina  procura de incidentes, alis
vulgares.

Assistia ao arranco das ondas, despedaando de raiva os troncos de corda
que atavam as barcas aos rebocadores. Interessava-a o espectaculo das
suas refregas.

 ento que a marinhagem se mde com o mar, e amargura suas intimidades,
gosadas em mars suaves...

As ondas empoadas, atravessando as barcas, em doceis de espuma, quebram
dentro os seus abraos. Enquanto estas, escramalhadas, apparecem,
desapparecem, nas differenas da agua, que ainda ha pouco era planicie e
logo se abriu em sulcos de quebrada e montanhas de cordilheira movedia.

Segue a labuta da marinhagem em litigio com o mar.

As tripulaes enxergam ao largo leguas de terra; e, apesar de correrem
perigo de abalroarem, no se vem.

Lanam os do rebocador a nova amarra a cada approximao das barcas; e a
amarra, que fluctua ao acaso um trao de oiro, colleia, desmanchada, as
cristas das ondas que a retorcem, simulando enguli-la.

A meio da faina, passada entre um cyclone de odios e orvalhos
transparentes, ha grita da tripulao. Mas esta desordem  suggesto do
mar.  a voz de quem vive o elemento, syllabando forte, em ondas roucas,
a linguagem da agua.

Afinal, l vingam atar de novo a amarra. Sa o grito aspero da sereia do
vapor, abrindo notas de falsete na tempestade.

E as barcas, uma a uma, l vo transpondo a barra.

Se a tempestade acalma, ceu e mar invertem-se nos tons:--o mar simla
uma caixa azul, em que o ceu branco, fofo de brumas, tampa o espao.

Chega a noite, passando a sombra as figuras tragicas dos maritimos. Aves
longas flecham o espao em traos rectos. Patos bravos, em bandos
negros, como gondolas  ventura, regressam s aguas fundas.

Peregrina regressava ao caes. Era  hora em que os lampies dos molhes
zebravam de luz a ultima agua.

A Artista ia a sahir ao molhe do nascente, junto ao candieiro roxo.

E era ahi, quella luz de alecrim, sob o docel mysterioso do arvoredo,
que despedia os companheiros, recolhendo cedo e s a Mira-Mar.

      *      *      *      *      *

Recebia cartas de Nuno de quando em quando. E escrevia-lhe todos os
dias.

Elle, sem coragem para dizer o seu tormento, mentia por cobardia, e
ainda por amor della.

Contemporizava. Ella, sentindo as sombras da antiga tristeza, curava de
illudir-se, enchendo o tempo com passeios, e ritos de velhos cultos.
Chegaram novas de Lisboa e do Mosteiro.

Helen tinha resvalado ao ultimo degrau da torpeza, fugindo do marido
para ir viver num pateo com a _Manola_, marafona e bebada.

O marido pedira transferencia para uma legao de inferior classe e
sahira penitente das vergonhas da mulher.

A Salom dava-lhe parte do casamento proximo. Resvalra aos braos do
lente Amaro, avido de cevar a sensualidade erudita naquella loira de
carnes brancas e pennugentas, e prompto a embolsar os duzentos contos
que tinham ficado dos Pamplonas, em terras e inscripes.

Maria Peregrina via fugir tudo o que a prendera,  excepo de Nuno.

Mas, ao mesmo tempo que sentia o correr dos dias, via avisinhar-se, cada
vez mais, a antiga melancholia, uma tristeza que mal explicava.

Uma tarde, conduzia pelo brao, segundo o costume, monsenhor Andrada at
o eirado eminente ao mar.

Seguia-os Jacob com duas cadeiras leves, fechadas.

O ataxico movia as coxas com esforo, atirando ao acaso as pernas de
fantoche, dondas como travesseiros de moinha. Sentaram-se os dois, o
padre muito amparado por Peregrina.

--Sabe, disse esta, que escrevi ha duas noites o meu testamento? Posso
morrer breve...

--Suggestes da minha miseria, disse o monsenhor. Eu hospdo metade da
morte. Sou o caixo de metade do que fui. V. Ex. a pensar em morrer,
uma creana! Isso  para os velhos e doentes, como eu.

--Engana-se.  to facil morrer, sobretudo quando temos o culto da
Morte! Entendi que devia empreitar obras posthumas. Vou dizer-lhe a
minha ultima vontade.

E, desdobrando trs folhas de papel azul, leu:

--Eu, Dona Maria Peregrina Alvares de Lorena e Villa-Verde, filha de
Dona Maria de Lorena Eannes de Castro e Villa-Verde e de Dom Antonio
Alvares Muito Nobre Leite Moniz de S, natural do Mosteiro, cidade de
Guimares, resolvi fazer o meu testamento pela forma que segue:

Primeiramente elvo a alma a Deus, sagrado em si e nas minhas
desventuras; foi reflectindo-o, que soube sentir a majestade do
Infortunio. Que ninguem cuide dos meus funeraes; o Acaso os cuidar.

Dos bens de fortuna disponho assim:

Lego o usufructo de cem contos de ris ao antigo prior do Mosteiro,
Monsenhor Jos de Andrada, presentemente em minha companhia.

 sua morte passar este capital para o meu procurador Jos Loureno.

Lego o usufructo de cento e cincoenta contos s minhas antigas
condiscipulas Helen Green, residente na Mouraria, em Lisboa; e a Violet
Ioung, actualmente em Londres.

O capital passar  morte da ultima para a administrao de Petersfield,
Inglaterra, que pelo seu juro crear uma aula de musica com a
designao--Instituto-Edgar, destinado a adolescentes musicos.

Lego cincoenta contos aos creados que me servirem ao tempo da minha
morte, e vinte e cinco contos ao ano teuto Jacob.

Finalmente, instituo minha herdeira a cidade de Coimbra para que liquide
a minha fortuna, resto das maiores casas da Peninsula, e faa construir
uma grandiosa Escola de Arte grega com a designao--Parthenon do
Ocidente, tendo na fachada os symbolos heraldicos de Portugal e
Castella, cujos desvarios e sangue represento.

Haver annualmente premios para os dois adolescentes mais bellos do
Parthenon. Sero eleitos pelo collegio dos alumnos da Cidade. O premio
destinado ao alumno designar-se---Edgar, em homenagem a um antigo
companheiro de Petersfield; o outro chamar-se---Helen, em memoria do
meu antigo culto por Helen Green.

Fao meu testamenteiro a D. Nuno Alvaro de Sousa e Villar, III Conde de
Nevogilde, natural de Traz-os-Montes, escriptor, actualmente em Lisboa,
a quem offereo as minhas obras,  excepo do Poema que vou urdir, e
desejo fique no Archivo do Parthenon. Na sua falta zelar as clausulas
deste testamento a Municipalidade de Coimbra.

(_Segue a approvao, e assignatura das testemunhas e testadora. Foi
rubricado nas tres folhas)._


Quando Maria Peregrina acabou de ler, o padre soluava.

Ella passou-lhe a mo pela cabea encanecida e disse-lhe num sorriso
triste:

--Chora, antecipadamente, a minha morte?

--No: abeno em V. Ex. a mulher sagrada por toda a especie de
tortura.  preciso ter soffrido para subscrever um testamento assim. Sou
insuspeito. Irei adeante para informar o Ceu dos peccados dos
_honestos_, e das virtudes da _relapsa_.  preciso pecar muito para ser
bom... Mas quando tivesse de ficar, no podia receber o que V. Ex. me
lega. Apesar de condemnado segundo a Egreja, considero-me da Egreja. Sou
frade. No infringirei o voto da pobreza.  to facil ser pobre!...

Emfim, uma herana recebo eu, que essa no ma veda nenhuma religio,--os
carinhos que V. Ex. quer protelar alm da morte.

E soluava, abalando a cadeira leve.

Na extrema do eirado, Jacob, de p, firme, numa mudez de esphinge,
fixava o olhar amarelo-metal sobre o collo alto de Peregrina. E dos seus
olhos de azeite, exiguas lampadas de altar-mr, expedia filetes de luz
duma melancholia lubrica e mortia.

O padre e Maria Peregrina conversavam.


XVI

Certa manh lia ella, sob os loureiros, uma lenda escandinava.

Era uma lenda triste e prophetica, como o genio do Norte. O vento
ramalhava as pernadas secas de louro, crepitantes como ralas. A paisagem
era dum roxo delido, melancholica como a lenda, como Peregrina.

Chegou Jacob com a correspondencia. O sol, at ahi hesitante,
desappareceu, mysterioso.

Peregrina encarou a altura. Depois, descendo a vista, pareceu-lhe v-lo
na salva de oiro que Jacob segurava, com as cartas.

--Deixa ver! disse impaciente.

E apartando a de Nuno pela letra:

--Leva o resto.

O ano expressou um rictus novo na physionomia de pergaminho, sublinhou
o olhar de bilis com um riso branco, e sahiu a caminho do alpendre.

Maria Peregrina abriu a carta, sobreexcitada, nervosa. Leu-a, releu-a,
espectrou os mais desencontrados movimentos de alma, e quedou, muda, por
muito tempo, a olhar para as pernadas secas de louro, mysteriosas,
crepitantes...

A carta, dizia:


                                                            Peregrina:


Repugna-me continuar a mentir. No posso mais procurar-te. Beijo as
ultimas palavras da tua carta, que denunciam um amor que jmais alguem
teve por mim. Mas o proprio enthusiasmo desse amor me atemoriza, ao
mesmo tempo que me lisonjeia. Eu sou a contradico de tudo--de mim
mesmo. Acquieso com a razo aos que me querem; mas s amo os que me
desprezam...

Tu comprehendes-me se olhares para dentro de ti, porque,
fundamentalmente, somos eguaes. Cada um de ns  o abysmo de si proprio.

Chamavas-me outro dia, no amor dos maiores delirios, o teu Phaon. Ah!
como eu visto de razes o proceder do desejado da antiga Sapho! De
razes, quero dizer, de fatalidades:--o amor nada tem com a razo.  o
Destino, a loucura.  o Deus e o Demonio que temos em ns, rompendo
livres, indifferentes aos nossos gosos e torturas.  a fatalidade a
entrudar com o sentimento.

Ao despedir-me de ti, no tenho uma palavra de conselho. Nem sequer
insinuo que te consultes a ti propria.

A vida est acima e abaixo dos superiores, noutra esphera. Pois que
somos a essencia della, alando-nos pela Dor, no podemos entreter
esperanas com expedientes. Tratar casos de supersensibilidade com as
cabalas que a vida fornece o mesmo  que utilizar a materia a remediar
queixas da alma, no fundo a aggravar dores insophismaveis.

O mundo tem revolvido tudo. E, contudo, a sua especulao erudita ainda
nem sequer chegou a converter em dogma a Liberdade moral.

Ns, que ha muito conquistamos esporas de oiro na Desgraa,  que
sabemos at onde pode ir a nova sciencia por crear--a Philosophia
sensual.

 que vivemos na consciente e superior ignorancia do que somos. Para
mim, passou o tempo em que acastellava illuses...

Presumo que seja um pouco do que reflicto nos livros--um museu de
bellezas mutiladas. Tu eras irreprehensivelmente perfeita no conjuncto
bizarro das degenerescencias para que me pertencesses e te pertencesse.
E jmais gosei soffrimentos como os que me deste nos teus abraos!

Ah! porque me no matou o delirio das nossas hysterias, quando nos
confundiamos na folhada exotica da Villa-Feia!

Ha pouco me interrogava eu cerca do teu amor, do nosso amor...

Fui ver-me ao espelho. Encontrei a sombra do que fui na adolescencia.

Reconheci o rapaz de ha dezeseis annos, tratado pelo tempo.

Vi ainda nos olhos a negrido da minha antiga virtude atarantada,
imprecisa, a procurar o ceu na continencia, e a sophismar sensualidades
na orao; volvi-me ao tempo em que fitava os idolos com os olhos da
carne, gosando-os com a alma, lubrica de sonho...

Sou o mesmo mysterio sensual, medroso e desequilibrado:--reflicto,
impotente, num mar de desesperos, um mundo de desejos.

Tu soubeste exaltar estes desejos, assaltar-me, de chofre, os nervos,
vibratiz-los...

Mas foi ento que dei por foras intimas, que augmentam os meus receios.
Sei l se ainda tenho nervos  espreita! Que seria de mim?...

Pe na imaginao braseiros de incendio, brancuras e frios de nevada,
asphyxias, essencias de requinte, torturas e suavidades religiosas,
harmonias bizarras de harpas, psalterios e violinos, saltos macabros de
demonios intimos, vises, o Ceu, o Inferno, e ters uma parte do que me
fizeste descobrir quem de mim, da minha fraqueza.

Eis um pouco do que tecia o extranho do nosso viver...

Mas no poderemos mais encontrar-nos!

Perda a sem razo destas linhas na logica duma razo que sinto pelos
effeitos, mas que no apercebo bem:--a tal fatalidade que nos juntou, a
fatalidade que nos afasta.

Adeus, Peregrina! Esquece-me!


                                                                _Nuno_.


Passou uma hora, sem que ella se levantasse.

A manh sangrou uma chuva miuda, por que mal deu, occulta pela ramaria,
abstrahida dos caprichos do tempo, numa contemplao dolorosa.

Veiu um creado lembrar que era a hora de conduzir o monsenhor, que
recolhia do alpendre.

--L vou.

E sahiu a dar o brao a Andrada.

Dahi a momentos caminhavam os dois, collados e oscillantes. A distancia,
mal se extremava o doente.

Symbolizavam as carcassas de dois poderes que o habito juntra, e agora
sommavam fraquezas...

No poente, uma nuvem escorria agua. Do norte, o arco-iris desdobrava as
sete cres. E o povo dizia, sahindo s portas dos casaes:-- Deus que
est de bem comnosco!

E levantando as mos:

--Louvado sejaes, Senhor!

E Maria Peregrina, em blasphemia suave, encarando o arco:

--Deus em alliana com os homens, nesta hora, que ironia!

      *      *      *      *      *

Sahiu de carruagem, demorando cerca duma hora. Ao chegar, o trintanario
desceu do _coup_ varios embrulhos, que levou ao Mirante. Peregrina
conversou por espao de trs quartos de hora com monsenhor Andrada.
Depois abraou-o, commovida.

--S nos veremos tarde, disse, vou escrever...

s quatro horas tomou uma refeio leve, e avisou:

--Que no v alguem interromper-me. Vou trabalhar.


Noite alta, trepava Jacob pelo gradil do nascente, que cerca o Mirante,
ganhando o peitoril da janella, fronteira ao Mondego.

Sobre um pequeno bufete Renascena, pousava um pergaminho mal enrolado,
que pendia at meio da armao boleada.

Jacob, confundido com a noite, cauteloso de que as trepadeiras que
vestiam o Mirante barulhassem a sua presena, quedou, numa estabilidade
de simio mal accommodado, esgarando os olhos  procura de Peregrina.

Ella estava de costas para elle, que a via, mysteriosa, mexer uma
mascara, de applicao desconhecida, vasando ether sobre pastas de
algodo.

Pelas frestas da janella, xadrezada, mal collada ao peitoril, sentia
Jacob o aroma estonteante do liquido extravazando.

Subito, viu-a deixar o contador alto, e recostar-se sobre um canap Joo
V, cujo estofo cr de brasa lhe illuminava a figura marfilenea, vincada
de sombras. Recuperra a antiga compostura fidalga.

Os traos de amargura, que lhe tatuavam a physionomia, no lhe venciam a
raa:--era a mulher fraca, simulando fora. Tinha o aspecto de quem
despreza a vida, cumpria o destino.

A sua figura desbotada, mantinha-se como num tablado, por dar contas a
si propria. Nem vigilias, nem dores haviam conseguido deminui-la.

A artista parecia vigiar a mulher.

Preparava-se para morrer. Mas o instincto, e o habito da Belleza,
velavam a sua figura estatual, suprema de altanaria.

Ondas fluidas, foras aeriformes, enchiam aquelle quadrado de crystal,
em parte opaco pelas folhas das trepadeiras--agora leve como uma asa.
Tudo ali parecia voar...

Ella, diaphana, duma transparencia de viso, segurava numa das mos a
mascara que tinha como que  espera, do mesmo passo que applicava s
narinas brancas compressas humidas de ether.

E a boca, da cr das farripas do algodo, delia-se em risos de
madrugada, expresses de sentimentos sobrenaturaes.

O ether, fluindo livre, parecia vag-la pelo espao; arrebat-la pela
altura.

Mira-Mar era j uma camara alada...

Subito, sentiu um repelo forte na janella estreita do lado do Mondego.
E, a seguir, outro, que lhe partiu a fecharia, escancarando-a.

Uma lufada de vento dispersou, rapida, aquella atmosphera de morte e
sonho. E Maria Peregrina, como voltando dum mundo de nevoa, encarou,
somnambula, o ano, que cavalgava, audaz, o peitoril da janella, com a
cabea rente  ogiva.

--Que fazes? perguntou, numa voz de surdina, que parecia magoar-lhe os
labios de lirio pisado.

--Venho impedir que te mates. Concede-me esse direito.  o direito de
quem abdicou de tudo, desmentiu at hoje a raa, passando de nomada a
escravo muito de vontade.

Eu sei que tens tido amarguras... Ainda esta manh _elle_ tas causou, a
ponto de resolveres esta loucura.

Estamos ss. Deixa-me falar  vontade. Era como exigias que te falasse
quando sophismavas o amor commigo. No  o ano, o rafeiro quem fala. 
a alma que a natureza acobertou num corpo infame; e que, no entanto,
abena a sua forma s porque ella foi alguma vez bem possuida.

Na logica dos teus desejos eu fui o histrio e o tapte. Tudo. At
mulher dos teus amantes!

E ria, num riso de metal.

--Hoje, do mundo s te acceito a ti. Cabe na minha humildade o maior
rancor.

Dizias que vestia animo de lobo em pelle de ovelha. Pouco me importa
hoje que me descubram o animo.

Odeio quasi toda a gente; e, sobretudo, o odiava a _elle_ que,
recebendo-te corpo e alma, te vexava e me vexava, tratando-me como um
farrapo. Como era immundo!

--Cala-te! Vae! Quem te permittiu a entrada? Quem te permittiu que
viesses discutir Nuno?

No te condemno; a tua intelligencia  inteira de maldade...

Acredito o que insinuas--que se serviu de ti! Que mais vae que se
servisse elle ou eu?

A materia  una, percebes? As almas  que so differentes.

Pois que os superiores no encontram as almas que procuram em corpos
bellos vo at vasculhar as dos monstros...

No pudeste comprehend-lo. Foste o demonio, a vibora enroscada, que
elle, o desvairado, tomou por uma flor exotica e quiz colher...

Deixa-me! Se! e apontava-lhe de novo a janella.

--Espera, olha que estive ha poucas horas com elle!

E ria, numa contraco de possesso.

Has de querer novas, vou dar-tas.

Mas, antes, quero contar-te um sonho. Sonhei a noite passada um crime!

A imaginao da noite vestiu-me o somno de delicto. E eu no tomei o
delicto como pesadelo, senti-o como um bem...

Ris-te da exiguidade do meu corpo! Pois no imaginas como  grande o
odio que arrasta! Pois que sou o avesso dos felizes, o animal corrido
pelos sobejos do bem, sinto-me a expiao de extranhos crimes, e  por
horas tardas que o instincto do delicto surde e me embriaga em sonhos de
morte. A noite  a camara escura onde revelo os perfis tragicos das
victimas, que so todos, menos tu!

A noite passada foi _elle_! Estavamos na Villa-Feia. Lembras-te do
eirado que domina o Ribeiro de Cobre? Foi dahi que o vi comtigo,
daquella Eira de Vidro, donde tanta vez espreitei os vossos enleios,
duma luxuria que eu sentia c em cima, esporeado por infernos de ciume.
Vs estaveis sob o docel fresco e branco das magnolias...

--Cala-te! mandou Peregrina.

--Ah! no queres que fale; calarei as novas que te trazia delle...

No acreditas que tenha estado com elle? Affirmo-to, juro-te. Juro? Como
hei de jurar, se no tenho religio alguma!?

Creio que sou o unico assim, em todos os mundos. At o diabo tem a sua,
pois que  proprietario do Inferno, precisa tambem de cabalas para
explorar, negociar almas.

Eu nem inferno tenho!

--Jacob! se sabes alguma coisa de Nuno, dize. Mas no me atormentes.

--Vou ento completar o sonho.

Eu beirava o eirado da Villa-Feia, encostado ao galho, meio podre, meio
florido, dum medronheiro de muitos ps de altura, testemunha dos meus
zelos. Subito, o ramo partiu, e o Destino precipitou-me sobre os dois,
sobre vs. Tu mergulhaste na agua suja do Ribeiro de Cobre que foi
rapida levar-te ao Douro, que no dia seguinte era mais de oiro, correndo
como um grilho immenso para o mar, conduzido por fora mysteriosa.
Horas depois, eras o Mar!

_Elle_ ficou na minha frente, mudo e estupido, como a Innocencia que o
Destino empreita para fazer mal.

Foi ento que, desesperado, o retalhei com uma lamina que recebi do
momento. Quem ma deu? Ninguem...

Talvez fosse prenda do Destino que lhe deu a elle a passividade que te
servia e me despenhava!

Certo  que lhe bebi o sangue, inundei-me delle, sentindo-me afogar...

A vida partia, ia morrer. Phantasiava j um cortejo de velhacos,
conduzindo-me ao cemiterio dos criminosos em Plootzenseel. E eu a
pedir-lhes que me levassem no cofre de bano das tuas joias, aquelle
cofre onde uma vez me meteste, a rir...

E a um gesto della:

--Espera! Depois acordei; foi para cumprir o sonho.

Encara-me bem! Assim...

Os sonhos so avisos do Destino. Esta manh recebi recado para ir
falar-lhe.

Fui. Simulei a antiga passividade.

Aprazamos o novo encontro  beira-mar, junto ao Forte, perto da gruta.
Era ahi que o fidalgo queria ainda usar o farrapo!

Vinha cevar-se, immundamente, no monstro, contratado pela amante para
servir os dois!

Mas enganou-se. Em Villa-Feia, dobrei-me a todo o enxovalho da sua
vileza, porque elle era uma parte de ti propria. Eu era o teu escravo;
servindo-o, servia-te:--entreguei-me.

Mas aqui, depois de despedir-te, de te enganar, commeter a abjeco de
me preferir a ti, que vales um mundo de Belleza! Era muito, era mais do
que tentar a Deus porque era tentar um monstro!

Ah! elle no sabia, os grandes como os infimos no sabem, o enigma que a
fealdade encerra!

--Que fizeste, Jacob? implorou Peregrina. Dize!

--Que fiz?

E encarando-a a rir:

--Cumpri o sonho; adquiri uma lamina com que sondei o corao que te
affligiu e me vexou.

L est na areia! Ficou-me num abrao...

Sinto ainda saudades do sangue que lavei para vir falar-te.

Bello noivado na praia, o do monstro com o fidalgo!

--s a fatalidade! disse Peregrina, correndo a abrir o Mirante. No
podias faltar ao ultimo acto da minha vida.

s a imagem do monstro que fui tanta vez!

A nossa distinco est em que eu puz a indifferena onde lanaste o
odio.

Vejo entre ns o corpo branco de Edgar, tatuado de fios roxo-lirio.
Vejo-o, to lindo! Elle perdoou-me, o Destino  que no...

E, rapida, num passo incerto, sahiu do Mirante, desceu pela azinhaga
guardada de louros que lhe embaraavam o vestido cr de pervinca, e
caminhou ao longo da estrada de Buarcos, que se desdobrava em fita pelo
Cabo, listrando a noite.

Parou; ia errada.

Voltou-se; l estava o pharolim do Forte.

Era ali que o morto quedava, dissera Jacob. At lhe parecia ouvi-lo, de
longe, a cham-la! Estugou o passo; tinha pressa de v-lo, de senti-lo.

Desceu  praia; correu sobre a areia cr de zinco, pintada do luar.

A distancia seguia Jacob, como uma sombra.

Era a madona duma Cathedral a silhuetar um monstro!

Fixou, ainda de longe, o morto. Abrandou o andar, como quem
reconsidera... Depois, foi-se approximando num passo miudo de alvloa
receosa.

Elle estava deitado de costas, membros abandonados, descomposto, numa
nudez de ephebo, morto mysteriosamente  beira da agua.

Os olhos de vidro, salientes do caseado das palpebras, muito abertas,
lembravam os dum santo de capella pobre--contas escuras de camandulas,
despedindo traos rectos de suavidade.

Era serena a sua face livida, irm da luz daquella hora, mal cortando o
luar.

O peito era de seda crua, cr da camisa aberta em sanefa.

Floriam-lhe o seio glabro redondos signaes vermelhos. Cada punhalada era
uma tulipa de sangue.

Peregrina ajoelhou.

A areia phosphoreava luz de sonho, irradiaes de phantastica
pedraria...

Ella esteve a mir-lo com unco de penitente. Curvou-se a procurar os
traos de luz vaga do seu olhar de vidro.

Depois olhou em redor como quem acorda ao ruido de passos que no
espera.

Era o ano que andava  volta delles como um co somnambulo, atado a um
barao imaginario, preso  tulipa semi-liquida que marcava o corao do
morto...

--Que fazes, bandido? perguntou ella. Podes ir! J me no perturbas.
Segue o Destino!

Erra, segundo o espirito dos ces do teu sangue. Apprende como se
transmuda a misso duma raa! Vae dizer aos teus a suavidade das nossas
taras e amarguras. Se o genio teuto as comprehende!...

-- cdo, volveu o monstro, como falando comsigo.

Peregrina voltou a encarar o morto. E, de repente, como batida de
luxuria, comeou a agitar-se num esvoaar de aguia tonteada, envolveu-o
no seu olhar de treva, falou-lhe, sacudiu-o, afagou-o, at que cahiu
sobre elle, mordendo-lhe os labios de camelia pisada, lubricos de
morte...


O mar tinha sobre a madrugada uma rhythmica extranha. Parecia ter
recebido dos rios e das fontes, que xadrezam a prata a paisagem
portuguesa, uma melopeia gemente de melancholias...

As ondas evolucionavam mysteriosamente, encapellando-se ao rhytmo das
proprias queixas. J duas vezes o mar tinha circuitado a renda aquelle
grupo, duma selvajaria suave.

 terceira investida, Maria Peregrina solevou a cabea, numa atitude de
quem trata com o mar como irm.

Era a descendente de heroes, a desafiar novas fainas e conquistas, agora
para alm da terra, para alm do mar...

Era a Artista a medir a morte, superior  terra, maior do que o mar!
Veiu uma onda enorme. Surdiu, ao longe, como um Pegaso, de asas e crinas
crespas, requebrando a sua anca azul travs a praia.

Maria Peregrina, que a viu, levantou-se a esper-la. A agua quebrou
junto dos dois num lago de saphira. Ella impelliu o amante num carinho
de noiva; e esteve um momento a v-lo partir entre um roldo de
cambraias...

Veiu uma segunda onda. Espatulou na areia uma lingua de agua, foi at 
muralha do Fortim, e refluiu, volveu ao mar, chovendo os restos em
orvalho de pureza.

Peregrina, que sentiu a onda abrir-se atraz della como uma concha
liquida, deixou-se impellir, avanou com ella, e foi mergulhar na resaca
da primeira vaga que a esperava com o morto.

E seguiram os dois...



Na areia estava Jacob, fixo como o deus Termo dos campos, numa
serenidade inquietante.

Quando as ondas remoinharam os dois corpos num funil de espumas, a sua
physionomia visajou infernos, como se partisse, interiormente, elasticos
que tivesse a arrepanhar-lhe o caro alvar. Trepou como um gamo a
escarpa do Fortim, arregaou as palpebras, parecendo rebentar os olhos
de azeite, numa tenso de myope que tenta ver, que quer ver...

Fixou a primeira agua, muito attento s flores de neve, hydranjas de
espuma em que as ondas se volveram; depois o mar fundo. Nada! Tinham
desapparecido! Olhou mais, esfregou os olhos, e olhou ainda... Fixou ao
longe o vago liquido daquella massa immensa.

De repente, como quem encontra o que procura, illuminou a physionomia da
sua faceira glabra num sorriso de idiota manso, que se foi abrindo em
riso brando, e mais, e mais, at que lhe distendeu as maxillas, num
gargalhar continuo...

Desceu, vagaroso, as primeiras desegualdades da gruta, depois tombou,
num novello, levantou-se, descreveu a curva de terra, fronteira  linha
de agua; e, a correr, em gargalhar parallelo ao som rouco das ondas,
seguiu o desenho da bahia, a esparsar a loucura em movimento, e sempre a
rir, a rir, num cascalhar pavoroso!



Era manh. Um lenol de nevoa intensa vestia as armas reaes do Forte. O
tempo concedia aos mortos um lucto branco, um lucto parte!

Tudo mudra. O mar, ainda ha pouco azul e branco, fez-se rapido em campo
glauco.

Era uma larga esmeralda de agua. Nem a antiga cr, nem a velha
altanaria!

O ceu, pouco antes zebrado de vermelho e oiro, cres heraldicas de
Castella, cerrou em nuvem de sangue.

S ao longe, para os lados da Grecia, uma nesga de azul delido rompia
suave, como para informar que os Deuses velavam os mortos que haviam de
resurgir com a velha Attica!




O mar toava a mesma musica extranha...

Enquanto, do outro lado, rente ao Fortim, e eminente  escarpa, um moo
marinheiro cantava. Era um maritimo trigueiro, de olhos de velludo e
noite, guardados por pestanas longas, que desciam, mysteriosas, como
gelosias, voz de levada, corpo flexuoso de ephebo da beira-mar, a
reflectir nas linhas a belleza inconsciente dum Povo...

Pleno dia.

E a sua alma dolente, cr dos olhos, a desgarrar, em voz de levada, a
_Cantiga_ triste do vate-fidalgo:


      Commigo me desavim:
      Vejo-me em grande perigo!
      No posso viver commigo,
      Nem posso fugir de mim!
      Antes que este mal tivesse
      Da outra gente fugia:
      Agora j fugiria
      De mim, se de mim podesse!
      Que cabo espero, ou que fim
      Deste cuidado, que sigo
      Pois trago a mim commigo,
      Tamanho imigo de mim.[2]




ADVERTENCIA


_O rlo de pergaminho, meio desdobrado sobre o bufete, em Mira-Mar,
continha, em letra muito bordada, semelhante  dalguns manuscriptos do
seculo XVI, o ultimo canto de Maria Peregrina--Elegia da Morte._




ELEGIA DA MORTE

POEMA RELIGIOSO


Este Poema  o preludio da Morte, annuncia a Libertao!

Pela primeira vez, depois duma travessia longa, accidentada e rude,
venho repousar  sombra do que fui, sonhar alto o mais do que tenho
occultado.

O sentimento,--a minha primeira consciencia,--tem-se gasto no mais
exhaustivo conflicto--um conflicto dolorosissimo entre o instincto
proprio e a mesquinhez alheia.

Houve em mim desequilibrios enormes tendentes a perturbar-me.  que nem
sempre a alma se satisfez com os recursos da materia; o corpo foi
algumas vezes o involucro imperfeito da grande alma que arrastava.

Quantas vezes ella pretendeu subir, ganhar altura, do mesmo passo que o
corpo lhe pautou vos mesquinhos; e, quando lhe deu amplido,--lances
arriscados, triumphos dolorosissimos! Sempre a materia a entravar tudo,
o pso a embaraar o vo.

Eu fui como os zirros que vivem nas fendas dos rochedos. Vivem alto; a
raa impe-lhes vida alta e por isso a natureza lhes deu asas largas e
pernas excessivamente reduzidas. Vam, mas no andam...

Com a seguinte differena contra mim:--o meu ninho f-lo o Acaso c em
baixo. Ainda subi e desdobrei as asas em linhas de boa desenvoltura. Mas
o Destino trouxe-me quasi sempre, misturada com aquelles que teimavam em
ser da minha casta; quando a verdade  que meus semelhantes, affins pela
alma, encontrei poucos. Atravessei a vida _procurando alguem_, uma
figura rara que o Deus dos bons tivesse sorteado em meu favor. Encontrei
figuras talhadas por medida que no era a minha. E ainda hoje no perdo
a Deus que me tenha dado altura excessiva e camaradas infimos.

Permitti-me toda a perverso, se perverso  amar a parte bella da
materia, index da Belleza pura, sem o preconceito de sexos, sem
preconceito algum...

Quizeram que me lavasse na moral de toda a gente, afinal em agua suja;
reagi. Fugi  fraqueza de vencer-me; e, fortalecida pelo instincto,
dei-me ao temperamento. Creei uma vida nova, a vida-conflicto entre as
aspiraes supremas e a bruteza da materia.

Tive de roar por almas que lembravam a lixa grossa. Excepcionalmente
encontrei espiritos brancos em corpos bellos. Os corpos mais brancos e
mais bellos guardam quasi sempre almas mulatas, incaracteristicas,
pessimas.

Vi-me constrangida a amar simples creaes,--as minhas creaes. Na
impossibilidade de amar as creaturas como ellas eram, dei-me a
estim-las taes como as suppunha. Menti a mim propria, por servir a
sensibilidade. Ha mentiras nobilissimas! Mas, em regra, os homens mentem
por espirito de trapaa, de torpeza.

Sou um espirito religioso. A primeira razo da minha f foi a religio
de minha me, que a tradio me transmittiu. Mas ella era um
temperamento puro, suave e bello na accepo simples destes termos.

Eu herdei as taras, as predileces, os requintes de todos os que me
precederam.

Sou uma figura complicada, conseguintemente a minha religio no podia
ser a sua.

Evolui com os nervos, a educao, o temperamento. Descubro-me a todos os
symbolos, pois que tenho para mim que elles se fundem num Deus de
Belleza que comea a surgir, dentre a confuso, aos poetas, aos
artistas.

Creio no Deus de todos os cultos, embora aborrea a liturgia que o
occulta. A alma deu-me um cerimonial differente. No fundo, um cerimonial
de amor, ineffavel...

Alei-me em vicio. Ia comprar quartos de hora daquelle amor s ruelas
onde se vende o Nu, o contacto, onde a intelligencia e o genio da Carne
se expandem na belleza fresca da adolescencia.

Sou um firmamento de perverso.

Os meus vicios estrellam fatalidade,--caminhos de luz pela _treva_
azul...

Luz intima, discorrendo fados de amargura e magia. Duros fados! Excedi a
Nana, a Manon, a propria Sapho,--todas as mulheres sagradas pela
Desgraa!

Fui o genio da Luxuria, parabolando amores...

A sociedade escorraou-me. Quando o meu talento brilhava, ella, de mos
nos olhos, ia vingando a luz que eu derramava, pregoando as
_abominaes_ a que me entregava.

Perversos e estupidos, ouvi:

--Tenho a consciencia de que a vida sensual que tenho reflectido  uma
derivao fatal e religiosa dum poder occulto que me tem dominado e
impellido.

Talvez, por isso, tenha pisado os lupanares com o respeito devido aos
templos...

O prostibulo , tambem, um Templo; a sensualidade uma religio, uma
grande e ineffavel religio, o culto immenso do Amor, para alm dos
ritos, dos mil preconceitos dominantes. Mas, a despeito desta
consciencia do Destino, desta razo de talento e de sangue, sinto-me
vencida, desilludida.

Cancei a imaginao no encalo de creaes precisas  minha razo
sensual de existir.

A sensibilidade de que fui dotada no me permitte que espere o fim de
toda a gente. Debalde o tentei.

Sinto necessidade de viver em outros mundos. A podrido brilhante que me
atormentou a vida vae compensar-me de bens que presinto marcados para
alm desta valla de torpeza _honesta_.

Cumpri; no posso demorar-me: basta de conflictos com o semelhante.

Esta lucta  inacreditavel a quem a no viveu.  o conflicto da ida
pura feita Arte, sensibilidade, sentimento, contra a bruteza do
temperamento medio.

Quantas vezes afoguei commigo miserias, casos exoticos dum capricho
cruel! Embriaguei-me de dor, daquella dor que  volta de mim cachoou
desgraa--um mar de fatalidades, para que ali naufragasse.

Afrontei este mar s braadas. E nesse Atlantico de verdete, absintho de
amarguras, com phosphorescencias tenebrosas me fundi eu toda, alma e
corpo, para batalhar e seguir, louca, ora encapellada contra a penedia
immensa das praias malditas--as que os homens povoam, ora espraiando-me,
numa gaza de mysterio, sobre doirados areaes, suave, ternamente, como um
mar vulgar em horas mansas.

As ondas deste mar foram os meus sentidos:--um infinito de sentidos, os
que se attingem pelo estado sensual...

Alcancei pelo sonho uma vida vallada e circumvallada de sombras.

Fui a somnambula, soffrendo e amando pesadelos que me eram dolorosamente
gratos.

No mar de sensualidade em que me afundei, em que muitas vezes me solvi,
tive horas de sde, duma sde obsessora, horrivel! Era o desejo
inconsumivel, a febre, a chamma eterna duma aspirao de raa condemnada
pela grossaria dos outros.

Chamma eterna, de certo, pois que falo por mim e pelos temperamentos que
no passado choraram em silencio horas que tenho repetido, e pelos
superiores do futuro, figuras talhadas pelo Destino para continuarem a
Dor!

Coisa horrivel  roar o semelhante e proximo!

Entre mim e os desgraados para quem falo, aquelles que entornam as suas
lagrimas no silencio--medeia a minha coragem, um ousio que os passados
no tiveram, que talvez os futuros no tivessem sem este exemplo...

Este mundo, que estimei com amizade amorosa, ousando transform-lo num
mundo affectivo, parece-me,  hora deste inventario, obra posthuma, uma
ilha de ces vadios, malditos, em saldo de contas com os raros que
sahiram a perturbar a sua orchestra de alegrias.

Miseravel exercicio...

A Belleza  una no seu abrao colossal de todo o concebivel e concebido.

E s para ella deve viver-se. Os superiores comeam a sentir aquella
unidade, na fuso das linhas puras, em toda a obra da materia donde ve
o espirito. Venus e Apollo tem um significado conjuncto; so provas de
Belleza que se completam e ajustam numa synthese que o super-sensivel
realiza.

Sensualizar a vida, descobrindo fontes novas de prazer e dor,
transform-la num mundo de alma, tal a faina suprema dos apostolos da
Belleza.

Myopes e inferiores, ouvi!

--A liturgia em que geralmente resumis o appetite genesico chega para a
vossa felicidade, basta aos vossos instinctos, porque a alma vos cabe
dentro dos orgos que vos inculcam o sexo.

Vale uns minutos abjectos o vosso amor...

Ns amamos tudo e sempre. O Amor  para ns a razo unica da Vida.

Por isso Wilde, o condemnado, cantou ternamente o amor dos monstros e
das flores; casou os homens com os habitantes imaginarios dos bosques e
do mar, e expiou na priso o delicto de ter gostado tudo, amando e
cantando a symphonia das linhas, a intelligencia da Carne, a liberdade
da alma!

Quando ser a libertao collectiva? Sei l! Fecho os olhos e perco-me a
memorar a fileira interminavel das victimas. Quando se realizar a
grande paz no Amor? Talvez nunca... E quem sabe?

Wagner, o mais genial revolucionario do mundo, pretendeu fazer do
Universo um canto.

Assombrosa concepo se a completarmos! Exultemos, sobretudo, a
Sensualidade, no mais largo significado, no bem infinito que . Cantar 
amar. O Rhythmo das coisas  a expresso sensual do mundo em vibrao, a
orchestrar, a melodiar o Amor!... Amemos tudo.

Nesta hora de dor agradabilissima, sinto-me inclinada a amar o proprio
odio que inspirei--o odio que me votaram e o desalento que o Destino me
distribuiu em bem da Morte.

Os philosophos serenos so em regra mentirosos.

Contra Maeterlink affirmo que ha uma fatalidade interna que domina e
rege os actos dos homens. A forma suprema da justia  a Bondade. Mas
esta forma, acceite pelo conceito medio dos eleitos, est sujeita aos
entraves, ou causas de erro duma fora inferior a que imprecisamente
chamamos temperamento.

Um dia, na adolescencia, percorria, szinha, um atalho. Senti barulhar a
folhagem num carvalhal murado. Espreitei, e vi, ao abrigo duma lapa, o
ultimo acto duma tragedia unica. Uma creana, que podia ter nove anos,
acabava de matar outra de cinco! Aproximei-me. A criminosa segurava uma
lamina, encarando, attenta, a victima.

--Que fizeste? perguntei.

E ella, serena:

--No sei, ouvi uma voz que disse:--mata a tua irm. E eu, que mro
alm, fui a correr buscar esta faca. No sei se foi Deus quem mandou...
J est morta?

E sorria, espectrando na lamina o Deus suave das creanas...

A victima era um bocado de marfim e oiro, abandonada no cho, entre a
serguilha grossa do vestido, a borbotar do peito alvo cravos de sangue.
A outra parecia uma mulhersinha, de olhar quebrado, bands escuros, face
de cobre e sombras, typo de cigana enlouquecida, duma serenidade
arrepiante junto ao _delicto_ innocente!

--No sei se foi Deus quem mandou... dizia.

Seria, penso. Que Elle s vezes capricha em desnortear os commentadores.
Queria as duas creanas; e, por isso, ensandeceu a mais velha que
despedaou a outra como o faria a uma rosa...

Assim alou as duas. Foram quebrar a monotonia do sagrado mundo,
pintalgar o Ceu de riso e loucura!

Abracei a innocente que pouco depois vestia de afagos um cordeiro branco
que mamava de joelhos, rente  me.

Como comprehendo hoje a fora duma tal voz, que tutela o genio, o crime,
perverses, loucuras...

 a voz da alma a ordenar. No sei se a voz de Deus!

Quando confronto os actos communs da vida com aquelles que me perturbam,
vejo que o meu genio no  uma acuidade da intelligencia-- um mysterio
emocional.

Deus reparte-se pelo genio creador dos artistas, e revive o poderio nas
suas dores.  por elles que accrescenta o Bem, ampliando a geographia do
Ceu com o Mal, ainda contra os da sua Egreja. Mas estas provas produzem
as maiores tempestades da alma. E  facil ainda aos mais fortes
succumbirem.

Eu elevei-me pela Dor. De mim desfiro melancholia, torturas,
suavidades...

A Dor foi a minha Arte e teve um largo apprendizado. Primeiro percorri
os museus, dando-me a reconstituir, segundo o meu genio plastico, as
bellezas mutiladas,--isto para apprender a ler as linhas, coisa mais
difficil do que ler os folios.

Depois apprehendi toda a perfeio, e sensualizei a forma. Fundei em
Athenas o Templo de Amor,--um Pao de Luxuria. Havia ali um tracto
sagrado, a Sala sensual, que me abrigou loucuras suaves, e tempestades
de goso, duma nevrose sacudida e bemdita. Nesta sala, vestida de
crystaes, concavos e convexos, duma asymetria e desarranjo de chos,
gosei dezenas de corpos alvos e morenos, que desenvolviam nus as curvas
das sereias, em danas desvairantes. Tenho no peito o abrao dessas
esculturas enleadas, marmores de innocencia e vicio, corpos sagrados
pela pureza ideal da frma. Se attentava aquella seara de carne, batida
pelo temporal duma sensualidade abenoada, eu era o suo morno que
beijava e confundia os lindos fructos.

Fui a haste exotica, o joio genial que, afrontando a seara, colhi a sua
belleza e fui colhida.

Se alongava a vista ou a quebrava sobre os crystaes, descobria as nossas
almas, ricas de imprevisto apocalyptico, desencontros de grotesco,
curvas complicadas pelo genio do Feio, atrophias, que eram as sombras
dos monstros soberbos que os lindos corpos abrigavam. A minha
sensualidade redobrava, e eu, apertada ao corpo moreno ou branco dum
principe em Belleza, mergulhava o olhar nos espelhos, que nos
espalmavam, engrandeciam, ou afilavam, e vivia aquellas silhuetas e
amava nellas o monstro que era, os monstros que eramos!

Fra, alternavam-se colleces de harpas, violinos, psalterios, e
orphees cantando a Vida.

E os jorros de luz esparsa atravs dos crystaes de cr, esbatendo-se em
manchas de esmeralda, roxo-e-oiro, banhavam de melancholia aquellas
notas, deixando suppor que era a Luz que as cantava!

Gosei soffrendo; soffri gosando. Pratiquei actos que foram alm de mim;
uni-me a corpos de creanas; tive contactos, commercio de sensualidade
com os mais bellos adolescentes.

Fui anjo e fera, mas fera de asas que partia s travessias da Ventura,
sem liames, sem programma, viuva de preconceitos. Troquei pela
intimidade com poucos as devassides, os respeitos, a considerao
vulgar dos chamados homens moraes, seres aleijados pela grossaria do
costume. Mas muita vez o temperamento me chamou a definir-me.

Dahi a predileco pelos dois adolescentes de Petersfield, e a razo do
mais entranhado sentimento de amor por Nuno, essa figura passiva da
minha loucura, que admirei em sua lassido.

Ah! depois das nupcias com o morto de Petersfield e das vigilias com
Helen, ninguem me deu ainda a elevao da Dor-prazer em que elle me
afogou, nos afogamos...

Mas todas as sensaes que me deu eram afinal acasos da sua carne
abenoada.

Approximei-me daquella alma que me pareceu transparente como a agua dum
ribeiro.

Era geada insoluvel, crystal espelhante, mas denso, que contrafez
dolorosamente a minha doce imagem amoral.

Tal qual o que succedeu um dia a um insecto, corpito de esmalte e oiro,
que se esforava por beber os diamantes que trago a calar os dedos...

Nem eu pude solver  fora de amor aquella agua congelada, nem o pobre
insecto, sedento, poude mover as duras joias a que se deixassem beber,
liquefazendo-se.

 que almas assim so como os diamantes; tem a bruteza dura da
Frma-fixa. Solidificaram as primeiras impresses; cortam, sem se
deixarem cortar; so a maldade bella, a estupidez da Plastica!

E  ainda esta sua negao que requinta o culto que lhe voto.

E era a repulsa da sua alma pela minha que lhe quebrava o corpo em
hysterias de goso!

E foram as lubricidades que lhe dei, numa prodigalidade de millionaria
em exotismos, que o afastaram...

Como a alma  grande em capricho! Que mysterioso  o genio da Dor!

E os semelhantes a pretenderem transformar este Valle de Lagrimas em
Valle de Risos, a inventarem palavras, abjeces, religies de Fora, de
Alegria, de mil coisas que so a expresso pretenciosa da sua ignorancia
magoante!

Que geraes as de hoje! Nem obras, nem instinctos!

Vontades de cera, gibbosas de subserviencia, nem a Morte as eleva!

Infimas creaturas!

Almas assim denunciam esteios molles...

E como odeiam o culto da plastica sensual! Se o no percebem...  o
horror dos selvagens pelo Mysterio. Peor do que isso, pois que estes
adoram o que no percebem. Ha na natureza ingenua do barbaro instinctos
de salvaguarda e cautela para a Belleza desconhecida.

 que a Belleza basta-se, por si se impe, ponto  encontrar bondade em
que se esteie.

O que mal pode  deixar de abrir conflicto com a Biblia burguesa,
balizada em dois preceitos: impor ao homem a conquista do po,  mulher
a dos filhos. Uma e outro se juntam, merc de liturgias que enchem
codigos e cartilhas...

Fim primeiro da unio, afinal da Vida--a familia, a junco pelo
casamento de gente em que os chefes escravizam corpos e vontades!

Ah! foi o meu _erro_, rir de taes deveres. No se foge impunemente da
_carreira_.

Como haviam de ver-me bem as mulheres de ventre cheio,--obesas de
divindades, ou fructos de maldio, se eu era o seu avesso?

Ellas deformavam-se pelo goso limitado.

Eu sensualizei toda a Belleza, illustrei a cres novas a Vida,
sacrifiquei a dor vulgar de ser me  dor suprema de crear pela Arte a
segunda alma dos seus fructos.

Podia agitar-me em sofreguides de prazer, collar o corpo franzino a
homens que se alternassem no mister de fecundar, dar  sociedade filhos
em vez dos meus tormentos de Arte. Podia. E, se as creaturas com quem
commerciasse amores tivessem a marca de _maridos_,--a sociedade
receber-me-ia. A sensibilidade imps-me uma liturgia propria. Amei a
esmo. E destes amores sahiram os livros que por ahi correm,--paginas
luxuriantes a reconstituirem horas duma tortura celeste e diabolica.

Livros so filhos. Os meus so-no tambem da Luxuria, duma luxuria
extranha...

Assim a _Nova Sapho_ e, sobretudo, a _Emparedada_.

Estas obras, a que uma _lite_ concedeu foros supremos, fluctuam uma
nevrose que a sociedade odeia.

No fui um pousio. Fecundei  minha maneira. Mas para produzir, crear,
exigi uma liturgia complicada, reflectindo-a ousadamente.

Ingenuos! Ha fructos e fructos.

Que horror a tudo o que  extravagante!

Porque foi Christo enorme?--to grande que projectou a maior sombra
divina que um homem tem projectado!

 que o genio universal o derivou de Maria de Nazareth
sobrenaturalmente, sem a macula do peccado original.

 filho duma virgem da linhagem de David e de muitas religies liadas
pelo genio indico.

S assim podia ser o Homem-Deus--encarnar e representar a Divindade.

Quer dizer, o genio universal, innato, postergou as relaes vulgares
quando quiz filhar alguem que fosse um Principio.

--Sabeis bem quem foi Christo? Foi Aquelle que no mundo soube vestir de
grandeza a Humilhao; o mysterio deste poder  ainda da sua Divindade.

Todas as obras de genio, filhas da excepo, tem de ver-se parte.

Interessae o vosso religiosismo na grande obra de Belleza que annunciei.

Porque as minhas obras so profundamente religiosas. Como todas as obras
definitivas. Ultrapassam-me:--fui o pretexto dum poder que simplesmente
apercebi.

O genio  a intelligencia tocada do sobrenatural.

Fecunda, pois, alm da razo.

Lembro-me do papel da intelligencia quando urdia aquellas obras.

Era a escrava duma fora desvairante que a superentendia e obrigava fra
do sentido commum,  merc dum capricho que era a teia-mestra de tudo...

Assim tambem no desenrolar de intimas paixes.

No sei se poderia recuar, remeter-me ao vulgar, entregando-me  Moral,
como a sociedade a pratica. Creio que no. Mas quando pudesse faz-lo,
no o faria.

E ahi est neste mesmo juizo um trao de tutela extranha, pois que a
sensualidade como a Arte que pratiquei s serviram a marcar-me de
relapsa, _emparedando-me_! Sou para toda a gente a desprezivel Sapho,
alma e corpo de monturo. E isto porque no acceitei o phalansterio
commum, e pratiquei o amor lesbico.

Ora a sociedade no quiz receber-me assim.

Logicamente, o publico condemnou as minhas obras.

Tinha a obrigao de dar talento que no excedesse o estalo perro da
sociedade em que vivia!

O meu prejuizo para o grande numero foi mostrar-me toda, dar-me a ler a
uma sociedade inferior. Entornei a alma nas paginas que teci
dolorosamente, sensualmente.

O publico no sentiu essas paginas, nem sequer as percebeu. Peor para
mim como mulher; mas ascendi como Artista.

Este desacordo  a nossa differena em elogio da minha sensibilidade,
posta  prova em todos os sentidos.

 grande esta differena?

Quanto maior fr, maior sou. Quanto mais afastada estiver da minha
gerao, em geral do meu tempo, mais alta  a minha figura.

Quereis saber ao certo o que vale? Medi o espao que vae da ida mdia 
minha Philosophia de Arte.

Esta Philosophia resalta, clara, dos meus versos--moldura propria duma
sciencia nova que elegeu principios grandes, como sejam,--a bondade, a
sensualidade, a fatalidade do temperamento, a Liberdade da alma dentro
de cada homem, salvo o acordo dos espiritos affins.

O _Contracto social_ de Rousseau, que passa por obra de genio, veiu
afinal, sacrificar a liberdade individual  alma collectiva.

Quero o inverso, o avesso dessa lei: a limitao do poder social pelo
individuo; que os medios e os rudes cedam aos grandes as regalias que
lhes so demasiadas, que no cabem na sua inferioridade.

Porque ha de ser millionario o pobre de alma?  bruteza permitti-lo,
como tambem o  sanccionar as miserias dos superiores, assentir em que
sejam ermos de bens os ricos de Espirito.

Em materia de sensibilidade cada vez me allio mais  minha desventura.
Vivo a ultima hora na admirao e amor do que fui.

E  para que os eleitos vivam ao menos uma hora assim que lhes
predico:--entregae-vos ao instincto, ao temperamento, s taras.

Haveis de soffrer? Claro. Mas o soffrimento  das formas mais
voluptuosas de goso; ponto  que a abnegao e a acuidade o aproveitem.
No tendes mais do que entregar-vos ao acaso. E o acaso  to
intelligente! Tanto quanto o cuidado  estupido!

Inferiores, a vossa felicidade  uma trapaa.

Superiores, acima! Coraes, acima! Dae elasterio  Alma, subi!

Quereis ler um grande livro, o expositor maximo dos grandes preceitos da
unio livre a derivar  fuso no amor? Est em toda a parte.  a
Natureza que interpretaes mal.

Vinde quella janella. Quero ensinar-vos a ler uma grande pagina.

Alm, para l daquelle renque de arvores mais crescidas, est uma planta
brava. Ha de ser enxertada ao morrer do inverno. Nasceu na mata;
transportou-a o capricho de um camponio quelle pomar. Parecia fadada a
dar filhos bravos, fruta desprezivel; pois vae ser fecundada pelo garfo
nobre duma arvore de linhagem (tambem as arvores tem genealogia e foros
fidalgos) e dar em breve tumidos pomos.

Vde aquella roseira, sustentando rosas de tres cres, resultado de
enxertias diversas. Amou e fecundou segundo uma liturgia variada; o
Acaso deu-lhe ainda enxertias que falharam, pois que os garfos exoticos
morreram depois duma justaposio de dias, porventura mais terna e
sensual do que a justaposio fecunda. Bordam o Mondego lindos
laranjaes: ide ver como o homem accrescentou Deus, juntando no mesmo
tronco raas differentes. Ha, por vezes ali, filhos do mesmo abrao,
todos os pomos em que o Divino ps liga de oiro.

E o vento l baloua tudo, laranjas, limes e limas, um phalansterio em
ramos, num contacto que elles, os lindos fructos, aproveitam,
sensualmente.

Ha naquella roseira amores incestuosos. Pois as suas rosas so to
bellas como as das outras roseiras.

Attentae o jardim! Vde como as flores se collam em beijos de lascivia,
quando o vento, animo do tempo, as vaga--como se roam suave ou
tempestuosamente, segundo as mars!

O rosal parece agora, reparae, um mar encapellando-se em ondas sensuaes,
num rhythmo religioso, perfumado...

Se vos alcanou a graa do grande sentido da Belleza, attentae bem nas
flores:--So a essencia em frmas,--o perfume em petalas.

Soberbo espectaculo! Lembram assim o amor das freiras nos conventos,
enlevo das esposas de Deus,--sonhado, fremido por entre incensos e
preces...

Ha naquelle canteiro algumas j fanadas, desfalcadas de petalas, sem
vio.

Vde como procuram o contacto das mais novas, como se activam a explorar
a belleza adolescente dos botes gomosos.

Como a fraqueza da edade as pende a fortalecerem-se de vicio, na
carnao das mais novas! E ellas l se lhe entregam, com enleio e graa,
generosamente, cumprindo a lei maxima--a Lei da Bondade, que  do
instincto. Quem o no entende? A alma grossa dos estupidos, os que
arrancam as papoilas da sera, irados de as ver entre os esmaltes dos
trigaes.

Que lhes importam os grandes bens da Terra--a Cr, a Frma, o
Perfume?... O ridiculo em que me tem, s porque hei cantado a alma do
rochedo, a symphonia da linha, a perverso sensual, fonte da Morte, e,
conseguintemente, o melhor elo da Vida, pois que solda o corpo  terra,
a alma  planta, fundindo o Universo numa confuso sublime!

Pobre terra que d videntes cegos, como Milton, e no d vista quelles
a quem deu olhos. A Vida  a immortalidade pela transformao, religiosa
no seu movimento, sempre patente e actual. Mas considerar parcellas de
vida  no ver; peor--ver mal.

Nada mais fallivel que o mundo dos aspectos. Acceitemos a Vida como ella
--profundamente metaphysica, religiosa. Eu vergo-me ante o facto
positivo do meu genio que o arranjo universal systematizou ao poder, e a
toda a fraqueza creada e por crear. Deus resume a Vida. As minhas
fraquezas, as fraquezas de todos os superiores, so a sua ampliao
infinita... Ninguem pde definir Deus com preciso. Est em tudo, mas s
os raros o sentem, do por si, portanto, por Elle.

Mas, se o vocabulo Deus tem um synonymo, esse synonymo  Amor. Amor
universal, entende-se, sem leis, sem peias, segundo o instincto, 
discrio e diversificao de cada ser.

 claro que este no cabe nos evangelhos, nas cartilhas. O homem de
prazeres restrictos no pode sentir o que de si revela de Universo, de
Infinito...

Este Amor lembra o _Puzzle_, jogo inventado pela nevoenta Inglaterra
para tratar o _spleen_ patricio.

Imaginae um xadrez, em que as pedras se destinam a construces enormes
e cujo arranjo leva dias, mses!

Pois a Vida  um _Puzzle_ de numero colossal de peas, com parte das
quaes s Deus joga.

 ainda Elle quem torna o jogo interminavel, infinito, baralhando,
accrescentando, substituindo as pedras... Tudo passa ao rhythmo do
arranjo universal.

O homem segue, em geral, suave e indifferentemente. S o Artista
desfranze um pouco o cortinado de nevoa que o separa de Deus, para o ver
de longe, ajoelhar  sua inconsciente majestade, buscar alentos  sua
jornada.

Pois que Deus existe nas paginas ingenuas de Bernardes, e nos livros
satanicos e genialmente rebeldes de Annunzio,--curve-nos ante Elle, o
Deus clementissimo, que contrasta almas to apparentemente oppostas.

A ingenuidade luminosa do frade e as paginas luxuriosissimas do
italiano, que creou para uso da alma um maravilhoso novo,--tudo  de
Deus e para Deus, tudo  Deus!

Que ninguem soffreie o temperamento. Ha um crime maior do que o
commetido para com a liberdade do semelhante:  o que commetemos contra
a nossa liberdade.

Dmo-nos ao instincto. S a continencia  delicto. O instincto 
fundamentalmente bom, as leis  que o teem pervertido.

Accusam-me de defender toda a casta de luxuria, de dar nas minhas obras
a resultante mental daquelles defeitos--uma philosophia negativa,
dissolvente, e muito na logica dos meus desejos inconsumiveis.

Que horror o dos meus juizes! No veem que  esta sensibilidade a mais a
fuso de tantos sentimentos, esta synthese amorosa que a minha alma
comprehende, que vem acabar com as distinces inferiores, que
geralmente demarcam os actos da creana, do homem e da mulher!

Segundo a Physiologia pondera no homem a _razo_, na mulher o
_sentimento_, na creana o _sentido_.

E  isto verdade no que importa  apreciao do typo medio.

Como  um facto, que  a edade de transio--a da vida adolescente--a
que pe maior acuidade e interesse no mesmo typo,--o typo medio.

Sou a mulher superior. Por isso mesmo o temperamento me no demarcou
fronteiras. Junto na alma os encantos, dores, vida sensual,
ingenuidades, fraqueza e foras da creana, da mulher, do homem. Como no
apologo das varas, a intelligencia dos dois sexos, considerada em
conjuncto, ultrapassa o valor das parcellas em desencontro.

A minha obra tem tambem a ingenuidade da creana, a acuidade da mulher,
a razo do homem, sobretudo a unco, a grandeza, o vago genial da alma
collectiva. Sou a synthese. Excedo o super-homem, sou a essencia da
propria humanidade, na comprehenso e realizao transcendente do
Espirito Universal, em Deus.

Sou a super-sensivel!

A minha bondade acceita, em p de egualdade, o amor idealista de Santa
Thereza de Jesus--a mystica, os impulsos bestiaes de Caligula e as
ordens alucinadas de Nero, determinando-se em sensualidades, ou
incendiando Roma, para mergulhar a alma sublimemente perversa nas
labaredas duma civilizao a arder.

O instincto  a primeira fora. Depois ha a aspirao vaga, que nos faz
caminhar para o Desconhecido.

Caminhmos. Sigamos a mo distante que nos acena. Dmos por tudo o que
formos encontrando.

Chamam-nos visionaria! Que importa? Que tem sido a humanidade, seno
visionaria!

E como  grande a creatura quando sonha! E como  bella a alma a viver
sentimentos, a visionar!

O que  a Vida nua de chimera?!

So factos o proprio sonho, a chimera...

Creio na vida eterna pelo Amor. O Amor, fundiu em mim--Deus, Perverso,
Desgraa...

O Bem e o Mal deram a figura que sou--um bronze de sentimento. Realizo o
genio sensual da humanidade nevrosada e a vida suave de toda a Belleza
humilde!

Sou Shakespeare e Bandarra:--tenho no peito o cachoar tragico da muita
miseria e altanaria heroica, que o ingls referveu em dramas, que so a
perpetuidade da Dor-genio; e, ao mesmo tempo, a simpleza ingenua da
amargura, delida por uma quasi inconsciencia,--aquelle extranho sentir
dos loucos que tem o sestro de viver alegres as suas e as tragedias dum
povo, os bellos crimes, como as grandes melancholias duma raa!

Sinto a alma amarrotada, amarfanhada! Mas ha almas e almas. Ha-as que
so como a estopa grossa que, quando sujeitas vincam traos grosseiros.

A minha alma,  como a seda e as _moires_ luzentes: amarrotada,
maltratada, tem cambiantes e vincos finos, d traos curvos dum
resplendor desmanchado, a esbaterem-se em sombreados duma belleza
rara...

Tenho na alma a dor latente. O Acaso, fomenta-a por capricho.

Deitei-me a outra noite, triste, sem saber porque. Estava de mal
commigo. Dormi pesadelos. Subito, levantei-me, abri a janella, e vi o
roseiral escuro. Nem uma rosa a alumiar-me! Deus cortou relaes
commigo, pensei, angustiada. Cortou as relaes com todos os homens, e
por isso escureceu as flores, pintou-as cr do castigo, f-las cr da
fuligem.

Corria o tempo, e eu, muda, quieta, somnambula, a fitar as rosas, todas
de seda crepe, e, ainda assim, bellas e cheias de graa no seu desenho
fino e desegual!

Depois, a meio da tortura daquella viso sombria, recobrei-me, pensando
em Deus. E vi que defraudando-me, se castigava. Elle no podia, sem
desfalque da sua divindade, abdicar da Cr:--dar s rosas o tom da
sombra, embora tocado da belleza da noite, podia ser capricho, nunca um
proposito eterno!

Chamei Deus a mim, num esforo ingente de Artista que requer o Elemento
para trabalhar, produzir, crear...

E, desde logo, o sonho se esbateu em claridades. As flores comearam a
colorir--milagre de Deus, da madrugada, do meu olhar!



Deus troca a sua alma com a minha. E sua alma cabe em mim.

Conveno-me de que o lisonjeia a troca--pois a minha abnegao e bondade
no tem a caucion-las immunidade alguma.

Vivo pelo Amor todo o amor, os maiores desalentos, o proprio odio, os
fados desgraados...

A inteno da minha ultima jornada foi duma pureza absoluta.

Elevou-me a iseno; por ella desprezei a Moral. Ser moral  servir a
conveniencia; raramente  ser bom. Collidem quasi sempre a Bondade e a
Moral.

Esta  muitas vezes hypocrisia a reflectir trapaa, iniquidade.

A minha coragem afronta o estabelecido. Moral alguma vale a Bondade!
Ainda que sacrificasse a propria vida infinita, eu no recuaria:--outro
Ceu havia de encontrar.

Protegi um dia os amores de dois mendigos. O meu olhar illuminava
aquellas almas, que se trocavam para alm das suas miserias.

Esbatia seus enleios um resplendor de sol, que espectrava riquezas e
caprichos de tom:--era a minha bemquerena, a Bondade, eu propria,
desfeita em luz a aquecer aquelles amores, banhando-os de goso divino.

Indifferente aos _grandes nadas_ do mundo--os que geralmente enchem as
canseiras dos semelhantes, perturbo-me ao menor symptoma dum grande
soffrimento.

Deus parece ter-se enganado, extravazando em mim toda a melancholia que
devia ter apartada para uma raa.

Extranha figura sou! No meio de tempestades intimas, as mais batidas, a
alma raramente me deu lagrimas; suggeriu-me desalentos. Outro dia
chorei, convulsa, deante de um numero, que ainda lembro cheia de medos.

Foi sobre a indicao de forado (C. 3. 3.) com que Oscar Wilde, o
predestinado da Perverso, assignou as paginas magoadas do _De
Profundis_, escriptas no descano do _hard labour_.

Vi naquelles numeros toda a severidade votada aos degenerados, o
conflicto aberto entre uma sociedade inferior e a sensibilidade
acuradissima dum louco genial.

Tambem eu sou odiada; e, para o grande numero, a Sapho, a larva immunda
que acommete a adolescencia...

No me defendo. Quantas vezes senti em mim a alma da grande lesbia, que
visitava em meus poemas e loucuras a nova Hellada do Ocidente!

E larva tenho sido. Mas larva a evoluir. A chrysallida que sonha asas.
Sinto-as no auge da nevrose. Prendem  carcassa de linhas finas em que o
Destino veiu pousar uma grande alma. Erguem a minha belleza amoral.

Esta Belleza  pouco e  tudo. Por ella subjuguei foras proprias e
extranhas a um s fim:--_sentir_.

Toda a gente odeia a Morte. Porque?

Ella  o supremo bem. O que o vulgo toma por acabamento  passagem para
o Alm... Mas esta passagem smente  consciente para os que na vida
_sentiram_. S elles podem avistar com os olhos da alma, quem da
passagem, o eterno da Vida que segue... Como se adquire esta acuidade?

Desconheo-o em parte.

Mas a atmosphera propria a que se manifeste est na ignorancia das leis
do mundo, no desprezo da Vida.

O estado mais proximo da superioridade-- o _estado sensual_, porque 
elle que superentende, domina a nevrose, dando o maximo de elasterio 
sensibilidade:--, afinal, a Arte latente, a Belleza no estado puro.

Como obtive o _estado sensual_? Dando-me ao infinito de sentidos que
descubro quem e para alm de mim...

Que ninguem tente reprimir a sensibilidade. Entregue-se-lhe. Ha no povo
inculto, como entre os superiores, grandes temperamentos deformados pelo
Preconceito. So aquelles a quem o Acaso repartiu almas que so
preciosissimos instrumentos, que elles desferem mal.

Foi a guerra movida  minha conducta que melhor acurou os meus vicios,
suggeriu a defesa integra dos meus actos, e creou, parallelamente ao meu
nihilismo de sentido, uma Philosophia que prende a uma Liberdade amoral
que vae alm da outra,--a que peja os Codigos, as Biblias...

Sempre que intravazava o odio alheio, reconhecia, aps horas de tortura,
estados novos, de que manavam fontes suaves de riqueza espiritual. s
vezes, sentia eu propria necessidade de concitar esses odios.

Esta attraco exprimia o brao do Bem e do Mal,--o instincto duma
grande misso de Unidade a colligir os recursos do Novo-Mundo da
Belleza. A grande elementao desse mundo no dispensa o Mal. Toda a
creao  dolorosa.

Gosar o soffrimento  acceitar aquella misso. Mas, porque s os maiores
a acceitam, s elles a gosam, exprimindo em Arte o agridoce daquella
dor.

O vulgo mal comprehende a tortura dos eleitos, o que reflecte de
grandeza sobrenatural. E a Sciencia no alcana mais! Que eram os
apostolos quando se deixavam retalhar, a sorrir, de olhos fitos no Alm?

Para o povo eram santos, para a sciencia--loucos. Erro grosseiro  ler a
Dor atravez das lentes escuras que vestem os olhos de tanto myope! Como
falseiam a misso da Belleza!

Loucos os apostolos duma Religio!

Tambem vou ser acoimada de louca! Quantas affinidades com elles ho de
encontrar-me... E talvez, inconscientemente, a Sociedade acerte. O que 
um louco?

 o espelho de melhor ou peor crystal, biselado ou lizo duma alma sem
artificio a viver desvairamentos.  o absoluto em sinceridade--o que ri,
e chora, odeia e ama sem trapaa, indifferente  sociedade que o
espreita, o que despe a alma na praa publica sem caridade por si,
alheio a quem o v.

Na escala da loucura ha os criminosos-loucos, que do  sociedade
pretexto a que ella os enclausure, para melhor os explorar, e ha os
outros, os que ella frecha de infamias, emparedando-os de preconceitos,
dando-lhes a liberdade de sonharem alto, para que possam ouvir-lhes o
sonho, e impedir-lhes que realizem desvairamentos, por vezes geniaes...

So os criminosos, os santos,--todos os reduzidos de entendimento, como
os que o possuem accrescentado duma sensibilidade incomprehensivel. O
mundo ri egualmente da treva dum inferior, como dos supremos
desvairados.

Os inferiores desconhecem a grande parte da verdade eterna que o sonho
contm, que ha, por vezes, na loucura profecias geniaes.

Parece que os loucos sonham, quando adormecidos, actos que a sociedade
toma por feitos de juizo.

Depois ao acordarem abysmam-se do desapontoado dos sonhos...

Exactamente o inverso do que succede ao Vulgo. Este delira no somno os
grandes feitos e delictos. Uns e outros relegam o que sonharam.

Ora o Artista, ou acorde na Obra uma aspirao do Vulgo, ou desvaire
fra do tempo e do espao em que trabalha,  sempre a creatura que vive
na Arte o sonho e sonha na Arte a Vida!

Do louco tem o desvairamento, que lhe distende a sensibilidade at 
abnegao, o alheamento da conveniencia, a fatalidade do temperamento,
agindo livre entre clares e trevas. Sou a Artista-louca, perdida no
cosmorama dos Paizes-Altos da Belleza. No conheceis estes paizes! So
aquelles que o meu genio doente aguarella e o Sentimento repinta e vive.


Deslumbro o entendimento na F sonhada--a nova Attica do Ocidente.

Valho o abrao de dois povos, que se estreitam e vivem as ultimas
loucuras confundindo as almas!

Sou o Ocidente a alar-se.

Como a Grecia attingi o _estado sensual_. Deliro na ante-camara da Morte
o sonho hellenico que vejo para alm...

Triumpho morrendo.

Morrer  simplesmente erguermo-nos. Vou elevar-me, descansar na Altura.

Attingi pela Dor o planalto que me vae ser ponto de vo. Fui a creatura
que o Destino arrancou da pureza humilde dos montes, e que, ao chegar 
civilizao, deslumbrou de torpeza. Aguia nata em ferocidades puras,
quiz o luxo mundano domesticar-me para que eu sommasse  ferocidade
selvagem a hediondez civilizada!

Salvou-me a raa. Vivi o temperamento, as taras, tudo o que era meu, bem
meu, em reaco com os outros.

Raras alegrias me assaltaram. Tinha de ser:--a Alegria jmais fecundou.

Vi chover sobre a minha obra, que era mais do que eu propria, pois que
era eu tocada do sobrenatural, petalas de oiro e lama.

Prospia, bens, armas, brases, tudo revlto, perdido...

Portugal, Hespanha!

As armas, os brases, vs proprios os derrubastes, esquecidos de que
tambem eram vossos, principalmente vossos!

A Historia ha de gelar no corao das creanas, quando os saxes e os
outros, as raas praticas, vierem tentar o Ocidente... Antevejo
conflictos entre as futuras searas de adolescentes, sortidas de pequenos
demonios dourados, sardentos e gulosos dos meus bens.

Deixae-me beijar-vos, oh adolescentes morenos da minha raa,--corpos de
sombra e sonho, pelo vosso triumpho!

Reviver na vossa belleza o meu genio--nos Estados que tereis de crear o
meu sonho!

Eu mesma terarei armas na vossa lucta.

Voltarei, vestida dos vossos corpos de bronze. Sentir-me-eis em vs,
como hoje vos sinto em mim!

Mas s resurge quem morre. Entreguemo-nos ao Deus latente em ns, que
nos d na Morte o summo poder.

Por tudo elle a repartiu, como a signalar que em tudo  latente.

O infinitamente grande leva a sua grandeza divina at vestir o
infinitamente pequeno.

O infinitamente pequeno  Deus procedendo, transformando. A Morte  o
genio divino, tocado da treva, a simular aniquilamento...

 elle a recolher o material disperso, para modelar e animar novos
sonhos.  o esboo de novas formas a apparecer.

Bemdigamos o Deus que somos, o Deus que vive em tudo e  Tudo. Amemos a
Morte, pois que ella , definitivamente, Deus.

 isto loucura? Sei l! Talvez sonho...

Por meu mal, sonho sempre. Batalho s noites com phantasmas. A outra
noite, foi com phantasmas de Belleza. Assisti a uma refeio nova, a
refeio da madrugada, na Villa-Feia.

Jehovah, entendeu-se com os do Olympo e a pedido de Apollo, que me
convidra, quietou o tempo numa luz branco-cinza. Jupiter emprestou
Ganymedes para servir os nectares, o mel, os fructos; Jehovah mandou
seraphins, rosas...

Os convivas eram Nuno, Apollo, Venus, adolescentes morenos de culpa, que
fui resgatar ao inferno catholico; Sebastio, o ephebo-martyr;
Edgar--muito discreto e lindo no seu nu cr de tocha;--Ruy, abraado a
Nuno, a afog-lo no mar de luz do seu olhar velludento, verde de
vicio;--Helen, feita sereia vegetal, erguendo a cabea airosa e loira
dentre petalas de aucena;--finalmente a Hermaphrodita, a Penedia
enorme, que vi espreguiar-se, mover o peito, as coxas de gran, e
levantar-se, suprema, para vir tambem tomar parte na refeio,
penetrar-se da essencia, do olor das rosas.

O nectar era servido em flores de magnolia e peonias...

Comeou a refeio; pedi mel. Veio Ganymedes servi-lo; mediu cem
violetas do oiro-doce para a copa dum lirio que beijou e correu a
trazer-me. Bebi dum trago o lirio-calice da loira resina. Pedi os
fructos, as flores da figueira--figos tumidos de carne-vermelha, coberta
a seda-amethysta; quiz romns, damascos, peros de Deus... Sorvi tudo. De
repente, ao tomar a terceira peonia de nectar, senti-me entontecida,
deliciosa e horrivelmente nauseada!

Era o olor das rosas, a essencia do nectar, dos fructos, daquella Carne
tocada do genio dos divinos oleiros, o perfume das taas,--tudo a
perturbar-me!

Evoquei os Deuses e acordei ao grito da sua voz, que era a voz da minha
queixa! E, acordada, volvi a pedir-lhes que de novo me remetessem ao
sonho, e me asphyxiassem, de vez, pela Imaginao!

Queria morrer imaginando, abrupta ou suavemente, mas do mal-de-sonhar...

      *      *      *      *      *

O pensamento fixo  partir, morrer.

Jmais alguem sentiu, _viveu_ assim a Morte. Esta  a sua Elegia, o
derradeiro e mais soffrido dos meus Poemas.  que sou eu em unio
hypostatica com o Divino Poeta.

No obedece s formas vulgares do verso. Tem as formas espraiadas da
massa da agua em movimento. Resume a forma definitiva da Poesia. Nenhuma
alma soffre medida. Menos podia soffr-la a minha, immensa como o genio
que a distende.

Eu no poderia contar as sensaes intimas da minha tristeza. Quem pode
contar as commoes da labareda? Como havia de sujeitar ao metro o
infinito de melancholia que sinto agora e dar o espectro da
transformao que est a passar-se em mim?

Vou morrer. Nem sinto a dor dos que vo desesperados e sem f, nem a
alegria dos que partem de vez  conquista doutros mundos. Sou a acropole
do sentimento. Acceito a Morte como um bem. Vou provoc-la como
successo logica duma Vida que s pode continuar-se depois da nova
provao.

Esta provao era fatal... Exulto! Matar  transformar. Vou
transformar-me. Quando voltar serei outra.

Saudades, levo-as das tristezas que vivi.

A tristeza, a nevoa de melancholia que enchem esta hora de partida,
do-me a nostalgia do mundo que fui, de muitas batalhas de dor, agora
decididas.

A Dor tem o sestro dos maus filhos; aferra-se profundamente aos coraes
que tortura, e domina-os. Mas ha dores e dores!

Nas passadas vivo a Saudade, nas presentes a Morte! Abeno a Morte que
me conduz  nova Vida. E soffro e goso suavemente esta jornada que para
tantos  maldita...

Morro no outomno. O Destino quiz que fosse com as ultimas esperanas dos
primeiros tuberculosos...

Tisicos, iremos todos! Quero ir cercada das vossas figuras brancas,
puras da doena. Os atalhos ho de mandar flores a acompanhar-nos...

Oh! que lindo cortejo. J as vejo, alm, paramentadas! So
papoilas-sangue, risos petalados de boas-idas.

Iremos j. Tenho ali a mascara que, embebida em Ether, ha de dar-me
passagem para a grande Vida. Comeo a viver a suprema Vida.

No sou j a Emparedada; a sombra immensa que projecto rompeu de vez a
espessura que me occultava do Deus latente em mim, do Deus que sou.

Que cega estava, que surda fui. Como a Terra, o Mar, tudo  differente!

O Mundo, oh que genial mentira! Como o distingo bem, de longe! Eu
propria fui o que elle --Confuso. O que avisto:--palacios de
poderosos, columnados de gelo; choupanas de Luz; coraes de trito em
peitos de sereia; fios de aranha alando a Terra; a Humildade a chorar
sob doceis de granadas; a Humanidade em arestas  merc do vento, a
mergulhar nos pantanos; monstros a florirem amor; e tudo a morrer para
viver, a viver para morrer!

J converso as sereias, os trites, as sombras dos Poetas.
Phosphorescencias da agua--oh que mysterios de luz!

Quantos espiritos novos! So styros estrebuchando amores, na treva; so
genios lendo  luz verde dos pyrilampos a vida dos pinheiraes; so
levadas chorosas da virtude dos homens e da castidade infame das
donzellas;  a onda a trabalhar o granito, a estatuar Belleza;  o vento
a ramalhar oraes, a petalar a agua, a orchestrar a gargalhadas o Hymno
do Desprezo pelas leis da Terra;  a sombra de Wagner, sob o pallio
verde-escuro dos laranjaes a apontar as notas altas dos rouxinoes para
dar a ultima demo ao Hymno de Amor em que vae cantar o Infinito...

So moinhos a moerem bagos de oiro, de que os homens fazem o po
puro--rodas de moinho a beberem agua e a espadanarem leite, o leite que
o ribeiro entorna pelas sementeiras e amamenta o linho, as papoilas, e
os trigaes!

Cada tronco de arvore  uma columna de Vida. Folhas so asas batendo
Amor. Flores so tulipas, botes de luz... Luz de Carne!

Nem o luar de Granada empresta  noite uma luz como a das flores.  uma
luz de opala com cambiantes suaves, luz que reflecte corpos, almas em
sonho.

Ah! agora, sim! J vejo, j palpo e goso as figuras que procurava,--as
minhas creaes!

Sinto o sussurro, a melodia gemente da transfuso do que fui no que vou
ser, no que j sou...

O que ouo  como o murmurio brando de levadas.  Mozart a sonhar... So
as Fontes.

Oh! figuras sagradas, esculpturas de nevoa, abraae-me! Assim...
Fundamo-nos!

Chovam sobre mim petalas de borboleta e asas de rosa. Fui na terra irm
das borboletas, parenta das rosas. Subam at mim columnas de incenso, o
riso vermelho das creanas, as ondas de sensualidade innocente que
encapellam a Terra.

A Artista vae morrer. Distingo o fim da Noite no comeo do Dia...

Ahi vem a Madrugada. Abenoada seja a Noite, me da Madrugada! Bemdito o
eterno Dia!

Aquellas rocadas de algodo, humidas de Ether, so as nuvens que ha
pouco vi passar alm, que tenho ali e posso apertar na minha mo.

Scenarios e scenarios de pureza! O Mar, o Ceu, a Morte tudo  branco,
continuando-se de mim, do meu alvor... Alvor da alma que tudo repassa de
Belleza!

Toda a Belleza permeio, toda a Belleza sou:--a Nuvem, o Mar, a Dor...

Sou o Mar que sbe em cambraias de nevoa, a Nuvem que desce em veu de
madrugadas e perolas de granizo...

Bemdito sejas, oh Deus!

Vou ser o Ether que me sbe  nova Vida!

Sou a Onda, a Nuvem que passa, e se esbate em Nada,--a razo, o inicio
de tudo!

Irmos! vou partir, vou viver! Sou j o Ether, sou a Altura...

FIM




INDICE


      I--MARIA PEREGRINA..........   9
      II..........................  24
      III.........................  48
      IV..........................  55
      V...........................  86
      VI.......................... 101
      VII......................... 112
      VIII........................ 121
      IX.......................... 136
      X........................... 150
      XI.......................... 155
      XII......................... 166
      XIII........................ 172
      XIV......................... 177
      XV.......................... 185
      XVI......................... 199
      ADVERTENCIA................. 219
      ELEGIA DA MORTE............. 221


Acabou de se imprimir na Typographia do Annuario do Brasil, (Almanak
Laemmert) R. D. Manoel, 62--Rio de Janeiro aos 23 de Abril De 1921


    [1] Cancioneiro de Resende, _Cantigua, partindo-se_ de Joo
    Rodrigues Castello-Branco.

    [2] F. de S. Cancioneiro de Resende.


Notas de Transcrio:

1. Foram encontrados diversos erros tipogrficos e gralhas, que foram
devidamente corrigidos. Na lista que se segue apresentamos alguns dos
erros corrigidos.

    Pg.    Original                          Correco
    32      _vinho_ do jardim                 _venho_ do jardim
    48      com _uma_ mao                    com _um_ mao
    67      ponto _cluminante_                ponto _culminante_
    95      perdida _no_ onda de luxuria      perdida _na_ onda de luxuria
    198     _E_ preciso pecar muito           __ preciso pecar muito
    217     Era _uma_ maritimo trigueiro      Era _um_ maritimo trigueiro
    223     _Evoluti_ com os nervos           _Evolui_ com os nervos
    248     _Conevno-me_ de que              _Conveno-me_ de que
    248     hypocrisia a _reflecitr_          hypocrisia a _reflectir_
    250     Mas larva a _evolutir_.           Mas larva a _evoluir_.
    254     _Pizes-Altos_ da Belleza          _Paizes-Altos_ da Belleza
    259     dos primeiros _tubercluosos_      dos primeiros _tuberculosos_

2. O nome Brook aparece escrito no livro original com as seguintes grafias:
Brook, Broock e Brooke. Nesta transcrio mantivemos as 3 grafias nos
locais onde apareciam.





End of the Project Gutenberg EBook of Nova Sapho, by Visconde de Villa-Moura

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOVA SAPHO ***

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($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
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particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
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works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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